Retirada de civis e rebeldes de Aleppo é suspensa após violação de cessar-fogo

O cessar-fogo que entrou em vigor em Aleppo na terça-feira foi suspenso nesta quarta após a retomada de ataques de artilharia e de bombardeios aéreos na cidade.

Os ataques impediram a operação de retirada de rebeldes e civis.

"Os confrontos são violentos e o bombardeio é muito pesado... parece que tudo (o cessar-fogo) teve fim", disse Rami Abdulrahman, diretor do Observatório Sírio de Direitos Humanos, com sede em Londres.

Ativistas sírios informaram, por sua vez, que os bombardeios aéreos em áreas mantidas pelos rebeldes deixaram pelo menos 40 feridos.

A quebra do pacto de cessar-fogo, intermediado pela Rússia e a Turquia, está sendo atribuída à solicitação do governo sírio para que soldados e civis feridos de cidades vizinhas a Aleppo, cercadas por forças rebeldes, fossem retirados simultaneamente.

Aleppo é um dos principais campos de batalha na guerra entre as forças leais ao presidente Bashar al-Assad e grupos rebeldes que querem derrubá-lo.

A zona leste de Aleppo estava sob domínio dos rebeldes desde 2012. Mas o grupo foi confinado em áreas menores nos últimos meses diante da ofensiva das tropas sírias, que tiveram o apoio de milícias do Irã e ataques aéreos da Rússia.

O pacto de cessar-fogo foi anunciado na terça-feira pelo embaixador da Rússia na ONU, Vitaly Churkin, que disse que as tropas do governo sírio tinham retomado o controle das últimas partes da cidade que estavam sob domínio dos rebeldes.

Segundo o governo da Turquia, que participou das negociações, o acordo previa que civis e rebeldes fossem levados para a província de Idlib, no noroeste do país, controlada em grande parte por uma aliança de grupos da oposição.

Na manhã desta quarta-feira, dezenas de ônibus chegaram à rodovia principal de Aleppo para iniciar a operação. Não havia, no entanto, clareza sobre em quanto tempo seria feita a retirada ou a rota que os veículos seguiriam.

De acordo com o Observatório Sírio de Direitos Humanos, a operação estava marcada para ter início às 5h (horário local). Horas depois, no entanto, ainda não havia começado.

Em seguida, chegou a informação de que o processo tinha sido colocado em espera - ambulâncias que se dirigiam para a cidade para resgatar feridos retornaram ao seu ponto de partida.

O bombardeio foi reportado horas depois.

O ministro russo das Relações Exteriores, Sergei Lavrov, disse esperar que "os rebeldes parem de resistir nos próximos dois ou três dias".

Já a Turquia afirmou que está conversando com a Rússia e o Irã, que apoiam o governo sírio, para tentar preservar o acordo.

"Existe um acordo que precisa ser implementado", declarou Mevlut Cavusoglu, ministro das Relações Exteriores da Turquia, acusando o governo sírio de tentar bloquear o pacto.

Denúncia de execução de civis

O acordo de cessar-fogo foi anunciado na terça-feira, após o escritório de Direitos Humanos da ONU ter denunciado execuções de civis por forças pró-governo nos bairros tomados pelas tropas sírias.

De acordo com o porta-voz Rupert Colville, há evidências de que 82 civis foram executados por forças sírias pró-governo em quatro áreas distintas da cidade. Desse total, 11 seriam mulheres e 13, crianças.

Ele reconhece que não é possível confirmar a veracidade das informações, mas alerta que o número de mortos pode ser ainda maior. Segundo diz, houve relatos de corpos encontrados nas ruas, com moradores impossibilitados de retirá-los por medo de serem alvejados.

Apesar das denúncias, o acordo não previa com clareza o destino da população civil.

Grupos rebeldes sugeriram que eles deviam ser incluídos na operação de retirada, mas aliados russos do governo sírio disseram que só viabilizariam a saída de combatentes.

"Os civis podem ficar, ir para locais seguros, tirar proveito dos acordos humanitários. Ninguém vai ferir civis", afirmou Churkin, embaixador da Rússia na ONU, reiterando o repúdio de Moscou às denúncias de abuso à população civil em Aleppo.

Áreas dominadas por rebeldes

Antes que o fim das hostilidades fosse anunciado, os rebeldes ficaram acuados em alguns bairros no leste da cidade, que foram cercados pelas forças de Assad.

É difícil saber exatamente quantas pessoas estão nas áreas sitiadas, mas o enviado da ONU, Staffan de Mistura, estima que seriam cerca de 50 mil.

Segundo ele, há aproximadamente 1,5 mil combatentes rebeldes - cerca de 30% fazem parte de um grupo jihadista conhecido como Frente Al-Nusra.

Outras fontes locais dizem que pode haver até 100 mil pessoas na região, muitas procedentes de áreas retomadas recentemente pelo governo sírio.

Ibrahim abu-Laith, um porta-voz do grupo de resgate voluntário conhecido como "capacetes brancos", afirmou que 90% do equipamento de atendimento deles parou de funcionar e só um posto médico ainda operava nas áreas sitiadas.

Ele disse ainda que não há mais material de primeiros socorros.

As consequências

Não há dúvidas de que a retomada da região pelas tropas sírias é um grande golpe para os rebeldes. E, ao mesmo tempo, uma "vitória propagandista" para o governo de Bashar al-Assad.

"Assad controla agora virtualmente todos os grandes centros populacionais do país", avalia Jonathan Marcus, correspondente da BBC para defesa e assuntos diplomáticos.

A ocupação também significa uma vitória para os russos, iranianos, o grupo libanês Hezbollah e algumas milícias xiitas iraquianas, que têm interesses estratégicos na região.

Mas os rebeldes ainda controlam outras partes do país, assim como os jihadistas do grupo autodenominado Estado Islâmico. Então, tudo indica que a guerra na Síria continua.

O editor de Oriente Médio da BBC Jeremy Bowen acredita que haverá um tipo diferente de guerra de agora em diante - com menos rebeldes tentando manter territórios e mais ataques rápidos e insurgências.

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