"Sonhos destruídos com canetada": vítimas do veto de Trump contam histórias

  • Morty Ortega/AFP

    Protestos contra o veto ocorreram em várias partes do país; no aeroporto de JFK, em Nova York, manifestantes pediam a liberação da entrada dos estrangeiros

    Protestos contra o veto ocorreram em várias partes do país; no aeroporto de JFK, em Nova York, manifestantes pediam a liberação da entrada dos estrangeiros

Apesar da decisão de uma juíza em suspender parcialmente o veto do presidente Donald Trump à entrada nos Estados Unidos de cidadãos de sete países de maioria muçulmana, muitos estrangeiros continuam em um limbo ou tiveram seus planos cancelados.

Na noite de sábado (28), a juíza federal Ann Donnelly, de Nova York, assinou a suspensão parcial do decreto, proibindo a deportação dos que chegaram ao país com um visto válido e estavam sendo detidos em vários aeroportos.

A medida é válida para pessoas cuja solicitação de refúgio foi aprovada e "outras pessoas legalmente autorizadas a entrar nos Estados Unidos", mas não faz referência sobre a constitucionalidade da decisão presidencial.

A ordem executiva de Trump suspende a entrada nos EUA de cidadãos do Iraque, Síria, Líbia, Somália, Sudão e Iêmen e prevê a interrupção por 120 dias do processo de refúgio para esses países --exceto para a Síria, em relação à qual a proibição é por tempo indeterminado.

"Pessoas vulneráveis"

Entre os principais casos de estrangeiros presos em solo americano, está o de dois iraquianos que foram detidos no Aeroporto JFK, em Nova York.

Um deles, Haneed Khalid Darweesh, trabalhou como intérprete para o Exército americano em seu país, o que lhe deixou em uma situação perigosa.

Ele ficou detido no aeroporto durante quase 24 horas. "É uma vergonha dar as costas e prender as pessoas mais vulneráveis do mundo. Pessoas que serviram ao nosso país, que estão fugindo da perseguição e que têm status legal para entrar, e agora estão sendo detidas", disse à BBC Mark Doss, advogado do intérprete.

Os dois iraquianos acabaram sendo liberados e o caso deles vai ser analisado novamente no mês que vem.

Vários outros estrangeiros foram vítimas da decisão de Trump. Conheça algumas das histórias deles:

"Ela vinha ver o neto pela primeira vez. Foi de cortar o coração"

Uma iraniana que mora nos Estados Unidos há 10 anos e tem o green card contou à BBC, sob condição de anonimato, sobre a situação de sua mãe, de 69 anos, que deveria chegar nos Estados Unidos na tarde deste domingo.

"Ela pediu o visto em maio do ano passado - dois meses depois de eu dar à luz o meu primeiro filho. Estava ansiosa para vir e finalmente ver o neto pela primeira vez. Ela enfim conseguiu o visto, há duas semanas, depois de nove meses de espera."

"A passagem dela era para este domingo. Ela chegaria a Nova York à tarde. Agora, não sei mais" (Ela foi entrevistada no sábado, antes da decisão judicial)

A irianiana, que tem 33 anos e é engenheira, teme os impactos a longo prazo do veto de Trump em sua família.

"Meu marido é americano; toda família dele está aqui. Eu estava falando com ele: 'Você estaria aberto a deixar esse país? É nesse país que você gostaria de morar? É um país que está abandonando seus valores. Eu não acho que essa decisão seja algo americano, eu não acho que seja algo humano - não é nada ético.'"

"Mas, ao mesmo tempo, minha família agora é americana. Eu não posso pedir que ele arrume as malas e saia do país comigo em um momento difícil como esse. Então, o que fiquei pensando é que talvez eu leve meu filho para outro país... assim a minha mãe poderia ver o neto pelo menos uma vez."

"Esse veto é humilhante"

A síria Batool Shannan vive em Essen, na Alemanha, e estava com viagem marcada para os Estados Unidos. Cientista cujas pesquisas são na área de câncer de pele, ela já havia trabalhado nos EUA.

"Eu sou síria e deixei meu país em 2012 para trabalhar na Filadélfia por dois anos e meio. Então eu me mudei para Alemanha, onde eu vivo desde então.

Pedi e consegui um visto B1/B2 (de visitante) e estava indo para a Filadélfia em 8 de fevereiro para passar férias e visitar meus amigos. Sou cientista e trabalho com pesquisas sobre melanomas - e as colaborações nessa área são muito importantes.

Agora, não só eu fui proibida de ir, como não sei o que vai acontecer se eu cancelar minha passagem (no total, ela gastou cerca de US$ 1.070, com voo e visto).

"O sentimento de injustiça é tão grande. Esse veto é humilhante. Uma vergolha!"

"Famílias e sonhos foram destruídos com uma canetada"

Musa Sharkawi é um cardiologista da Jordânia e está estudando em Connecticut (nos EUA). Recentemente, sua mulher, que é síria, veio morar com ele.

"Como ela tem um passaporte sírio, ela não pode sair dos EUA, já que ela não conseguiria voltar. E sua família não pode nos visitar, já que o visto para eles foi vetado. A nova ordem executiva está literalmente destruindo famílias. Aliás, muito mais do que isso.

Muitos sonhos estão sendo destruídos com essa canetada do novo presidente. Muitos médicos jovens e brilhantes vinham se preparando há anos para isso (para vir aos EUA) e que gastaram milhares de dólares em exames para conseguir licença para trabalhar aqui.

Eu fui o residente chefe do hospital onde estudei, e tratei milhares de pacientes. Publiquei diversas pesquisas e foi co-autor de muitos livros. Já dei aula para centenas de estudantes de medicinal, tanto americanos como estrangeiros.

Essa é uma mudança dramática de atitude. É algo que vai dissuadir muitas jovens mentes brilhantes a seguir o sonho americano."

"Eu pensei que green cards eram permanentes"

Alguns dos que foram afetados pela decisão de Trump já passaram a considerar mudar definitivamente dos Estados Unidos. Um deles é um iraniano que vive em Washington, que disse à BBC que sua esposa havia voltado para o Irã enquanto esperava seu visto ser renovado. O processo já durava cinco meses, e agora ela está em um limbo.

"Venho ouvindo histórias horrorosas. Até pessoas com o green card não estão sendo autorizadas a voltar para os Estados Unidos. Eu pensei que green cards davam direito a residência permanente - mas, aparentemente, não é tão permanente assim!"

Ele disse que está considerando voltar para o Irã ou se mudar para outro país. "Podemos tentar outros lugares, talvez Canadá ou Austrália. Veremos se vamos conseguir ser transferidos para a gente poder recomeçar nossas vidas em outro país."

Caos em voos de conexão

Pessoas que passariam pelos Estados Unidos apenas porque estavam em trânsito também estão enfrentando problemas.

Hamaseh Tayari, uma veterinária da Universidade de Glasgow (Escócia), disse que estava "furiosa" e com medo, após ter sido proibida de pegar um avião da Costa Rica para voltar para casa, já que havia uma conexão em Nova York.

Arquivo pessoal
Hamaseh Tayari vive na Escócia e tem passaporte iraniano

A veterinária, que tem nacionalidade iraniana, estava voltando para a Escócia depois de umas férias de duas semanas.

Em entrevista à BBC concedida do aeroporto de San José (Costa Rica), no sábado, ela disse: "Chegamos no aeroporto de manhã para embarcar para Glasgow em um voo que fazia escala em Nova York. Os funcionários da companhia aérea não me deixaram embarcar por conta das novas regras. Eles me disseram que o único voo disponível que não passasse pelos EUA era via Madri."

As novas passagens custaram a ela e ao namorado US$ 3.260. "Gastamos todos nosso dinheiro para os próximos meses."

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