Prefeito de SP precisa 'se fantasiar menos e entregar mais', diz autor americano citado por Doria em discurso

Néli Pereira

Da BBC Brasil em São Paulo

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    Greene compara o prefeito de SP ao novo presidente dos EUA, Donald Trump

    Greene compara o prefeito de SP ao novo presidente dos EUA, Donald Trump

Em sua posse como prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB) citou no início do mês um autor americano cujo livro de estreia, As 48 Leis do Poder (1998), vem sendo comparado a O Príncipe (1532), obra póstuma de Nicolau Maquiavel (1469-1527), clássico da ciência política.

Ao se dirigir a seu padrinho político, o governador Geraldo Alckmin (PSDB), o tucano lembrou uma das "leis" de Robert Greene, mais especificamente a de número 28, que diz: "sejamos ousados, qualquer erro cometido com ousadia é facilmente corrigido com mais ousadia. Todos admiram os corajosos. Ninguém louva os covardes".

Em entrevista por telefone à BBC Brasil, o escritor de best-sellers sobre estratégia, poder e sedução se disse "lisonjeado" pela citação. Mas lançou um alerta que, ressaltou, vale tanto para Doria como para o novo presidente dos EUA, Donald Trump, com quem vê semelhanças - um "gênio do marketing" que se elegeu com o discurso do outsider, do "não político", do empresário.

"Não acho que pessoas assim vão ter muito sucesso porque a política é um ofício, uma profissão e envolve compromisso e anos de aprendizado sobre como construir alianças", afirmou.

Na conversa, Greene explicou algumas de suas "leis" mais polêmicas - há instruções como "destrua seus inimigos completamente" - e contou o que recomendaria ao prefeito paulistano caso fosse seu conselheiro:

"Diria que em vez de se fantasiar de gari, de pedreiro, que ele entregue mais. Se fantasie menos e entregue mais", disse. "Precisa se comprometer e ser muito prático - e não viciar na atenção que você acaba tendo ao dizer coisas ousadas."

Leia abaixo os principais trechos da entrevista:

Felipe Rau/Estadão Conteúdo
João Doria tem se vestido periodicamente de gari para varrer vias de São Paulo

BBC Brasil - O prefeito de São Paulo citou uma frase do seu livro no discurso de posse. Foi a lei 28, que diz "seja ousado". É preciso de mais ousadia para ser político hoje em dia, é um atributo importante?

Robert Greene - Há muitos tipos de ousadia - tem o tipo do Donald Trump, que é toda baseada em testosterona e na ideia de que ele é melhor do que todo o resto; há o tipo que eu estou trabalhando no meu novo livro e que eu chamo de "grandiosidade"; também há aquela ousadia estratégica e controlada que é muito poderosa e alguns dos grandes líderes da nossa história, como Roosevelt, a usaram muito bem.

Mas há aquele tipo de ousadia que é aquela que não tem controle, que é presunçosa, como o caso do Trump com os seus tuítes, e isso não é muito eficaz. E muitas pessoas como Trump, e talvez João Doria, pensam que vão se dar bem somente porque são ousados, e isso se desfaz muito rapidamente se eles não entregarem o que prometeram.

Em outras palavras, eles podem se tornar prisioneiros de suas próprias ousadias.

Por exemplo: você concorre em uma eleição dizendo que vai construir um muro, trazer muito crescimento, terminar acordos comerciais, e se você não consegue entregar isso porque é a natureza da política e do mundo, você cria uma sensação de decepção grande e provoca uma mudança de poder na outra direção.

Se o Brasil, por exemplo, foi dos partidos de esquerda para os de direita, voltará para a esquerda em cerca de três anos se as pessoas perceberem que alguém como Doria não consegue entregar tudo o que prometeu.

E se ele for um homem muito inteligente e maquiavélico, e se eu fosse o conselheiro dele, talvez ele pudesse fazer funcionar, mas eu tendo a pensar que pessoas assim não tem o controle de suas ousadias. O tempo vai dizer.

BBC Brasil - Se você fosse o conselheiro de Doria, que tipo de conselho daria para ele?

Greene - O conselho é: é ótimo criar esses espetáculos - inclusive é uma das minhas leis - mas no fim das contas tudo se resume a entregar resultados.

Divulgação
O livro se tornou um best-seller em diversos países

Ele deve escolher duas ou três áreas de atuação - e eu vi que ele tem esse discurso de aumentar o número de crianças na pré-escola, por exemplo - e escolher dois ou três programas para que ele possa realmente demonstrar que está melhorando a vida das pessoas, que está se livrando da terrível corrupção no Brasil.

Eu diria que em vez de se fantasiar de gari, de pedreiro, que ele entregue mais. Se fantasie menos e entregue mais. Se ele conseguir em dois anos entregar algo real, isso será muito poderoso. Mas você deve parar de fazer tantas promessas, ter um plano concreto e ter noção de que precisa se comprometer e ser muito prático - e não viciar na atenção que você acaba tendo ao dizer coisas ousadas.

Em outras palavras, se eu fosse o conselheiro dele, eu diria:

"OK, senhor Doria, você ganhou as eleições, fez uma campanha brilhante, agora começa a parte difícil. Agora você precisa se tornar uma pessoa diferente, não aquela pessoa que você foi durante a campanha, mas um tipo de pessoa diferente. Você precisa se tornar mais maquiavélico e se você não gostar da palavra, senhor Doria, eu posso escolher outra, mas você precisa se tornar outra pessoa. Ou, como diria Maquiavel, uma mistura entre o leão e a raposa. Você consegue fazer essa transição? "

E quero deixar claro que sei dos problemas graves que o país enfrenta e não estou tirando sarro do Doria, pelo contrário, eu desejo o melhor para ele e que tenha sucesso.

BBC Brasil - Você se sente prestigiado pela citação?

Greene - Não posso dar nomes, mas já fui conselheiro de alguns políticos dos EUA e de fora e acho interessante. É muito fácil ser um escritor e falar essas coisas aqui do meu escritório, mas políticos precisam entregar resultados e é mais difícil.

Tenho respeito e humildade e sei que não é fácil. Mas me sinto lisonjeado que ele tenha me citado e espero que ele olhe para outras leis do livro e se torne alguém com um bom poder.

BBC Brasil - Você citou Donald Trump, que assim como prefeito de São Paulo, João Doria, foi eleito com base no discurso do "não político", do empreendedor, do empresário e homem dos negócios. Há uma mudança no poder nesse sentido, uma espécie de transferência - políticos tradicionais versus os não políticos e seus marqueteiros?

Greene - Essa mudança de poder vem acontecendo desde o advento da televisão, nos anos 50, quando os políticos começaram a precisar ser mais como atores e ter uma melhor presença na frente das câmeras.

No meu segundo livro, A Arte da Sedução, eu analiso John F. Kennedy e a campanha dele em 1960, que inaugurou o uso pesado de técnicas de marketing e de Hollywood entre os políticos e abusou do carisma para vencer as eleições que foram apertadas e baseadas nessa criação de séquito.

E de lá para cá, os políticos começaram a ter essa obrigação de ter uma boa presença de televisão, de criar ilusões e espetáculos para formar seguidores - Ronald Regan foi um mestre nisso.

Agora, estamos na continuação lógica desse processo, que são as pessoas que não são da política e que são muito boas em marketing - e Donald Trump nem é um bom homem de negócios, mas é um gênio do marketing, das relações públicas. Ele sabe usar a mídia e é muito bom em manipulá-la e em usar uma das minhas leis, que é "chame atenção a qualquer preço".

É meio lógico que tenhamos atores, celebridades da televisão e gênios do marketing pensando que eles podem aplicar essas técnicas na política. Mas eu não acho que vai funcionar, não acho que pessoas assim vão ter muito sucesso porque a política é um ofício, uma profissão e envolve compromisso e anos de aprendizado sobre como construir alianças - é até meio chato nos detalhes, não é nada glamuroso.

Eu acredito, portanto, que muitos desses novos "não políticos", desses "outsiders", vão fracassar. Mas é uma coisa natural que esse seja o próximo passo, a evolução do poder.

BBC Brasil - Você acha que esse é o caso do prefeito de São Paulo? O que você sabe sobre ele?

Greene - Eu conheço um pouco sobre ele, li alguns artigos. Me parece que ele tenta se distanciar um pouco do que Trump está fazendo, mas há similaridades evidentes.

É uma ideia muito intrigante que um milionário que voa por aí em helicópteros, que tem uma esposa que dirige um carro de luxo, e que claramente não é um "homem do povo" seja capaz de se posicionar como se fosse a pessoa perfeita para incorporar o gosto popular, para se tornar um populista.

Aconteceu aqui nos EUA com Trump - o homem que veste os ternos mais caros, que tem um jato particular, está lá, de repente, comendo em uma lanchonete popular.

É interessante dos dois lados. Um deles é que essas pessoas, como Trump ou Doria, sintam como se eles pudessem se tornar qualquer coisa: agir como um homem do povo comendo as mesmas coisas e bebendo do mesmo café, se misturando, se vestindo de gari - isso vai fazer com que eles pareçam ser "do povo".

Em contrapartida, que tipo de apelo eles terão para as pessoas que são realmente mais pobres ou da classe média que sabem que são diferentes desses homens ricos?

Aqui nos EUA isso foi diagnosticado da seguinte forma: a população se identifica com o sucesso que eles têm, acreditam que o sucesso que eles têm nos negócios vai se tornar um sucesso geral, na política e é aspiracional: há a sensação de as pessoas podem ser como Doria, ou como Trump.

E isso funciona agora porque estamos numa mudança de paradigma, onde o mundo velho que vinha dos anos 90 está desaparecendo e estamos entrando em um ambiente novo meio assustador, todo interconectado, globalizado. E as pessoas estão com medo e procuram alguém que seja diferente da figura do político tradicional - é um momento certo para outsiders e pessoas como Trump e Doria estão explorando isso.

Mas eu não acredito que eles estejam totalmente no controle do processo, não acredito que sejam tão espertos e maquiavélicos e que entendam o jogo de poder para criar uma nova ordem politica - são como produtos do nosso tempo.

BBC Brasil - O seu livro, As 48 Leis do Poder , é geralmente comparado a O Príncipe , de Maquiavel. O que acha da comparação? O livro dele foi uma inspiração para o seu?

Greene - Definitivamente sim, eu estudo o trabalho do Maquiavel e acho que ele não é bem compreendido - as pessoas têm uma visão negativa, algo como House of Cards, quase diabólico.

Mas ele é um grande pensador e foi a primeira pessoa a realmente analisar o poder e demonstrar a realidade por trás de todos os mitos do poder. Eu não estou no mesmo patamar dele, mas sou um admirador do trabalho que ele fez.

BBC Brasil - Você sugere uma estratégia de poder no livro. A quem ela é direcionada?

Greene - O livro é destinado a qualquer tipo de pessoa. Eu acredito que todas as pessoas querem se sentir poderosas e eu quero mostrar que o poder não é algo só relacionado a políticos e empresários, mas ao seu dia a dia. É muito deprimente a sensação de que você não pode ou consegue controlar seus filhos, seu cônjuge, seus colegas de trabalho, e ninguém gosta de se sentir sem poder.

Antes de escrever o livro, eu mesmo não tinha uma posição privilegiada, tive vários trabalhos nos quais minha posição estava na base da pirâmide e eu era bastante ingênuo sobre as manobras que as pessoas usam quando estão em uma posição de poder.

Então escrevi o livro a partir da visão do oprimido, da vítima, de quem não entende direito o que acontece por baixo dos panos.

BBC Brasil - Mas algumas recomendações são dúbias, como "destrua seus inimigos" ou ainda "mantenha os outros em estado latente de terror", ou "um gesto sincero encobrirá dezenas de outros desonestos". Essas são recomendações literais? E o que você pensa sobre pessoas que podem levar isso de forma literal e agir contra as outras?

Greene - Você está fazendo algo que muitas pessoas fazem: escolhe as "leis" mais maldosas e dramáticas e tira elas do contexto - e sim, há algumas leis mais diabólicas, digamos assim. Mas eu deixo a intenção clara para quem realmente lê o capítulo completo e não apenas tira a frase de contexto e acaba não compreendendo a ideia do livro.

No caso de "destrua seus inimigos completamente", por exemplo, quem lê esse capítulo sabe que eu estou me referindo a uma situação muito específica nos negócios e na política - algo que o Google usa diariamente, que a Microsoft usa sempre, que é a ideia comum dos negócios de que você tem que se livrar do seu rival, e não apenas isso, mas derrotá-lo completamente.

É uma dinâmica que é muito comum no poder, não quer dizer que você como indivíduo deva identificar os seus inimigos e acabar com eles na sua vida pessoal. E eu deixo isso muito claro no capítulo.

Outros trechos tem essa ironia, como a Lei 27 - que eu acredito que o Donald Trump está usando bastante e que tem surtido efeito, e que talvez o João Doria use -, que é "jogue com a necessidade que as pessoas têm de acreditar em alguma coisa para criar um séquito de devotos".

É sobre criar cultos e como no mundo moderno não somos tão religiosos como costumávamos ser, mas a ideia de criar um séquito é tremendamente poderosa na política e nos negócios, e eu instruo literalmente naquele capítulo como criar esses seguidores.

E ali eu estou sendo um pouco irônico porque o que eu estou realmente dizendo é "isso é o que as pessoas estão fazendo no seu entorno, é isso que Donald Trump está fazendo, então não seja tão ingênuo".

É importante entender quando as pessoas estão jogando com você na vida real.

BBC Brasil - E sobre os efeitos potencialmente negativos que isso pode ter, ações inesperadas de pessoas que porventura hajam literalmente a partir dessas instruções?

Greene - Eu recebo muitos e-mails de pessoas que leram o livro e ocasionalmente ouço histórias de pessoas que usaram o livro de uma forma maldosa. Mas a maioria é de pessoas como eu, que são as vítimas. Se você é um sociopata, você não precisa de As 48 Leis do Poder, você não precisa ler um livro.

É uma ideia boba essa de que alguém lê um livro e se torna antissocial, isso já está no seu DNA. A leitura pode reforçar as suas ideias, e sim, eu lamento quando isso acontece. Mas a maior parte são pessoas que são ingênuas, que não entendem que o chefe vai roubar as ideias delas e levar todo o crédito. Pessoas como Bill Gates não precisam das 48 Leis, ele já as entende.

BBC Brasil - Você costuma responder a críticos que leis como "destrua seus inimigos" são práticas frequentes, amplamente usadas no nosso dia a dia, e que você somente as identificou e elencou. Você realmente acredita nisso? E o que um "oprimido" pode fazer com isso?

Greene - As pessoas são mais manipuladoras do que se imagina, não somos anjos ou descendentes de anjos, mas de primatas, que são conhecidos como animais "maquiavélicos". É como se estivesse na raíz da nossa genética. Eu tiro essa visão negativa da palavra "poder" para mostrar que ela é parte da nossa natureza.

Você já se comporta dessa forma, apenas não de maneira consciente. Às vezes você não percebe esse comportamento e ele te causa problemas, como na lei número 1, que é "nunca ofusque o brilho do mestre", ou seja, a pessoa acima de você - e sempre há alguém acima de você - é insegura e não tão poderosa quanto você pensa, então é preciso saber lidar com a insegurança dela.

Mas ninguém está livre desses jogos de poder. As pessoas que mais criticam e mais falam mal do livro As 48 Leis do Poder são normalmente as mais manipuladoras que você vai conhecer.

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