Os obstáculos para que Trump cumpra suas principais promessas

João Fellet

Em Washington

  • Dominick Reuter/AFP

Donald Trump se elegeu presidente prometendo mudanças radicais na postura do governo americano em relação ao comércio exterior e à imigração. Ele diz que as propostas buscam proteger o país de ataques terroristas, estimular a criação de empregos e favorecer trabalhadores americanos.

Mas qual a viabilidade das medidas?

No dia em que o empresário assume a Casa Branca, a BBC Brasil lista desafios que o sucessor de Barack Obama deverá encarar para tirar algumas de suas principais propostas do papel.

Erguer um muro na fronteira com o México

A fronteira entre EUA e México tem cerca de 3.000 quilômetros - a mesma distância entre a cidade brasileira de Natal e Dacar, a capital do Senegal -, e já existe algum tipo de barreira em um terço de sua extensão. As demais áreas ficam em regiões desérticas ou montanhosas, de difícil acesso.

Engenheiros afirmam que, caso Trump decida erguer um muro de concreto, uma opção que consideram natural, o material teria de ser produzido em fábricas próximas à construção - o que em alguns pontos acarretaria altos custos e desafios logísticos.

Em entrevista recente, o novo presidente afirmou que em alguns trechos o muro poderia ser substituído por cercas. Ele disse que a obra custaria até US$ 12 bilhões. Já o jornal The Washington Post calculou que o preço se aproximaria dos US$ 25 bilhões.

Outra complicação seria erguer o muro em áreas privadas ao longo da fronteira, o que poderia exigir custos adicionais para a compra das terras ou batalhas judiciais contra os donos.

Deter e deportar todos os imigrantes ilegais

Estima-se que 11 milhões de imigrantes irregulares vivam nos EUA, muitos dos quais ingressaram por terra e jamais entraram nos registros do governo. Para localizá-los, seria preciso realizar uma operação monumental, com inspeções em abrigos, fazendas, fábricas e lojas por todo o país.

Para dar conta da missão, Trump pretende triplicar para 15 mil o número de agentes de deportação.

Não haveria, porém, espaço para acolher os detidos até que eles tivessem o pedido de deportação analisado por um juiz, etapa obrigatória na maioria dos casos. Os centros de detenção hoje comportam 34 mil pessoas, enquanto especialistas estimam que seriam necessárias ao menos 300 mil vagas.

A megaoperação também sobrecarregaria os juízes migratórios, tornando os processos de deportação ainda mais lentos (hoje, em algumas partes dos EUA, migrantes podem esperar até dois anos pela primeira audiência).

Suspender entrada de muçulmanos

Advogados afirmam que, se tentar barrar muçulmanos, a Suprema Corte poderia facilmente derrubar a proposta com base na emenda constitucional que proíbe a discriminacão por religião.

Trump vem sinalizando, porém, que em vez de adotar critérios religiosos, pode vetar a concessão de vistos a nacionalidades específicas - algo que, segundo especialistas, a legislação lhe permitiria fazer. Ele diz que a medida se aplicaria a países que "exportam terroristas" e a regiões onde não é possível checar os antecedentes dos viajantes com precisão.

Forçar a China a mudar práticas comerciais

Trump disse que cobrará Pequim a deixar a moeda chinesa se valorizar (o que tornaria os produtos chineses menos competitivos no exterior) e a interromper a concessão de subsídios injustos à indústria chinesa. Ele afirmou que poderá impor uma taxa de até 45% a importações chinesas como forma de pressão.

Analistas apontam, porém, que uma guerra comercial contra a China poderia prejudicar empresas americanas que fabricam componentes no país asiático, como a Apple. Dificilmente essas empresas conseguiriam transferir a produção para os Estados Unidos sem encarecer os produtos, já que a mão de obra americana é mais cara que a chinesa.

Essas empresas poderiam perder mercado e, caso a China decida retaliar os EUA, companhias americanas poderão enfrentar dificuldades adicionais para exportar ao país asiático. Outra possível consequência seria o encarecimento de produtos nas prateleiras americanas.

Renegociar os termos do Nafta

O novo presidente defende mudanças no Nafta (acordo comercial entre EUA, México e Canadá) que gerem empregos para trabalhadores americanos. Se os parceiros não concordarem com as mudanças, ele diz que os EUA sairão do acordo e passarão a cobrar altas taxas de importações de produtos mexicanos.

Especialistas apontam que, assim como no caso da China, a medida poderia encarecer produtos nos EUA e prejudicar empresas americanas com ampla operação no México, como a GM, a IBM e a Coca-Cola.

Eles afirmam que, em vez de transferir fábricas para os EUA, muitas dessas empresas podem optar por deslocá-las para outros países com mão de obra barata, impedindo que os trabalhadores americanos se beneficiem da estratégia.

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