Aleppo: o que espera os sírios que conseguiram sair de cidade sitiada

  • AFP

    Muitas das pessoas retiradas de Aleppo são crianças ou mulheres

    Muitas das pessoas retiradas de Aleppo são crianças ou mulheres

Milhares de civis passaram outra noite presos no leste de Aleppo esperando para serem retirados em meio ao frio intenso e condições perigosas. O atraso na retirada destes civis estaria ocorrendo devido a divergências sobre o plano de evacuação.

Jornalistas contaram que viram pessoas dormindo nas ruas, em temperaturas congelantes, com pouca ou nenhuma comida. 

A imprensa estatal da Síria informou neste domingo que ônibus entraram na parte leste da cidade para começar a retirada. Segundo informações, 1,2 mil pessoas seriam retiradas do antigo reduto rebelde em troca da retirada de um número equivalente de pessoas saindo de áreas comandadas pelo governo na província vizinha, Idlib, das cidades de Foah e Kefraya, que estão sob cerco dos rebeldes.

Mas, surgiram informações de que os rebeldes teriam incendiado os ônibus que foram mandados para Idlib. 

Enquanto o impasse continua, a Cruz Vermelha Internacional afirmou que está se preparando para retomar a operação de resgate e informou à BBC que está esperando na fronteira entre Síria e Turquia para receber civis.

Alguns moradores de Aleppo relatam que não querem abandonar a cidade, temendo a retomada dos combates, mas eles também temem não ter escolha.

A maioria dos que conseguiram ser retirados está sendo levada para a província de Idlib, onde os grupos de ajuda humanitária afirmam que não há comida nem suprimentos médicos suficientes.

Veja abaixo quantos já conseguiram sair do leste de Aleppo e qual a situação que eles poderão enfrentar.

Quantos já saíram?

Pelo menos 6 mil pessoas já saíram de partes do leste de Aleppo, incluindo 3 mil combatentes rebeldes e 300 feridos, segundo o Observatório Sírio para os Direitos Humanos, um grupo de monitoramento baseado no Reino Unido.

Mas muitos combatentes se recusaram a sair da área. Alguns temiam ser presos e obrigados a se juntar ao Exército sírio, outros preferiam resistir e falavam que iriam morrer lutando.

O enviado da ONU para a Síria, Staffan de Mistura, estimou que na quinta-feira cerca de 50 mil pessoas, incluindo 40 mil civis, ainda estavam presas em Aleppo.

Anos de combates deixaram partes do leste de cidade totalmente destruídas. Uma grande operação do governo da Síria, com o apoio de ataques aéreos da Rússia, piorou ainda mais uma situação que já estava ruim devido ao cerco imposto por soldados sírios.

Um acordo para retirar as pessoas da região e permitir que civis e rebeldes sejam levados para áreas no norte da Síria comandadas pelos rebeldes foi fechado pela Rússia, um dos aliados mais importantes do presidente Bashar al-Assad, e a Turquia. Mas a operação foi marcada por atrasos e trocas de acusações entre os envolvidos.

Rebeldes derrotados e civis estão presos no leste de Aleppo. Entre as pessoas que precisam ser retiradas do local estão doentes e crianças feridas, segundo a Unicef.

A Unicef ainda afirma que algumas crianças foram obrigadas a ir embora sem os pais. Mas centenas ainda estão presas na parte leste da cidade síria.

Um ativista que está em Aleppo contou à agência de notícias Reuters que as pessoas esperam nas ruas, junto com sacolas com seus pertences no que tem sido descrito como uma operação muito lenta.

As crianças estão "com fome e chorando" e todos estão "exaustos", sem saber se os ônibus vão realmente chegar para levar todos embora.

Para onde eles vão?

Os moradores de Aleppo estão sendo transferidos para áreas comandadas pelos rebeldes na província vizinha, de Idlib. Muitos foram para acampamentos e outros foram para casas de familiares, de acordo com depoimentos de funcionários de agências humanitárias.

Os feridos em estado grave foram levados para hospitais já lotados do oeste de Aleppo, área dominada pelo governo sírio, de acordo com a Organização Mundial de Saúde.

Alguns destes feridos tiveram membros amputados, outros estão com ferimentos graves na cabeça e no rosto. Outros entre estes feridos foram transferidos para Idlib e até para a Turquia.

Autoridades turcas informaram à agência de notícias Reuters que o país estava se preparando para estabelecer um acampamento para receber até 80 mil pessoas perto da fronteira, mas ainda dentro da Síria.

As autoridades da Turquia também disseram que os feridos e doentes poderão passar pela fronteira e entrar no país.

Quais são as condições de atendimento em Idlib?

O Comitê Internacional de Resgate (IRC, na sigla em inglês) informou que em muitos lugares as condições já não são mais adequadas, com famílias alojadas em prédios lotados que ainda não foram finalizados, sem aquecimento, banheiros ou água corrente.

Vilarejos na zona rural também já estariam ficando lotados.

Um médico que está trabalhando como voluntário em um hospital improvisado de Idlib contou que não há equipamentos para monitorar os pacientes. "Mesmo os que estão na Unidade de Terapia Intensiva não tem aparelho para respirar", afirmou o médico em um vídeo postado no Facebook.

O vice-pimeiro-ministro da Turquia, Veysi Kaynak, afirmou à agência de notícias turca Dogan que Idlib "não tem capacidade física para acomodar tanta gente". Idlib já recebeu 230 mil pessoas, de acordo com o IRC.

Eles ficarão seguros em Idlib?

Agências humanitárias estão preocupadas com a segurança dos que chegaram a Idlib, que é uma das últimas áreas comandadas pela oposição da Síria.

A maior parte da região é controlada por uma aliança rebelde poderosa que inclui o grupo jihadista Jabhat Fateh al-Sham.

A província já foi bombardeada várias vezes por aviões da Síria e da Rússia e, segundo analistas, Idlib poderá ser o próximo alvo do governo sírio. "Se não houver um acordo político e um cessar-fogo, Idlib vai se transformar na próxima Aleppo", alertou o enviado da ONU para a Síria, Staffan de Mistura.

O que está acontecendo com as cidades sob o cerco dos rebeldes?

O comitê internacional da Cruz Vermelha estima que um total de 20 mil pessoas vivem em Fouah e Kefraya, duas cidades de maioria muçulmana xiita dentro da província de Idlib que estão sob cerco dos rebeldes.

Os combatentes a favor do governo da Síria se retiraram no fim de 2015 e relataram que a situação de fome dos moradores destas cidades era tão grave que eles estariam comendo grama.

E a falta de suprimentos médicos estava fazendo com que muitos dos feridos fossem operados sem anestesia.

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