A cidade espanhola que atrai católicos convertidos ao Islamismo

Inka Piegsa-Quischotte

Da BBC Travel

  • Getty Images/iStockphoto

    Órgiva, localizada a 60 km de Granada e em meio às montanhas da região de Alpujarra, tem 68 nacionalidades entre seus habitantes

    Órgiva, localizada a 60 km de Granada e em meio às montanhas da região de Alpujarra, tem 68 nacionalidades entre seus habitantes

"Meu nome é Bahia. Em árabe, isso significa 'oceano de beleza e compaixão'. Bem-vinda à minha escola", diz a mulher, coberta dos pés à cabeça com um véu em tons roxos e rosa.

Enquanto serve chá e doces sob das oliveiras no quintal de sua pequena escola montessoriana, ela começa a falar sobre o Sufismo - a dimensão mística do Islamismo.

Estamos em pleno sul da católica Espanha.

Órgiva, localizada a 60 km de Granada e em meio às montanhas da região de Alpujarra, é um local extraordinário.

A cidadezinha é habitada por apenas 6 mil pessoas, que representam 68 nacionalidades e incluem representantes do budismo e mesmo uma comunidade alternativa chamada Beneficio.

Mas meu interesse nessa comunidade foi motivado por outra representatividade: as 35 famílias que se converteram do Catolicismo ao Islamismo e se mudaram para lá.

Tolerância

Apesar da Espanha ter grande fluxo imigratório de norte-africanos, é raro ver espanhóis se convertendo à religião de Maomé, em especial à Ordem Sufista. Eu queria saber o que os fez optar pelo Islã e pela vida neste canto remoto da Andaluzia.

Bahia, por exemplo, nasceu Maria José Villa Cascos, em Sevilha. Formou-se em direito e trabalhou como advogada em Madri. Mas, nos tempos de ensino secundário, ela já se interessava por outras religiões.

"Descobri a filosofia e os ensinamentos do Sufismo, especialmente a tolerância, o amor incondicional pela humanidade e a rejeição à violência. Isso fez com que eu me convertesse. Nós nos concentramos na simplicidade da vida, valorizando o espiritual mais do que o material. Foi por isso também que deixei o direito para trabalhar como professora", explica.

Bahia conta que Órgiva tem importância para os sufistas por ter sido a cidade onde morava Umar, emir que nos anos 1970 foi apontado o líder da ordem sufista.

Nas últimas décadas, outros convertidos vieram para a região, e ela não hesitou quando o posto de diretora da escola montessoriana local surgiu.

Mas os sufistas de Órgiva usam celulares, têm contas no Instagram e são donos de negócios. Outros sçao fazendeiros e comerciantes. A principal diferença entre eles e o resto dos cidadãos está no vestuário. Homens usam calças e camisas largas, ao passo que mulheres cobrem a cabeça com véus e usam vestidos de mangas compridas que vão até os tornozelos.

Pergunto se o medo de novos ataques terroristas na Espanha, como o que matou dezenas de pessoas em 2004, e associação de muçulmanos ao jihadismo mudou a percepção das pessoas sobre os sufistas. "Em outros lugares as pessoas podem ficar olhando, mas aqui em Órgiva somos uma grande comunidade", diz Bahia.

Em vez de se preocupar com o medo alheio, ela quer propagar a mensagem de tolerância, amor e compreensão.

"Os tempos em que vivemos deram às pessoas uma visão limitada do Islã. Bombas e ataques viram manchete. Boas ações, não. Esse desequilíbrio precisa ser abordado e as pessoas devem entender que o Islã e o Sufismo pregam paz e total devoção a Alá, o barco em que cruzamos o oceano da vida".

Propósito

Para saber um pouco mais, visitei a casa de chá Baraka, de propriedade de outro sufi, Pedro Barrio, que hoje atende pelo nome Qasim. Nascido em uma família católica de Bilbao, no País Basco, ele também buscou orientação espiritual desde cedo.

"Eu pratiquei budismo e até o xamanismo, mas conheci o sufismo por intermédio de um amigo. Foi quando descobri que Jesus é considerado um profeta pelo Islã. Tudo me pareceu muito familiar, e eu soube que essa era a fé que queria seguir. E que me deu paz e propósito na vida."

"Minha mãe foi compreensiva, mas meu pai ficou zangado. E havia outro problema: eu trabalhava no restaurante da família e, mesmo depois das orações , precisava servir álcool e carne de porco para os fregueses. Mas um sufi em Órgiva entrou em contato comigo para abrir um restaurante islâmico, porque precisava de um investidor. Comecei como sócio e hoje sou dono", explica.

Baraka tem uma clientela diversa que inclui turistas e serve comida orgânica. Experimentei um tagine de galinha com bolo de tâmaras e canela de sobremesa.

Sentada no terraço do restaurante, recebi uma lição de como diferentes nacionalidades, ideologias e religiões podem interagir pacificamente. Dreadlocks e véus, e mesmo um ocasional robe laranja de um monge budista se misturavam no estabelecimento. Ouvi frases em inglês, alemão, francês, árabe e - ocasionalmente - espanhol.

Qasim me levou para o templo sufi, onde nas noites de quinta-feira a comunidade realiza um louvor (dhikr) e uma meditação (hadra). Na sexta-feira, o dia sagrado para os muçulmanos, há mais orações e uma refeição comunal.

O templo é uma construção simples, escondida em meio a plantações de oliveiras e laranjeiras a 2 km do centro da cidade. Há uma pequena sala de orações, uma cozinha e três quartos de hóspedes com decoração espartana, reservados para sufis que visitam a cidade.

Crianças corriam pelo quintal enquanto mulheres preparavam uma refeição e recebiam visitantes. "São pessoas do Marrocos e de outros países muçulmanos que fazem roteiros de viagem com visitas a comunidades muçulmanas em outros países. É algo que vem se tornando bem popular", explica Qasim.

Ele explica a importância de propagar a mensagem de tolerância para o mundo não-muçulmano. "Nós temos prazer em receber turistas como você para que o mundo saiba mais sobre nós. Se Alá quiser, um dia talvez possamos viver todos em paz", diz, antes de nos despedirmos.

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