Onda conservadora na América do Sul passa por 'teste' em eleições no Equador

Marcia Carmo

Em Buenos Aires

  • Henry Romero/Reuters

    Mulher vota para presidente em Guayaquil, no Equador

    Mulher vota para presidente em Guayaquil, no Equador

Eleitores equatorianos vão às urnas neste domingo, no segundo turno das eleições presidenciais, para decidir entre o candidato apoiado pelo governo, Lenín Moreno, da Alianza País, e o opositor e empresário Guillermo Lasso, do Movimento CREO, cujo mote de campanha é a palavra 'cambio' (mudança).

Os dois candidatos têm trajetórias, perfis e propostas diferentes, mas neste pleito pode estar em jogo algo além da linha política que surgirá no Equador, após dez anos de governo de Rafael Correa.

A eleição é também um teste para a onda conservadora dos últimos tempos na América do Sul, segundo analistas ouvidos pela BBC Brasil.

Para os especialistas, o resultado da eleição entre Moreno e Lasso poderá reforçar ou não o viés político que representam Mauricio Macri, na Argentina, Horacio Cartes, no Paraguai, Pedro Pablo Kuczynski, conhecido como PPK, no Peru, e mesmo Michel Temer, no Brasil.

Para Simón Pachano, professor da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), em Quito, no Equador, se Lasso (oposição) vencer seguirá as políticas de Macri e de Cartes, buscando a maior presença da iniciativa privada no país, por exemplo.

Por outro lado, se a vitória for de Moreno, a expectativa é de que ele manterá a maior presença do Estado na economia.

"Os dois têm propostas muito diferentes. Se Lasso ganhar, o Equador abandonará os países do chamado Socialismo do Século XXI, aderirá à Aliança do Pacífico e deixará a Alba. Se Moreno ganhar, manterá o país na Alba e, como Correa, apoiará o presidente Nicolás Maduro", diz Pachano à BBC Brasil.

Polarização

O conceito político "Socialismo do Século 21", propagado pelo ex-presidente Hugo Chávez, que morreu em 2013, é associado a Venezuela, Equador e Bolívia.

Já a Alba, a 'Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América', defende a integração regional com foco no combate à pobreza, diferente, portanto, da Aliança do Pacífico (México, Colômbia, Chile, Peru), que é voltada para o comércio.

A polarização entre Moreno e Lasso confirma o teste para a onda conservadora no momento em que os governos definidos como progressistas encaram problemas como a corrupção, diz à BBC Brasil Gerardo Caetano, professor de Ciências Políticas da Universidade da República, em Montevidéu, no Uruguai. 

"A eleição (deste domingo) no Equador é um teste muito importante para a onda conservadora na região. Apesar dos conflitos que o governo Correa teve com os movimentos sociais e de seu perfil mais totalitário, ele é parte de um ciclo progressista da América do Sul", diz Caetano.

Para ele, a "disputa de poderes" na Venezuela e a "situação política dramática no Brasil", na qual a presidente (Dilma Rousseff) não concluiu seu mandato, também tem influência no cenário regional.

"Tudo que ocorre no maior país da região, que é o Brasil, nos afeta. E os escândalos de corrupção que envolveram a esquerda acabam transbordando também para a política na nossa região", afirma o professor uruguaio, citando a Lava Jato e seus tentáculos para outros países. 

Caetano concorda com Pachano ao apontar as diferenças entre os dois candidatos que disputam a Presidência. Moreno, que foi vice-presidente de Correa até janeiro passado, representará a continuidade das políticas atuais.

Já Lasso, que foi presidente de um banco (Banco Guayaquil, do qual continua sendo um dos principais acionistas), defende a abertura da economia.

Desgaste político

Outros analistas ouvidos pela BBC enfatizam o desgaste causado pelo longo período dos governos associados ao progressismo e à mudança atual no quadro econômico, com a queda nos preços das commodities.

No caso do Equador, a influência da queda do petróleo nas finanças públicas reduz as margens de ação do próximo presidente, seja Moreno ou Lasso, diz Aquino.
Ao mesmo tempo, o fato de a eleição equatoriana ser definida no segundo turno confirma a "polarização" regional, pondera Caetano.

"Não é algo simples. Mas na Argentina, por exemplo, não acredito que Macri tenha saído vitorioso (com resultado apertado no segundo turno em 2015). O que ocorreu, principalmente, foi que o Kirchnerismo perdeu e certamente foi pelo cansaço do eleitorado", argumenta Caetano.

Na sua visão, há também outro fator contribuindo para que o conservadorismo esteja no segundo turno no Equador. "Quando os governos de esquerda ou centro-esquerda, cada um com seu estilo, assumiram nos vários países da região [no início dos anos 2000], as sociedades estavam cansadas e vínhamos de várias crises. Esses governos resgataram e melhoraram a vida de muitas pessoas, mas faltava um projeto de longo prazo e além disso quanto mais melhoram de vida, mais as pessoas ficam exigentes", opina Caetano.

Falando de Cochabamba, na Bolívia, o cientista político Roberto Lasema, do Centro de Estudos da Realidade Econômica e Social (CERES), diz acreditar que os governos da América do Sul não podem ser definidos como "conservadores" ou "progressistas e de esquerda".

"Acho que cada presidente tem seu estilo próprio e cada país seu contexto. É verdade que os governos populistas foram favorecidos pela alta no preço das commodities, mas não pensaram em políticas de longo prazo. Os governos tidos conservadores são, na verdade, mais pragmáticos e o eleitor quer que o pragmatismo gere oportunidades de emprego e melhorias econômicas em suas vidas", afirma.

'Casa arrumada'

De Lima, no Peru, Carlos Aquino, professor de política econômica da Universidade Mayor de San Marco,  afirma que Correa e o boliviano Evo Morales foram "mais responsáveis" do que outros líderes regionais em termos econômicos, diferenciando-se da era Kirchnerista (2003-2015) da Argentina e da Venezuela, com Chávez e Maduro, a partir de 1999.

Para ele, os dois primeiros "deixaram a casa mais arrumada" do que outros líderes. "Mas o grande problema no Equador, seja quem for o eleito, é a dependência do petróleo, e ao mesmo tempo a incapacidade que Correa teve de diversificar a economia", diz Aquino. 

Na sua visão, pela administração feita por Correa, "bem diferente da que faz Maduro", o candidato governista teria chances de ser eleito.

Para Pachano, o resultado das urnas neste domingo é imprevisível. Assim como é incerto, segundo o professor, o governo que será feito após a saída de Correa, classificado por ele como "personalista".

"O quadro será outro e Correa tem um estilo próprio", afirma.

Os analistas observam que, mesmo sendo o herdeiro político do atual presidente, Moreno é mais aberto ao diálogo com setores diferentes, o que não ocorreu no "correismo".

Para borrar ainda mais definições de direita e esquerda na campanha do segundo turno, Lasso, o candidato conservador, contou com apoio de partidos de esquerda e mostrou simpatia a medidas como a aprovação do casamento gay, buscando atrair apoio de setores do eleitorado que não são conservadores, segundo Pachano.

América do Sul

Neste ano, a América do Sul vai realizar duas outras eleições que também servirão de teste para a onda conservadora.

A Argentina fará eleições legislativas em outubro para renovar parte do Congresso Nacional. Atualmente, Macri não tem maioria no Parlamento, mas conseguiu aprovar vários projetos.

Mas, caso sua força política - 'Cambiemos' ("Mudemos", em tradução livre) - perca, analistas dizem que ficaria mais difícil para ele aprovar novas medidas.

Já no Chile, com a presidente Michelle Bachelet, socialista, governando com baixos índices de popularidade, haverá eleição presidencial em novembro. Até agora, o ex-presidente e conservador Sebastián Piñera aparece entre os possíveis vencedores para sucedê-la.

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