Forças Armadas da Alemanha lançam reality para atrair jovens

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Construir uma carreira nas Forças Armadas da Alemanha (Bundeswehr) é o desejo dos alemães Julia Weisshuhn, de 18 anos, Jerome Demelius e Nathan Palme, ambos de 19 anos. Os três viram o sonho começar a virar realidade ao serem aceitos na Marinha. A admissão, no entanto, chegou junto com um convite para participar do primeiro reality show da Bundeswehr.

Após passarem por uma seleção, com base em vídeos enviados pelos candidatos, os três se tornaram os novos garotos propaganda da instituição e são as estrelas do reality show "Os recrutas", que, durante três meses, mostrará os primeiros passos de 12 novatos no curso de formação básica para a Marinha.

"Espero do curso de formação mais valores, organização, disciplina, e também, em primeiro lugar, diversão", conta Jerome, no vídeo de sua apresentação. Nathan, além da disciplina, diz esperar ser confrontado com situações extremas.

O programa, que é transmitido diariamente no YouTube, promete "desafio" e "superação" ao exibir os meses "mais duros da vida" dos participantes.

Apesar de parecer mais um mero programa de entretenimento, a iniciativa da Bundeswehr visa, na verdade, atrair jovens para a instituição.

"Sob o lema 'Faça o que realmente conta', a Bundeswehr se posiciona desde 2015 como um empregador atraente.

"As Forças Armadas são atualmente um exército voluntário, por isso precisamos nos aproximar dos jovens para atrai-los", contou uma porta-voz do Ministério da Defesa sobre os motivos que levaram a instituição a produzir um reality show.

Nos últimos 25 anos, as Forças Armadas da Alemanha perderam mais da metade dos efetivos que possuía em 1990, quando houve a reunificação do país. O número de militares caiu de 585 mil para aproximadamente 178 mil, em 2015. O interesse por uma carreira na instituição também se esvaiu com o fim da obrigatoriedade do serviço militar, em julho de 2011.

Para o comissário do Parlamento alemão para a Bundeswehr, Hans-Peter Bartels, do Partido Social-Democrata (SPD), diante da grande concorrência no mercado de trabalho, a instituição precisa se tornar mais conhecida entre os jovens para conseguir novos recrutas. Assim, ele considera um reality com protagonistas jovens mais interessante do que folhetos explicativos.

"As particularidades da profissão de soldado precisam se tornar mais visíveis. A escolha da plataforma YouTube, popular entre jovens, é uma forma bem humorada de se dirigir a esse público", afirma Bartels.

O reality foi lançado seis meses após a ministra da Defesa, Ursula von der Leyen, anunciar ampliação do efetivo em 14,3 mil soldados até 2023. Nos planos do governo, cerca de 7 mil novas vagas para militares devem ser abertas, e, para preenchê-las, a instituição precisa vencer a concorrência entre outros potenciais empregadores.

Imagem romantizada e alto custo

De segunda a sexta-feira, um novo episódio, de cerca de cinco minutos, é disponibilizado no YouTube. As primeiras duas semanas mostraram a ambientação dos novos recrutas no quartel. Com uma narrativa descontraída e irreverente, os vídeos focaram, principalmente, nas atividades esportivas e regras institucionais, que vão desde arrumar a cama corretamente até como se comportar diante de superiores.

Os primeiros capítulos também mostraram as primeiras lágrimas e decepções dos recrutas - Julia, por exemplo, foi obrigada a retirar todos seus piercings já na chegada ao quartel. Além dos jovens recrutas, oficiais são personagens na série e explicam os objetivos de treinos e regras, avaliando também as atividades.

Apesar de possuir um formato quase didático, o conteúdo da série é alvo de críticas, pois apresentaria uma imagem romantizada da profissão, mostrando o soldado como alguém que só pratica esportes e deixando de lado a realidade enfrentada por tropas enviadas para missões no exterior.

"Tecnicamente a série é bem feita, mas o conteúdo é extremamente insuficiente. O programa passa a imagem da Bundeswehr como uma aventura de férias num albergue com funcionários peculiares", afirmou Ulla Jelpke, porta-voz de política interna da bancada parlamentar da legenda A Esquerda.

"A série ignora que os superiores, apresentados como engraçados, serão aqueles que irão ordenar, em casos sérios, que os jovens recrutas atirem em outras pessoas ou entrem em situações onde há risco de vida", ressaltou Jelpke, destacando que a propaganda é irresponsável ao não mostrar a função real das Forças Armadas.

Outro aspecto que motivou críticas de partidos de oposição foi o valor investido no projeto. A produção do reality custou 1,7 milhão de euros (ou R$ 6,1 milhões) e mais 6,2 milhões de euros (R$ 22 milhões) foram destinados para promover a série, em outdoors e em propagandas de rádio e televisão.

"O problema não é o formato reality, mas sim os custos da produção, que foi extremamente cara. Ao todo, foram investidos quase 8 milhões de euros (R$ 29 milhões) no programa e não sabemos se haverá algum resultado", afirmou o deputado Tobias Lidner, que integra a comissão de orçamento do Parlamento alemão pelo Partido Verde.

Bartels, o comissário do Parlamento alemão para a Bundeswehr, não criticou diretamente o investimento no reality, mas destacou que o rombo no quadro de funcionários não é o único problema da instituição. "Falta material e infraestrutura. Para isso precisamos de mais dinheiro. Não podemos substituir um problema pelo outro", acrescentou.

Novas temporadas

O Ministério da Defesa rechaçou as críticas ao projeto. De acordo com a porta-voz do órgão, a repercussão do início da campanha mostrou que o investimento é válido. Na primeira semana de exibição, o reality já alcançou mais de 7 milhões de visualizações e o canal da série atraiu mais de 188 mil inscritos, e esse número cresce diariamente.

Além disso, os vídeos dos recrutas estiveram na lista dos cinco mais vistos do YouTube alemão por cinco dias consecutivos desde o lançamento do primeiro episódio. A porta-voz argumentou ainda que a série poderá ser visualizada durante anos na plataforma.

Sobre as críticas em relação à apresentação da instituição, o ministério afirmou que os jovens foram acompanhados durante o curso de formação, como ele realmente ocorre, sem que houvesse roteiros ou interferências para a produção do reality show.

Apesar das controvérsias, o formato parece ter agradado ao público e aos militares. O ministério cogita dar continuidade ao projeto com novas temporadas. Mas essa decisão será tomada somente depois da avaliação final da primeira edição.

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