O que esperar de 2017 na política internacional

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Como será 2017? É difícil adivinhar, mas alguns eventos de 2016 indicam que poderá ser um ano muito difícil para o Ocidente, em meio a uma crescente dificuldade de determinar as regras que governam o jogo global.

"Acabou a era do pós-Guerra Fria marcada por um processo de globalização liderado por países ocidentais, pela predominância dos Estados Unidos e por um domínio confortável dos valores liberais internacionais", diz Simon Fraser, que chefiou o serviço diplomático britânico entre 2010 e 2015.

O general americano Stanley McChrystal, que comandou as tropas da OTAN no Afeganistão em 2009 e 2010, argumenta que "as atuais tensões na ordem mundial que conhecemos desde o fim da 2ª Guerra Mundial refletem a descentralização ou fragmentação do poder em diversos níveis".

Entre alguns eventos chaves do final de 2016, estão:

- O suposto uso pela Rússia de informações hackeadas na eleição americana;

- A repressão a rebeldes em Aleppo oriental, na Síria, e a seus apoiadores internacionais, envolvendo o uso em larga escala de armas banidas em muitos países;

- A decisão da China de ignorar a decisão da Conferência da ONU sobre Leis Marítimas contrária à posição de Pequim em uma disputa territorial com as Filipinas;

- A decisão de alguns países, entre eles Rússia e África do Sul, de se retirarem do Tribunal Penal Internacional;

- As ameaças a alguns acordos de comércio internacional, como o anúncio feito presidente eleito Donald Trump de que os Estados Unidos abandonará a Parceria Transpacífico.

O que vem acontecendo na Síria sinaliza o fracasso dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU - China, França, Rússia, Reino Unido e Estados Unidos - em chegar a um acordo sobre como acabar com essa crise.

Na verdade, desde que a ONU foi criada, em 1945, as grandes potências raramente se uniram durante uma séria crise internacional e nunca fizeram isso quando interesses vitais de um membro permanente estavam ameaçados.

O endosso da ONU em 1991 à guerra contra Saddam Hussein liderada pelos Estados Unidos é um exemplo excepcional e efêmero do apoio do Conselho de Segurança a um conflito.

Nossa noção atual da ordem internacional "é baseada em um nível atípico de domínio americano, que sempre esteve fadado a acabar", acredita Patrick Porter, professor de Estudos Estratégicos da Universidade de Exeter, na Inglaterra.

"Essa ordem está se desmanchando de fora para dentro, conforme a transição do poder econômico do Ocidente para o Oriente torna mais difícil que o Ocidente imponha suas vontades."

Claro que muitos saudarão o fim deste superpoder americano e de sua dominância global, que prosperaram por muitos anos após o colapso do comunismo, e o surgimento de um mundo muito mais multipolar.

Em muitos países africanos e asiáticos, também há um sentimento de empoderamento conforme uma geração de líderes educados em universidades ocidentais dá lugar àqueles com uma visão de mundo própria.

No caso da África do Sul e alguns outros países africanos que estão deixando o Tribunal Penal Internacional, isso é resultado de uma percepção de injustiça, com o ministro de Informação de Gâmbia dizendo que a corte foi usada para "perseguir africanos e seus líderes".

Rússia e China também questionaram recentemente a competência da ONU para interferir em disputas territoriais que lhes são muito caras.

Se regras antigas vistas como tendo sido criadas por "colonizadores" ou potências ocidentais agora parecem ser menos relevantes em muitas partes do mundo, elas representam ao menos um sistema de credo com o qual muitos países estavam dispostos a se comprometer por décadas, ao menos nas aparências.

Ideologias que vêm emergindo com força - seja o pós-comunismo chinês, a noção russa de que há um destino para sua nação criada a partir de influências ortodoxas orientais ou as diferentes ideias islâmicas que baseiam as políticas sauditas ou iranianas - têm um apelo para seus próprios cidadãos, mas ninguém além disso.

A rejeição do status quo internacional é na verdade chave para muitas dessas narrativas nacionais e religiosas. Grupos não nacionais, como o Hezbollah ou o Boko Haram, para citar apenas dois, também representam desafios.

Em questões de segurança, finanças ou tecnologias, agentes de quebra do padrão são uma grande ameaça à ordem estabelecida, acredita o general McChrystal, e "é tentador pensar em uma visão pós-apocalíptica em que sobreviverão os mais fortes".

Enquanto esses grandes desafios espreitam do lado de fora, há também o que Porter considera ser um "colapso interno". Há hoje no Ocidente uma série de divergências. A eleição de Donald Trump gerou, por exemplo, receios de novas guerras comerciais.

Se o presidente eleito dos Estados Unidos cumprir suas diversas promessas, "estaremos nos dirigindo para um período de duras políticas internacionais: mais transacionais, com mais confrontos, impulsionadas por poderes e interesses nacionais, em vez de valores ou conceitos relativos a uma comunidade internacional", diz Fraser.

Provavelmente, haverá mais ênfase em uma diplomacia bilateral (entre pares de Estados) do que em uma multilateral - e isso pode fazer com que as relações internacionais se pareçam mais com o que havia no século 19.

Porter argumenta que "estamos nos movendo desconfortavelmente e despreparados para uma diplomacia mais 'normal' historicamente, em que grandes potências competem e colaboram simultaneamente".

A relação entre os presidentes turco, Reccep Tayip Erdogan, e russo, Vladimir Putin, é um exemplo interessante desta fase pós-ideológica dos assuntos de Estado.

Ele passaram de um estágio de confronto e sanções econômicas após a Turquia abater um jato russo para uma cooperação estratégica na Síria em 2016, depois de um encontro para aparar as arestas entre os dois países realizado na Rússia.

Mas conseguirão os países europeus e os Estados Unidos, com sua tradição democrática e grupos de interesses conflitantes, ser tão ágeis quanto líderes com poderes autocráticos?

Fraser acredita que "leis, organizações, tratados e outras 'regras do jogo' continuarão a ser essenciais, mas tomarão novas formas, em contínua mutação dentro dos parâmetros geralmente aceitos por boa parte do mundo para que tenham alguma credibilidade".

Na situação atual, as sociedades ocidentais estão em ligeira desvantagem: elas respeitam decisões internacionais, enquanto Rússia e China dizem que podem ignorá-las, como o Kremlin fez com a crise na Crimeia, além de Pequim na disputa com as Filipinas.

Em muitos casos, suas forças armadas renunciaram ao uso de bombas e minas - armas amplamente usadas pela Síria e a Rússia nos últimos meses; e a habilidade do Ocidente de responder à altura a ataques cibernéticos russos ou com qualquer caráter político é limitada, e, de qualquer maneira, seria um uso questionável se aplicado contra países em que há um amplo controle sobre a mídia.

Acrescente isso às tensões criadas pela estagnação econômica, o protecionismo e a retórica populista e você terá de se perguntar seriamente se os clubes internacionais nos quais nossa noção de "Ocidente" está baseada, como a OTAN e a União Europeia, serão capazes de sobreviver a 2017 da forma como existem hoje.

Uma série de eleições na Itália, na Holanda, na França e na Alemanha podem representar um grande teste para o bloco europeu e, especialmente, o euro.

Quanto à OTAN, Trump já sugeriu que proteções conferidas pelos Estados Unidos no futuro dependerão de os aliados europeus aumentarem sua contribuição financeira.

E, deixando claro que as ressalvas à garantia de ajuda de outrora não é unilateral, a chanceler alemã Angela Merkel indicou que qualquer cooperação futura com os americanos dependerá do "respeito" de Washington "à lei e à dignidade humana".

Nesse período de mudanças, haverá oportunidades e perigos.

A questão agora é se países ocidentais podem tirar proveito disso e comandar o desenrolar dos eventos ou se simplesmente ficarão a mercê deles.

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