'Sobrevivemos ao Boko Haram, mas não à fome': o drama das crianças mortas por inanição na Nigéria

  • BBC

    Abdullahi corre o risco de morrer de fome, diz sua mãe

    Abdullahi corre o risco de morrer de fome, diz sua mãe

No mês passado, Kawu Ashe teve de tomar uma decisão de vida ou morte e abandonar o povoado onde vivia na Nigéria após receber uma mensagem aterrorizante do grupo extremista Boko Haram: "Voltaremos novamente para buscar seu filho".

Há dois anos, os militantes já haviam matado seu marido. Agora, diziam que o filho do casal, de dois anos e meio, lhes pertencia.

Ashe agiu rapidamente para proteger o pequeno Abdullahi, ainda que o castigo para quem tenta escapar do grupo seja a execução.

Amparados pela noite, ela e os dois filhos, além da irmã, caminharam por matagais por nove horas até chegar a um local seguro.

Mas, ainda que tenha conseguido resguardar Abdullahi dos extremistas, ela o deixou exposto a outra ameaça: a inanição que aflige mais de 120 mil pessoas no nordeste nigeriano, uma região devastada pela insurgência do Boko Haram.

A ONU descreveu a desnutrição aguda e generalizada nesta área do país africano como a "pior crise do continente" e convocou a comunidade internacional a contribuir com mais de US$ 1 bilhão (R$ 3,4 bilhões) para salvar seus 7 milhões de habitantes.

Em julho, o organismo internacional calculou que há 250 mil crianças com menos de 5 anos nesta situação no Estado de Borno. Uma em cada cinco corre risco de morrer por isso.

Abdullahi está esquelético. Pesa 7 kg, a metade do normal para uma criança da sua idade. "Não havia comida nem água potável em nosso vilarejo", diz Ashe à BBC em uma clínica de nutrição da Unicef, agência da ONU para a infância, na capital de Borno, Maiduguri.

"Se conseguíamos algo para comer, os militantes tomavam da gente. As coisas estão um pouco melhores aqui, mas ainda preciso lutar para alimentar meus filhos."

No mês passado, a organização Médico Sem Fronteiras denunciou que milhares de crianças já morreram de inanição em decorrência da crise.

BBC
A família de Ali não tem dinheiro para alimentá-lo

'Começa com as crianças'

Fundado em 2002, o Boko Haram se concentrou inicialmente em combater a educação de estilo ocidental.

Passou a realizar operações militares em 2009 e, mais recentemente, uniu-se ao grupo extremista autodenominado Estado Islâmico e instaurou um califado em uma região que se estende por parte do nordeste da Nigéria.

Nos sete anos que está na região, o grupo arrasou com tudo. Muitos habitantes tornaram-se suas vítimas, e milhões fugiram para escapar do mesmo destino tanto no norte da Nigéria quanto nos países vizinhos Chade, Camarões e Niger.

O exército nigeriano vem recuperando grande parte do território ocupado pelos extremistas nos últimos 22 meses. À medida que avança e obriga militantes a deixarem o território antes controlados por eles, a real dimensão da tragédia vai sendo revelada.

Os ataques frequentes do Boko Haram impediram que, pelo terceiro ano consecutivo, agricultores cultivassem suas terras. E os comboios de ajuda alimentar são com frequência alvo de emboscadas ao percorrer rotas inseguras.

Também há acusações de roubos de grande escala da ajuda humanitária que chega até a região, que estão sendo investigados pelo Senado nigeriano.

Os militares ainda fecharam os mercados por questão de segurança, e muitas pessoas não têm onde ir para comprar o básico.

A ONU diz que milhões dependem de ajuda humanitária atualmente, mas que não há recursos suficientes para atender a todos.

"Sem mais assistência internacional, muito mais gente ainda vai morrer. E o problema começa com as crianças, porque seus pais não têm meios de cuidar delas", afirma John Ging, diretor de operações do Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários.

"Estamos em 2016 e deveríamos ser capazes de responder melhor a uma situação assim, porque vivemos em um mundo rico. Precisamos de uma pequena fração desta riqueza para ações humanitárias. No momento, não estamos recebendo nem isso."

Sunday Alamba/AP
Criança desnutrida é pesada em clínica da Médicos sem Fronteiras em Maiduguri, Nigéria

'Inchados' pela fome

Maiduguri transformou-se no principal centro de esforços humanitários. Sua população aumentou em centenas de milhares, com civis chegando em fuga da violência e se instalando em campos de refugiados precários.

Os casos mais graves de inanição são levados para as instalações da Médicos Sem Fronteiras na cidade. Na unidade de tratamento intensivo, há uma dezena de crianças sobre as camas.

Elas precisam receber oxigênio e algumas têm sondas na cabeça, único lugar do corpo onde enfermeiras conseguiram achar uma veia.

Uma delas é Ali, um menino albino de 2 anos. Sua mãe, Zara Mustafa, conta que o marido não conseguiu trabalho depois de a família fugir de casa - e que assim não têm dinheiro para comprar comida. "Às vezes, não comemos por três dias", revela.

Em outra cama, esta Mohammedu, de apenas 1 mês. Seu corpo está inchado por conta da desnutrição. Sua mãe, Aisha Umar, tem outros seis filhos. "É muito difícil conseguir comida aqui. Mandei meus filhos mendigarem", diz.

Ali, embora corram grave perigo, ao menos elas recebem algum tipo de assistência.

Nas áreas sob o controle do Boko Haram, a ajuda nem sequer consegue chegar. Supõe-se que as condições ali sejam ainda piores que em Maiduguri.

E, segundo observadores internacionais, com a temporada da seca prestes a começar, há ainda mais fome - e mortes - no horizonte do país.

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos