Como ex-chefe mafioso arrependido revelou desastre ecológico provocado por tráfico de lixo na Itália

  • BBC

    Mafioso italiano que atuou na década de 1990 conta em livro como a máfia Camorra operava o tráfico ilegal de lixo

    Mafioso italiano que atuou na década de 1990 conta em livro como a máfia Camorra operava o tráfico ilegal de lixo

"Que droga que nada, doutor! O lixo é o verdadeiro ouro." Essa frase, que se tornou conhecida tanto na Itália como no exterior, representa o dogma no qual se baseou por anos o tráfico ilegal de lixo que envenenou a região italiana da Campânia e deu vida à chamada "Terra dos Fogos" –uma área situada entre as Províncias de Nápoles e Caserta, destruída por crimes ambientais.

A história do tráfico de lixo é acima de tudo a história da Camorra (a máfia napolitana e da Campânia) e é a história de Nunzio Perrella. A frase citada acima foi dita por ele, ex-chefe da Camorra que delatou a organização criminosa e agora conta em seu livro como funciona o tráfico de resíduos tóxicos.

Trata-se de uma verdadeira cadeia que vai do norte ao sul da Itália, envolvendo diferentes setores: empresários, mafiosos e políticos cúmplices. No livro "Oltre Gomorra. I rifiuti d'Italia" (Editora CentoAutori), escrito juntamente com o jornalista Paul Coltro, Perrella relata sua trajetória criminosa.

Hoje ele é forçado a esconder parcialmente o rosto, para não ser reconhecido, devido a uma decisão do Estado italiano de não lhe fornecer mais a escolta reservada às testemunhas envolvidas no programa de delação.

Muitos anos se passaram, mas ainda hoje ele é conhecido como "chefe do lixo". 

Em setembro de 2016, a Camorra colocou uma bomba em frente à sua casa.

"Conto a minha história porque estou com raiva. Disse para a Justiça italiana tudo que eu sabia, mas não tive nada em troca. Só a perda da minha honra e do meu tempo. O Estado sabia de tudo desde os anos 1990, mas não fez nada para conter a situação", afirmou à BBC Brasil.

Mafioso à moda

Nunzio Perrella é um mafioso "à moda antiga", até mesmo por causa da sua idade: 68 anos.

Começou a carreira muito jovem. Enquanto os irmãos se tornavam verdadeiros chefões temidos no distrito de Traiano, em Nápoles, optou por ser o elo com o mundo empresarial e a política. Um "colarinho branco" da Camorra, como ele se define.

Ou seja: enquanto eles saíam matando e se dedicavam ao tráfico de drogas, Nunzio Perrella conseguia se impor graças à força do nome da família.

A ironia é que hoje, depois de ter feito a delação, ele também precisa se esconder de possíveis ataques vindos da própria família: "É verdade: muitas pessoas me querem morto. Incluindo meus irmãos ", afirmou durante a apresentação do livro.

Ele foi preso duas vezes quando jovem e em uma terceira ocasião em 1992, recebendo uma sentença de 24 anos de prisão por associação mafiosa e tráfico de drogas. Cumpriu uma parte da pena na cadeia e outra em prisão domiciliar.

Em 1992, quem o interrogou foi Franco Roberti, hoje procurador nacional antimáfia, a maior autoridade na luta contra o crime organizado. Naquela época, ele era o procurador da Direção Antimáfia de Nápoles e percebeu que Perrella era o "chefe do lixo", o homem que havia construído o sistema de fato.

Perrella e muitos outros membros da Camorra, no entanto, não "envenenaram" apenas a região entre Nápoles e Caserta, mas também toda a região Norte e Centro da Itália. "Só quando o norte estava abarrotado de lixo, começaram a enviá-lo para o sul", afirma o ex-mafioso.

Esquema

A Legambiente, maior organização ambientalista italiana, calcula que entre o 1991 e 2013 foram realizadas 82 investigações por tráfico de resíduos. Materiais jogados em lixões legais e ilegais da "Terra dos Fogos".

Foram feitos 1.806 procedimentos judiciais envolvendo 443 empresas italianas, a maioria com sede no centro e ao norte do país.

Os empresários não queriam arcar com os custos do descarte legal de resíduos e assim acionaram a Camorra, que resolveu despejá-los em literalmente todos os lugares: terras de camponeses, pedreiras abandonadas, leitos de água ou aterros.

"Em apenas dez anos", diz Coltro, "foram apreendidas 13 milhões de toneladas de resíduos transportados ilegalmente, e essa cifra se refere a apenas metade de todos os inquéritos iniciados", explica.

"Ou seja, se considerarmos que um caminhão carrega 25 toneladas, viajaram ilegalmente 1.123,512 caminhões, que, colocados um atrás do outro, formam uma longa fila de 7.000 quilômetros, equivalente ao comprimento de todas as estradas italianas."

O lixo incluía um pouco de tudo: resíduos industriais e hospitalares, baterias, óleo, lama e cinzas de usinas de energia, hidrocarbonetos pesados, resíduos de alumínio e água industrial, entre outros materiais.

Ameaças e colaborações

Perrella conta como o negócio criminoso cresceu. Ele diz que trabalhava com uma empresa de Vicenza chamada Soave Asfalti, que tinha inúmeros materiais para descartar constantemente –até mesmo cilindros cheios de óleo industrial.

"Normalmente os funcionários levavam para casa um barril de cada vez, mas aquela vez não foi suficiente. Enchi um caminhão com 300 toneladas e emiti um recibo falso como se fosse transporte de material de construção. Levei 50 milhões de liras italianas na primeira viagem (cerca de 51 mil euros, em valores atualizados)."

Perrella descarregou os resíduos em um canal, mas parte vazou, o que foi flagrado por Salvatore Fusco, jornalista ambiental que denunciou o caso no jornal "Il Mattino" no dia seguinte.

Fusco foi imediatamente ameaçado de morte, retirou tudo o que disse e se tornou um colaborador da Camorra.

"O jornalista sabia onde jogar o lixo. Ele fazia uma inspeção e, em seguida, eu passava para acertar o preço. Eles no começo aceitavam apenas um caminhão, mas eu queria jogar mais. Só depois entendi o porquê", diz o ex-mafioso.

O negócio dos resíduos era gerido pelos empresários, que não queriam a Camorra por perto no começo. Foi Perrella quem abriu as portas, criando empresas fantasmas que transportavam material do norte para descarregar no sul, emitindo falsos recibos.

"Todos os dias entravam cem caminhões de lixo e saía um repleto de dinheiro", diz o ex-mafioso.

O negócio se expandiu rapidamente e os chefes da máfia foram forçados a fazer um acordo –cada um tinha que ganhar uma fatia do bolo. Todos os grandes nomes do tráfico de resíduos estavam envolvidos: Gaetano Vassallo, Gaetano Cerci, Luca Avolio, Raffaele Giuliani e Ferdinando Cannavale, este último responsável por manter as relações com a classe política.

Os proprietários do aterro ganhavam 140 liras por quilo de lixo (0,14 euros): 25 iam para os políticos e 10 a 15 à Camorra. Isso resultou em bilhões em um curto intervalo de tempo.

Como nem tudo podia ser despejado em aterros, surgiu "o pior estupro ambiental do século", como o define Coltro.

"Não é um problema só do crime organizado. O mundo dos empresários tem tentado um atalho (para fugir). Estão todos envolvidos", se queixa Giorgio Zampetti, diretor científico da Legambiente.

Questão de saúde

Em 6 de fevereiro de 2014, o governo italiano criou uma lei para combater o crime na Terra dos Fogos. Um dos primeiros passos foi encomendar alguns estudos sobre a saúde da população.

Os dados que surgiram a partir do último relatório do Instituto Nacional de Saúde (ISS), um órgão do Ministério da Saúde, pintaram um quadro desolador na luta contra o câncer.

Na província de Nápoles, há uma incidência de câncer de mais de 11% em comparação com a média, assim como a taxa de mortalidade: é 11% maior nos homens. Nas mulheres, o primeiro índice se mantém em 9%, o segundo em 7%.

O problema, no entanto, está mais voltado para as crianças (0-14 anos), muito mais sensíveis à poluição ambiental. A mortalidade não é maior do que o resto da população, mas os registros de diferentes tipos de câncer estão aumentando em 51% (todos os tipos), e 45% apenas quando calcula-se leucemia e tumores do sistema nervoso central.

Trata-se, no entanto, de apenas uma média do Instituto Nacional de Saúde (ISS). "O excesso de hospitalizações na faixa etária de 0 a 14 anos é superior a 79% em comparação com a população de referência", informa o relatório ao se referir apenas ao município de Terzigno.

Perrella diz ter se arrependido e contou toda a história em 1992. Mas alguns magistrados, políticos e jornalistas sabiam de tudo. "Por que ninguém fez nada até 2014?", questiona Coltro em seu livro.

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