O que a vida trágica da 'menina de olhos verdes' de capa de revista revela sobre o Afeganistão e o Paquistão

Você pode nunca ter ouvido falar dessa mulher antes. Mas seu rosto dificilmente passará em branco.

Sharbat Gula se tornou um dos símbolos das dificuldades dos afegãos, sobretudo das mulheres, em 1985, quando foi foto de capa de uma edição da revista National Geographic. Fitando a câmera com uma expressão séria, ficou conhecida como "a menina dos olhos verdes" quando tinha apenas 10 anos.

A reportagem falava sobre os milhares de refugiados afegãos que cruzavam a fronteira com o Paquistão para escapar de uma guerra iniciada em 1978 e agravada pela invasão por tropas da antiga União Soviética, em 1979.

Mais de 30 anos depois, ela mais uma vez se fia na esperança de um recomeço.

Sharbat foi localizada pela BBC em Kabul, a capital afegã. Ela vive na cidade com seus quatro filhos (três meninas e um menino), depois de ter sido deportada do Paquistão ano passado sob a acusação de obter "ilegalmente" documentos de identidade, onde viveu por 35 anos.

Em uma entrevista exclusiva, e a primeira em 15 anos, a afegã conta que apenas quer viver uma vida normal após anos de tragédias e dificuldades. A única outra vez em que ela falou à mídia foi em 2002, para um documentário em que Steve McCurry, o fotógrafo responsável pela icônica foto, encontrou-a no Paquistão.

"Tínhamos uma vida boa no Paquistão. (Tínhamos) Bons vizinhos e vivíamos com outros Pashtun (um dos maiores grupos étnicos do Afeganistão e do Paquistão). Não esperava que o governo fosse nos tratar dessa maneira", conta ela, que foi presa antes de ser deportada.

O caso dela é um exemplo de como os refugiados se transformaram em um motivo de desavenças entre os governos dos dois países.

Em setembro, Islamabad anunciou planos para deportar 3 milhões de afegãos até março - e não apenas refugiados, mas mesmo migrantes de segunda e terceira gerações.

Nas projeções da ONU, pelo menos 600 mil pessoas teriam sido repatriadas contra sua vontade em 2016 - e sem o apoio apropriado de agências internacionais para evitar uma crise humanitária.

O Paquistão proíbe que estrangeiros possuam documentos de identidade, que começaram a ser emitidos na década de 1970, mas a lei nem sempre vinha sendo cumprida de forma rigorosa.

Prisão

Apesar da saúde fragilizada, Sharbat ainda tem um olhar poderoso, que revela tanto esperança quanto medo.

Ela conta que já tinha vendido sua casa no Paquistão por medo se ser presa e que preparava a mudança de volta para o país natal. Dois dias antes da mudança, porém, sua casa foi invadida - e ela foi levada para a prisão.

Sharbat relata que fez a carteira de identidade falsa para que os filhos pudessem ir à escola e ela pudesse vender a casa. Ficou presa por 15 dias, mas passou a última semana no hospital, onde recebeu tratamento contra hepatite C.

Quando as autoridades paquistanesas perceberam quem ela era, Sharbat foi convidada a permanecer no país. Mas ela recusou.

"Foi a pior coisa que me aconteceu na vida. Disse a eles que estava voltando para o meu país. 'Vocês permitiram que eu vivesse aqui por 35 anos, mas no fim me trataram dessa maneira'. Bastou para mim".

Sharbat perdeu o marido e a filha mais velha quando vivia na cidade de Peshawar. Ambos estão enterrados lá.

"Se quisesse voltar, seria somente para orar junto aos túmulos do meu marido e da minha filha, que foram sepultados em frente à casa em que vivíamos."

A foto

A famosa foto da "Garota Afegã" foi tirada por Steve McCurry em 1984, em um campo de refugiados perto de Peshawar - Sharbat estudava em uma escola improvisada em uma tenda.

Publicada no ano seguinte, a imagem fez da capa da National Geographic uma das mais icônicas já publicadas.

Por anos, porém, a "menina dos olhos verdes" por anos ficou sem saber de sua celebridade.

"Meu irmão me mostrou a foto e eu me reconheci. Fiquei surpresa porque não gostava da mídia e de tirar fotos quando era criança. Fiquei um pouco preocupada com a publicidade em torno da foto, mas quando soube que fui a causa pela qual muita gente ajudou e apoiou os refugiados, fiquei feliz."

Sharbat vivia com a família em Kot, na província afegã de Nangarhar, no leste do país, quando as forças soviéticas invadiram o país.

"Havia uma guerra. Por isso fomos embora. Muita coisa foi destruída."

Sua mãe morrera de apendicite quando ela tinha apenas oito anos. E assim como centenas de milhares de outros afegães, sua família (pai, quatro irmãs e um irmão) migrou para o Paquistão e passou a viver em uma tenda no campo de refugiados de Kacha Garahi.

A "menina dos olhos verdes" se casou aos 13 anos. Seu marido, Rahmat Gul, morreu há cinco anos, vítima de hepatite C, a mesma doença que em 2014 matou a filha mais velha, que tinha apenas 22 anos e deixou um bebê de dois meses.

Recepção

Sharbat foi recebida pelo presidente afegão, Ashraf Ghani, no palácio presidencial, quando voltou ao país.

"Recebi respeito e fui recebida com entusiasmo."

O presidente prometeu apoio financeiro e disse que compraria uma casa para ela em Cabul.

"Espero que o governo cumpra a promessa", disse ela.

Sharbat não pode voltar para sua região - Kot hoje é um distrito dominado por militantes ligados ao grupo autodenominado Estado Islâmico. Um de seus irmãos e centenas de outros habitantes da região fugiram, temendo a brutalidade dos extremistas.

Mas ela quer ficar em seu país, melhorar de saúde e fazer com que não apenas suas crianças tenham vidas mais felizes.

"Quero criar uma entidade de caridade ou um hospital que cuide de pobres, crianças órfãs e viúvas", conta.

"Quero que a paz volte a esse país e que as pessoas não fiquem desabrigadas. Espero que Deus conserte esse país."

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