Quem são os deputados e senadores 'celebridades' no Twitter

Fernanda Odilla

Em Londres

  • Agência Senado

    Nenhuma mulher está na lista dos senadores e deputados com maior número de seguidores virtuais no Brasil

    Nenhuma mulher está na lista dos senadores e deputados com maior número de seguidores virtuais no Brasil

Nos EUA, todo mundo já sabe: o presidente Donald Trump tem no Twitter sua plataforma favorita para fazer comentários, acusações e reclamações. A audiência é grande: o republicano tem 26,3 milhões de seguidores no site - embora ainda esteja atrás do antecessor, Barack Obama, e seus 85,5 milhões. Mas, e no Brasil? Será que o microblog também tem sido bem explorado como palanque?

É verdade que o número de seguidores de políticos brasileiros, em especial deputados e senadores, é infinitamente menor que o dos dois líderes americanos. Mesmo assim, três em cada quatro políticos do Congresso Nacional têm perfil aberto no Twitter, o equivalente a 86% dos 594 parlamentares, de acordo com pesquisa feita na Universidade Federal da Bahia.

Responsável pelo estudo, o professor Marcelo Amaral, que hoje dá aula na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, explica porém que nem todo congressista é um usuário ativo nem pode ser considerado uma celebridade nacional no microblog.

Segundo ele, diferente do que acontece nos EUA - onde prevalece a presença de políticos mais à direita no Twitter - no Brasil, deputados e senadores mais à esquerda são os que chegaram primeiro na rede social e tendem a usá-la com mais frequência.

Agência Senado
Romário é o membro do Congresso brasileiro com maior número de seguidores

Mas o mesmo não acontece com o seleto grupo de congressistas que contabilizam o maior número de seguidores. Entre as "celebridades" no site não prevalece nenhuma legenda nem posicionamento ideológico específico. E nem todo mundo consegue aumentar o próprio público virtual em números expressivos ao longo do tempo.

Para a pesquisa, o professor analisou as adesões à rede social e o perfil dos seguidores de deputados e senadores nos meses antes das eleições de 2014, durante a própria campanha, e nos primeiros meses da legislatura, ainda em 2015.

Ele constatou que deputados eram seguidos por uma média de 5.690 contas e senadores, por 18.747 - o que faz os números de seguidores dos mais populares parecerem ainda mais impressionante.

A pedido da BBC Brasil, Amaral reavaliou os perfis das principais "celebridades" do Congresso Nacional no Twitter.

Os campeões

Segundo ele, o senador Romário (PSB-RJ), com 2,55 milhões de seguidores, continua sendo o congressista mais seguido - título que carrega desde 2013.

Quando a pesquisa começou, Romário era deputado federal e, à época, tinha mais seguidores que toda a bancada petista junta. Desde abril de 2015, mais de 500 mil pessoas passaram a acompanhá-lo.

O ranking já não é mais o mesmo daquele compilado logo depois das eleições de 2014. Nomes como os deputados Marco Feliciano (PSC-SP) e Tiririca (PR-SP) e o senador Álvaro Dias (ex-PSDB, atual PV-PR), por exemplo, saíram da lista dos "cinco mais".

Agência Senado
Cristovam Buarque (centro) é um dos parlamentares que mais interage no Twitter, segundo pesquisa

Dias, contudo, ainda é apontado como um usuário extremamente ativo no microblog, assim como o senador tucano José Serra (SP), que ocupa o segundo lugar no ranking dos parlamentares com maior número de seguidores, 1,57 milhão.

Ele aumentou em 200 mil o número de pessoas que o acompanham no Twitter desde que assumiu o mandato de senador, em 2015 - o pesquisador lembra que Serra já havia chegado ao Congresso com mais de 1 milhão de seguidores.

O senador Cristovam Buarque (PPS-DF), um dos que mais interagem com seus seguidores, ocupa o terceiro lugar, com aproximadamente 643 mil observadores.

Twitter/Reprodução
Apesar de não entre os "cinco mais" populares, Bolsonaro conquistou milhares de segidores desde as eleições de 2014

Na quarta posição está o também senador Aécio Neves (PSDB-MG), com 538 mil. Amaral destaca, no entanto, que ao contrário do colega de plenário, o tucano quase não posta, interage ou segue outros usuários no microblog. Cada um deles ganhou, em quase dois anos, cerca de 200 mil seguidores.

Em quinto lugar está o deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ), que atraiu mais de 238 mil novos seguidores desde o início de seu segundo mandato na Câmara.

Mas muita gente que não figura entre os cinco mais populares teve um crescimento significativo. O deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) tem hoje 376 mil seguidores - em 2014, tinha cerca de 67,9 mil.

"Bolsonaro está sendo alavancado no Twitter com as polêmicas em que tem se envolvido desde 2015. Aécio Neves, apesar de muito popular, tem sofrido críticas intensas em suas postagens, mas continua a crescer", avalia Amaral.

A pesquisa aponta também um perfil padrão dos parlamentares brasileiros mais ativos e populares no microblog: jovem, com escolaridade acima da média dos colegas, representante de região geográfica populosa do país, filiado a partido político médio ou grande e com votação significativa nas últimas eleições.

Normalmente, usam o Twitter desde antes das eleições de 2010 e postam um número de mensagens acima da média dos demais parlamentares - um perfil que se aproxima do senador Romário.

Limite

A adesão de congressistas ao microblog não variou significativamente com a chegada de novos deputados e senadores depois das eleições de 2014.

O número de seguidores, contudo, continua crescendo. A pesquisa apontou que o número de usuários do Twitter no Brasil que seguiam algum parlamentar dobrou entre 2013 e 2015 e Indicou ainda que esse número é proporcional à população de cada região do país.

"O acesso mais difícil às novas tecnologias em algumas regiões do país não impede os usuários de se conectarem às contas dos parlamentares de sua região, na mesma proporção que aqueles de outras regiões com maior acesso aos recursos tecnológicos", observa Amaral, que aponta ainda que o número de seguidores de políticos equivale a 1,8% da população brasileira.

Em 2016, o Brasil foi o país onde o Twitter obteve seu terceiro maior crescimento em número de usuários.

Assim como acontece nos EUA, a grande maioria das contas no Brasil - 73,88% - seguem apenas um parlamentar.

Twitter/Reprodução
Jean Wyllys conseguiu aumentar o número de seguidores desde que foi reeleito

O estudo indica ainda que senadores postam mais e têm mais seguidores que deputados - Amaral não analisou o conteúdo das mensagens postadas.

Partidos

Mas a pesquisa mostra também que há "partidos seguidos" e "partidos seguidores" de outros políticos no Twitter. O PSOL é o principal exemplo do primeiro grupo, enquanto o PSD e PRP são dois exemplos do segundo grupo.

"De um modo geral, quem é de esquerda ou de extrema-esquerda é mais seguido pela direita", avalia Amaral.

O PT, PSOL, PSDB, PC do B e DEM se destacam pelos níveis de atividade, popularidade e conexão entre seus perfis. No outro extremo, PMDB, PP, PSD, PR e PTB aparecem como as legendas com menor percentual de políticos com conta ativa no Twitter.

Para o professor, os números indicam uma aversão por boa parte de seus parlamentares à modernidade.

Por isso, o professor José Antônio Gomes de Pinho, que orientou a pesquisa de Amaral, diz estar curioso para saber o comportamento do PMDB, agora no comando do Palácio do Planalto.

"Era o partido cujos parlamentares menos conta tinham no Twitter. Expressa bem a forma mais tradicional de fazer política", observa, dizendo que há um grupo de políticos que vivem à margem das redes sociais tal qual seus respectivos eleitores.

Palanque virtual

A adesão ao Twitter pelos parlamentares brasileiros veio na onda da campanha de Barack Obama, em 2008. A maioria das contas foi aberta, principalmente, antes das eleições de 2010, e, para os novos parlamentares, antes do pleito de 2014.

Segundo Amaral, representantes do PT e PSDB lideraram esse movimento.

Apesar de garantir mais visibilidade, ainda não é possível afirmar se uma performance acima da média nas redes sociais é garantia de mais votos nas eleições.

O pesquisador, contudo, encontrou uma relação positiva entre popularidade no Twitter e a quantidade de votos dos eleitos em 2014, em especial para os deputados federais reeleitos.

Pixabay
Segundo pesquisa, senadores são mais poulares que deputados no Twitter

"O sucesso eleitoral dos maiores usuários do Twitter indica que há relação entre o capital político do parlamentar e seu capital social no ambiente virtual, mas não é possível se afirmar em que medida um influência o outro ou em que sentido", avalia Amaral.

O que ficou provado foi que os candidatos que exploraram no perfil nome e número das urnas não tiveram uma performance nas urnas tão melhor que os demais, mas garantiram mais popularidade no mundo virtual.

"Os dados indicam que, com um esforço adicional no período eleitoral, os políticos que demonstraram maior atividade no uso da rede de fato obtiveram sucesso em atrair a atenção dos internautas, mas não necessariamente os votos dos eleitores", observa.
 

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