Marisa Letícia morre aos 66: conheça a trajetória da ex-primeira-dama

A ex-primeira-dama Marisa Letícia, de 66 anos, teve sua morte confirmada na noite desta sexta-feira pelo hospital Sírio Libanês, em São Paulo, onde estava internada desde o dia 24 de janeiro após ter sofrido um AVC causado por um aneurisma. Os médicos descobriram um quadro de trombose venosa profunda nos membros inferiores da esposa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e, na última quinta-feira, o hospital havia informado que fora identificada uma "ausência de fluxo cerebral".

Nesta sexta, os médicos constataram a morte cerebral e fizeram os preparativos para a doação dos órgãos de Marisa Letícia, que foi autorizada pela família.

"A ex-primeira-dama Marisa Letícia Lula da Silva faleceu nesta sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017, às 18:57. O velório será neste sábado, das 9h às 15h, no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, onde o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Dona Marisa Letícia se conheceram. O Sindicato fica na Rua João Basso, 231, em São Bernardo do Campo", divulgou o perfil oficial do ex-presidente no Facebook.

Após a confirmação da morte de Marisa Letícia, o presidente Michel Temer divulgou nota de pesar e decretou três dias de luto oficial.

Ao longo de sua vida, a ex-primeira-dama preferiu manter-se afastada da imprensa e dos holofotes, mesmo diante da crescente exposição do marido, que foi eleito presidente do sindicato dos metalúrgicos do ABC após um ano de casamento e seguiu carreira política até chegar à Presidência da República.

Mãe de quatro filhos - Marcos Cláudio, Fábio Luis, Sandro Luís e Luís Cláudio - Marisa Letícia virou, em 2016, ré em duas ações na Operação Lava Jato. Mas, diferentemente do marido, absteve-se de fazer comentários públicos. A defesa nega que ela tenha cometido ilegalidades.

Apesar da reserva, não deixou de participar da vida política do ex-presidente ou de fazer a militância própria, inclusive durante a ditadura militar. Quando Lula e outros líderes metalúrgicos estavam presos, em 1980, Marisa Letícia transferiu a sede do sindicato, que havia sofrido uma intervenção, à sala de sua casa e ajudou a organizar passeatas de mães e filhos de metalúrgicos.

Também em 1980, Marisa cortou e costurou a primeira bandeira do PT, para ser exibida na fundação do partido. Em seu ativismo, a mulher do ex-presidente foi pioneira ao reivindicar, junto com outras esposas de metalúrgicos, a presença de mulheres nas chapas dos sindicatos do ABC.

Admitiu que chegou a ter medo da repressão, principalmente pelos filhos, mas disse não ter se acanhado. "Aquilo tudo foi deixando um sentimento de revolta em mim. E para mudar, alguém tinha que enfrentar aquela situação", afirmou, em rara entrevista realizada e divulgada pela assessoria da campanha presidencial de Lula em 2002.

Na mesma entrevista, Marisa Letícia confessou ter duvidado que o marido chegaria a ser presidente. O ceticismo foi motivado por sua primeira visita a Brasília, em 1980, quando Lula foi julgado no Superior Tribunal Militar. "Vamos parar com tudo isso", disse a ele, durante visita guiada por bairros nobres. "Esses caras não vão deixar você chegar ao poder nunca", concluiu.

Já em 2002, ela citou o clima político da época como um dos motivos para ter mudado de opinião: "O povo está descontente demais", declarou, há mais de 14 anos. A mesma frase é usada hoje por adversários para explicar a derrocada do PT.

Marisa também afirmou que a personalidade do líder petista contribuiu para sua mudança de atitude: "O Lula quando quer uma coisa, consegue".

Casamento

De acordo com relatos de Marisa, Lula também agiu de forma determinada para conquistá-la, chegando a suplantar o namorado que ela tinha na época.

Mais tarde, Lula explicaria a Marisa que, sendo um jovem viúvo (sua primeira mulher, Maria de Lourdes da Silva, contraiu hepatite quando estava grávida de sete meses e morreu quando ele tinha 25 anos), estava à espera de uma 'viúva novinha' para formar um novo par.

O primeiro casamento de Marisa durou apenas seis meses. O motorista de caminhão e taxista Marcos Cláudio da Silva, com quem ela se casou aos 19 anos, havia sido morto a tiros durante um assalto quando ela estava grávida.

Ela então conheceu Lula devido a uma burocracia que precisava cumprir para receber a pensão. O então futuro presidente trabalhava no serviço de assistência social do sindicato, onde ela precisou ir para pegar um carimbo para recolher o benefício, e inventou etapas a mais como desculpa para ficar o contato da jovem.

"Nunca precisou tanta cerimônia para receber uma pensão que eu já tinha há três anos", declarou ela, anos depois. O namoro durou sete meses e o casamento, 42 anos e oito meses.

Tiveram o primeiro filho juntos nove meses depois do casamento. Depois de um ano de casados, em 1975, Lula ganhou a eleição para a presidência do sindicato. Anos depois, ele adotou o primeiro filho de Marisa Letícia, Marcos Cláudio Lula da Silva.

Infância

Nascida em 7 de abril de 1950, em São Bernardo, e descendente de italianos, dona Marisa foi a penúltima filha da família. Sua mãe, Regina Rocco, teve quinze filhos, mas três morreram no parto. A família morou em um sítio até por volta de 1955, quando as irmãs foram trabalhar com tecelagens. Os irmãos estavam procurando emprego e a família toda foi morar no bairro Assunção, em uma casa grande, porém com água de poço.

A ex-primeira-dama começou a trabalhar aos nove anos tomando conta dos filhos de um dentista. Aos 13 anos, tirou uma carteira de trabalho especial para menores de idade para trabalhar em uma fábrica de chocolates, embalando bombons. Ficou na empresa, a Dulcora, por oito anos.

Ela se descreveu como a mais rebelde das irmãs, mas disse que o pai, Antônio João Casa, restringia muito as saídas de casa e a ida a eventos sociais. Engajamento também era proibido: o pai não deixava falar de política em casa.

Polêmicas

Marisa Letícia protagonizou pouquíssimas polêmicas quando foi primeira-dama.

A mais notória foi em 2004, quando determinou a implantação de canteiros em formato de estrela com flores vermelhas nos jardins do Palácio da Alvorada e da Granja do Torto. A medida foi criticada por entidades ligadas à preservação do patrimônio da cidade, já que os jardins dos palácios do governo são tombados.

Já fora da Granja do Torto, Marisa foi acusada na Lava Jato, junto com Lula, de ter se beneficiado de vantagens ilícitas provenientes da construtora OAS no caso do apartamento tríplex do Guarujá. A ex-primeira-dama adquiriu em 2005, através da cooperativa habitacional Bancoop, uma opção de compra do imóvel. Em 2014, o tríplex foi totalmente reformado pela empreiteira, que havia assumido o empreendimento.

No ano seguinte, a família anunciou que desistiu da compra do imóvel e que dona Marisa optou por receber de volta o dinheiro investido. De acordo com a defesa de Lula e Marisa, o casal visitou o apartamento uma única vez.

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