Justiça francesa investiga suspeita de propina na escolha do Rio para sediar Olimpíada

A Justiça francesa está investigando suspeitas de pagamento de propina na escolha do Rio como sede dos Jogos Olímpicos de 2016, revelou o jornal "Le Monde" nesta sexta-feira.

Três dias antes da cidade - em 2 de outubro de 2009, em uma cerimônia em Copenhague, na Dinamarca - ser eleita sede olímpica, o empresário brasileiro Arthur Cesar de Menezes Soares Filho teria pagado US$ 2 milhões (cerca de R$ 6,3 milhões) ao filho de um membro do Comitê Olímpico Internacional (COI) na época, afirma o diário francês.

Soares Filho, conhecido como "Rei Arthur", é ex-dono do grupo Facility - principal fornecedor de mão de obra terceirizada para o governo do Rio - e amigo do ex-governador Sérgio Cabral (PMDB), hoje preso da operação Lava Jato.

Ele está sendo investigado pela operação Calicute, que apura o desvio de dinheiro público em obras no Rio.

Em entrevista à BBC Brasil, Jean-Marc Toublanc, secretário-geral da Procuradoria Nacional Financeira (PNF) da França, preferiu não comentar as informações publicadas pelo Le Monde, mas afirmou que o órgão, formado por magistrados especializados em crimes financeiros, investiga atualmente "vários casos envolvendo a Federação Internacional de Atletismo e a atribuição de cidades para os Jogos Olímpicos".

Dois depósitos

Documentos enviados pelo Fisco americano à Justiça francesa revelam, segundo o Le Monde, que Soares teria feito dois depósitos, um de US$ 1,5 milhão e outro de US$ 500 mil, ao filho de Lamine Diack, na época presidente da Federação Internacional de Atletismo (FIA) e membro do COI.

A transferência dos recursos teria sido feita por meio da holding Matlock Capital Group, atribuída a Soares e sediada nas Ilhas Virgens Britânicas, para a Pamodzi Consulting, empresa de Papa Massata Diack, filho de Lamine, baseada em Dakar, no Senegal.

Papa Massata, ex-consultor de marketing da Federação Internacional de Atletismo (IAAF, na sigla em inglês), é acusado de ter acobertado casos de doping no atletismo russo e é objeto de um mandado de prisão da Interpol a pedido da Justiça francesa, que investiga o caso.

Seu pai foi indiciado na França, acusado de corrupção, nas investigações sobre os casos de doping de atletas russos.

'Trapaça'

"A Justiça francesa dispõe de elementos concretos que questionam a integridade do processo de atribuição dos Jogos Olímpicos. O Rio teria trapaceado", escreve o Le Monde.

Na disputa final, o Rio venceu Madri por 66 votos a 32. A capital espanhola havia, no entanto, liderado o primeiro turno das votações, mas a tendência se inverteu na segunda etapa.

"É um caso de ficção olímpica. A eleição da Rio 2016 foi clara: 66 votos contra 32. Foi uma vitória límpida. Estamos 200% tranquilos em relação ao fato de que não fizemos nada fora das regras", afirmou Mario Andrada, porta-voz da Rio 2016, ao jornal francês.

À BBC Brasil, Mario Andrada afirmou ter "100% de certeza" de que o Rio foi escolhido em uma "eleição limpa", sem nada de ilegal ou incorreto no processo.

"A vitória do Rio foi por uma larga margem, com 66 votos a 32. Isso deixa claro que o Rio era a cidade preferida dos membros do COI", afirma. "Todos os dados e todos os documentos da campanha estão e sempre estiverem abertos."

Andrada diz que o comitê não tem "nenhuma relação com as pessoas citadas" na reportagem do Le Monde. "Temos o maior interesse de colaborar com os investigadores franceses, mas temos certeza de que não temos nada a ver com isso", afirma.

Em 2 de outubro de 2009, dia da votação em Copenhague, Papa Massata Diack teria transferido quase US$ 300 mil (cerca de R$ 946 mil), a partir de sua empresa Pamodzi Consulting, a uma "misteriosa estrutura", diz o Le Monde, a Yemi Limited, sediada nas Ilhas Seichelles.

Segundo o jornal, a Yemi Limited, citada no escândalo dos Panama Papers - referência ao escritório no Panamá especializado em empresas off-shore -, teria tido como dirigente Frankie Fredericks e, depois, a partir de 2005, sua esposa.

Fredericks, ex-corredor da Namíbia, é atualmente membro do COI e presidente da comissão de avaliação das Olimpíadas de 2024, à qual a França é candidata.

De acordo com o Le Monde, Fredericks estava presente na cerimônia em Copenhague que escolheu o Rio e participou, pelo COI, da contagem dos votos.

Em nota, o Comitê Olímpico Internacional disse que "continua plenamente empenhado em esclarecer esta situação, trabalhando em cooperação com o procurador".

"Esta cooperação já conduziu ao fato de que Lamine Diack, que anteriormente era membro honorário do COI, não desempenha qualquer função no COI desde novembro de 2015. O COI contatará novamente as autoridades judiciárias francesas para receber informações nas quais o artigo do Le Monde parece estar baseado", continua o texto.

Sobre Fredericks, a instituição disse que o dirigente procurou o COI, explicou a situação e enfatizou sua inocência logo após ser procurado pelo jornalista.

"O COI confia que Fredericks trará todos os elementos para provar sua inocência contra as alegações feitas pelo Le Monde."

Segundo o comitê, Fredericks explicou que o suposto pagamento foi feito pela Pamodzi Sports Consulting, que era dirigida por Papa Massata Diack e tinha ligação com "a promoção, desenvolvimento de propriedades esportivas em conexão com o Programa de Marketing da IAAF, eventos da IAAF e o marketing do Programa de Atletismo Africano 2007/2011".

"Fredericks tinha um contrato de marketing com a Pamodzi Sports Consulting entre 2007 e 2011", informou o comitê.

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