Em crise com ruralistas, Kátia Abreu flerta com esquerda e critica "reacionários"

João Fellet

Em Brasília

  • Charles Sholl/Futura Press/Estadão Conteúdo

Numa tarde de março, uma mulher negra com tranças no cabelo e uma transsexual loira conversavam numa sala que, há poucos anos, era parada obrigatória para homens com chapéus e botas de couro em passagem por Brasília.

A recepção do gabinete da senadora Kátia Abreu (PMDB-TO) --decorada com retratos de africanos em roupas tradicionais e uma foto em que ela aparece abraçada a dois indígenas-- tem atraído um público diferente desde que a peemedebista reassumiu seu posto no Congresso, após deixar o cargo de ministra da Agricultura do governo Dilma Rousseff (PT) e se projetar como uma das principais defensoras da ex-presidente no processo de impeachment.

A lealdade de Abreu a Dilma a afastou dos ruralistas, setor que apoiou a queda da petista com entusiasmo e do qual a senadora agora tenta se diferenciar ao defender "um agro moderno, sem posturas reacionárias". Mas a nova postura também lhe fez ganhar admiradores à esquerda e a expôs a outras bandeiras políticas.

A "BBC Brasil" entrevistou a senadora em seu gabinete em 29 de março. Interrompida para que Abreu discursasse no Senado, a conversa foi retomada seis dias depois por telefone --quando voltou a ser encerrada abruptamente, desta vez após a senadora ser questionada sobre seu envolvimento com denúncias investigadas pela Operação Lava Jato.

No início do mês de abril, o ministro do Supremo Tribunal Federal Edson Fachin tornou pública a abertura de um inquérito para investigar a senadora e seu marido, Moisés Pinto Gomes, pelo suposto recebimento de R$ 500 mil em caixa dois em 2014. Abreu nega irregularidades.

Homofobia e assessores petistas

A senadora diz que as mulheres que a visitaram naquela tarde foram tratar de um projeto de lei que pune a homofobia com o mesmo rigor com que é tratado o racismo. "A violência (por homofobia) está muito grande: morte, óbito, espancamento. Diz que é uma coisa horrorosa, que o Brasil é o campeão. Fiquei tão chocada", afirmou a senadora após se despedir das mulheres e prometer votar a favor da lei.

Segundo Abreu, o encontro foi marcado a pedido da assessora Janaína Oliveira, incorporada a sua equipe após o impeachment. Negra, lésbica e militante do PT, Oliveira presidia o conselho de combate à homofobia da Secretaria Nacional de Direitos Humanos no governo Dilma.

Outro novo auxiliar egresso do governo petista é o garçom José da Silva Catalão, que trabalhava no gabinete presidencial do Palácio do Planalto nas gestões Dilma e Lula. A demissão de Catalão virou notícia --segundo relatos, a equipe de Temer resolveu descartá-lo por desconfiar que pudesse transmitir informações aos patrões antigos.

João Fellet/BBC Brasil
Senadora Kátia (PMDB) posa ao lado de indígenas
Também transitava pelo gabinete da senadora um homem com uma estrela do PT e um broche com o lema "Fora Temer" no paletó, o assessor Osni Calixto. Auxiliar do senador petista Donizeti Nogueira, também do Tocantins, Calixto disse à secretária de Abreu que queria "passar orientações" à senadora. Como ela estava ocupada, ficou de voltar depois.

'Muito cafona'

Apesar da convivência mais intensa com petistas, Abreu nega que tenha migrado para a esquerda. "Acho muito cafona esse negócio de direita e esquerda", afirma. "Sou liberal e humanista."

A senadora defende que o Estado cuide dos mais vulneráveis, mas diz acreditar que "o emprego vem das empresas, da iniciativa privada".

Abreu tem se alinhado à oposição ao governo Temer em alguns dos principais temas na agenda do Congresso. Em dezembro, votou contra a Proposta de Emenda à Constituição que definiu um teto para os gastos públicos, a primeira grande reforma econômica aprovada pela nova gestão.

Nas últimas semanas, ela criticou a aprovação na Câmara de uma lei que flexibiliza as terceirizações e engrossou o coro dos parlamentares contrários à reforma da Previdência.

Ainda assim, diz que não pertence à oposição. "Sou independente. Não faço da oposição uma profissão, faço oposição àquilo que acredito."

Abreu diz à "BBC Brasil" que a reforma de Previdência de Temer deverá punir, sobretudo, os mais pobres. "Essa é a revolta maior, porque as pessoas sentem que não estão mexendo com os ricos. E é verdade, não estão mesmo."

Segundo a senadora, "o governo não quer mexer em quem tem capacidade de mobilização". "O corporativismo funciona e as bancadas reagem, então é mais fácil mexer nos anônimos."

Ela defende que as mudanças na Previdência sejam mais brandas para habitantes de zonas rurais e mulheres - que, ela diz, trabalham mais que os homens no Brasil.

Aos 55 anos, a senadora afirma que ela mesma chega a ficar "descadeirada" com as tarefas domésticas. "Final de semana é dia de limpar a casa, faxinar a casa, arrumar gaveta, guardar roupa no armário. Eu que faço, sei onde guarda, a roupa que passa."

A assessora Priscilla Rodrigues interrompe a entrevista para contar que Abreu costuma espalhar post-its (notas adesivas) pela casa. "Meu marido diz que um dia vai chegar lá e vai ter um post-it nele", diz a senadora.

Ela se diverte ao contar que o marido - o agrônomo e seu ex-assessor Moisés Pinto Gomes, com quem se casou em 2015 - se espanta com sua organização.

"Cheguei no Tocantins e apareceu uma determinada festa, um aniversário, e eu não tinha levado uma roupa assim. Liguei pro Moisés, mandei a combinação da roupa, o arranjo do cabelo, a bolsa, a sandália. Ele falou assim: 'Eu não acredito. Pode apagar a luz que estou encontrando tudo!'".

Da fazenda à política

Nascida em Goiânia e formada em Psicologia pela Universidade Católica de Goiás, Abreu se lançou na política depois que seu então marido, o pecuarista Irajá Silvestre, morreu num acidente de avião, em 1987.

Ela assumiu a gestão da fazenda e logo se tornou presidente do sindicato rural de Gurupi, então um município no norte goiano e hoje parte do Tocantins.

Em 2003, elegeu-se deputada federal e, quatro anos depois, migrou para o Senado. Antes de entrar no PMDB, em 2013, passou pelo PFL (atual DEM) e pelo PSD.

Ao ingressar no governo Dilma, Abreu ganhou a simpatia de antigos desafetos. Em 2015, ela publicou no Twitter uma fotografia em que aparecia abraçada à presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Carina Vitral, filiada ao PC do B.

A historiadora Maria da Conceição Oliveira, que integra um grupo de blogueiros de esquerda simpáticos aos últimos governos petistas, publicou em 2014 em seu blog um texto crítico à nomeação de Abreu como ministra.

Dois anos depois, Oliveira divulgou no Facebook o relato de um encontro com Abreu, quando a parabenizou por ficar ao lado de Dilma no impeachment. "Kátia chorou. Ela estava visivelmente comovida. Sua lealdade à presidenta Dilma é genuína", disse a historiadora.

No processo de impeachment, Abreu foi uma das principais defensoras de Dilma no Senado. Ao longo do governo, as duas haviam ficado tão amigas que Abreu escolheu Dilma como sua madrinha de casamento.

"Estamos vivendo uma farsa", disse a senadora ao defender a chefe, no Congresso. "Se nós fôssemos agora colocar nesse auditório todos que estão sendo investigados pela lambança de todos os partidos... Mas (está) todo mundo aqui caladinho, acusando a presidente Dilma e escondendo pra debaixo do tapete a corrupção e as acusações que estão dentro de seus próprios partidos."

Abreu diz que nunca pensou que seria elogiada por militantes à esquerda e que, ao defender Dilma, chegou a "imaginar que nem política ia ser mais".

Hoje, porém, diz que a decisão não teve "custo político nenhum" e que até apoiadores do impeachment aplaudiram seu gesto, entre os quais um amigo "direitaça", dono de uma universidade no Tocantins.

"Ele falou: 'Kátia, você não tem noção o tanto que a gente torceu pra essa Dilma cair, mas eu e minha mulher ficávamos lá em casa morrendo de medo d'ocê fraquejar'. Acredita isso?", ela conta, aos risos.

Atritos

Mas as posições da senadora lhe têm causado atritos com o seu partido, o PMDB. Na véspera do impeachment, quando ela se recusou entregar o cargo no governo, o primeiro secretário nacional do partido, Geddel Vieira Lima, apresentou ao Conselho de Ética da legenda um pedido para que Abreu fosse expulsa da agremiação.

O caso ainda está sob análise. Geddel foi nomeado ministro por Temer, mas deixou o posto após revelações de que havia pressionado pela concessão de uma licença para uma obra em Salvador.

Sobre o pedido de expulsão, Abreu afirma que "não trabalha nem contra nem a favor"."Tô calmamente aguardando o desfecho."

A senadora diz continuar no PMDB porque, segundo ela, "é o único partido do Brasil que estatutariamente permite as suas divergências".

Alguns políticos da sigla criticam sua permanência. "Se ela tivesse um mínimo de decência política, ela sairia do PMDB", diz o correligionário Alceu Moreira, deputado federal pelo Rio Grande do Sul.

Membro da bancada ruralista, grupo que Abreu presidiu quando deputada, Moreira diz que a senadora comprometeu sua reputação ao se aliar a Dilma.

"Como que uma pessoa de bem, presidente da CNA (Confederação Nacional da Agropecuária), vai ser ministra da presidente Dilma, do PT, um partido de esquerda, e se transforma em sua mais fiel escudeira? A relação dela era de bajulação a quem quer que desse espaço político para ela", disse à BBC Brasil. Abreu não quis comentar a declaração do colega.

Questionada sobre como avalia o governo Temer, a senadora ri e dá um longo suspiro. "Acho que ele está empenhado em acertar. Acho que está com um relacionamento muito bom com o Congresso, mas acho que as decisões precisam estar mais estruturadas", diz.

Para Abreu, o governo tem errado ao se comunicar sobre as reformas e ao mudar sua posição nas negociações. "Há muitos recuos: vai e volta, vai e volta. E isso traz dificuldades."

Frustra-se por estar fora de um governo no qual a bancada ruralista parece ter mais força do que nunca, tendo indicado não só o ministro da Agricultura, mas também o ministro da Justiça, Osmar Serraglio?

"Absolutamente. Ninguém deu mais empoderamento ao setor agropecuário do que a presidente Dilma - por isso a nossa aliança", ela diz.

Abreu afirma que a presidente foi responsável pelos maiores financiamentos públicos ao setor e pelo maior volume de vendas de máquinas agrícolas dos últimos 40 anos.

"Isso é uma coisa até natural, talvez porque você sempre quer agradar aqueles que não te amam. Como ela não tinha esse setor, é natural que ela se desdobrasse para estar bem com eles."

Rivais

Pergunto se é por esse mesmo motivo - "agradar aqueles que não te amam" - que Abreu pôs em seu gabinete uma foto em que veste um cocar e está abraçada a dois indígenas.

"Meu filho mais velho chama Irajá, meu filho segundo chama Iratã, minha filha mais nova chama Iana. Tem muitos anos que escolhi três nomes indígenas tupi-guarani para os meus três filhos. Não preciso falar mais nada."

A BBC Brasil localizou os indígenas na foto com a senadora, o casal Maturembá e Juerana Pataxó, que vive em Trancoso (BA).

Maturembá diz que não conhece Abreu e que, ao posar para a foto, pensou se tratar de uma turista interessada no artesanato vendido pelo casal. Ele afirma que processará a senadora caso ela use a imagem para fazer propaganda política.

Questionada por e-mail sobre por que escolheu a imagem, Abreu não respondeu.

Muitos indígenas consideram a senadora uma das maiores rivais do movimento. Em declarações e artigos na imprensa, ela criticou os critérios para a demarcação de terras indígenas e cobrou maior repressão a ocupações de fazendas.

Em 2015, afirmou que os conflitos agrários com indígenas surgiram porque os grupos "saíram da floresta e passaram a descer nas áreas de produção".
Hoje, diz que "talvez tenha me comunicado mal, porque não sou contra eles".

"Os índios do meu Estado sabem como eu os trato. Não vou ficar lutando contra teses e acusações, não tenho essa necessidade de ser amada por todos", afirma.

"Sou radical a favor do direito de propriedade. Se os índios precisam de terras, não precisam tomar de ninguém, o Brasil tem terra demais. É o governo assumir suas responsabilidades, fazer suas análises técnicas e antropológicas, e comprar a terra."

Abreu também tem tentado mudar sua imagem perante ambientalistas e se diferenciar de políticos ruralistas que classifica como "reacionários".

"Quero um agro moderno, que se preocupa com o meio ambiente, com questões sociais do campo, e que esteja comprometido com a qualidade do seu produto lá na frente."

Coordenador de políticas públicas do Greenpeace, ONG que já entregou a Abreu uma "motosserra de ouro" e uma faixa de "Miss Desmatamento", Marcio Astrini diz desconfiar do discurso.

Ele afirma que, enquanto ministra, Abreu se opôs a propostas no Congresso que buscavam enfraquecer a legislação ambiental, mas agiu assim "não por defesa dessa agenda, mas para preservar o cargo".

"A Kátia Abreu de hoje ou de ontem nunca foi verde", afirma Astrini.

Ele conta que, nas negociações do Código Florestal, aprovado em 2012, Abreu criticava ambientalistas e cientistas que se opunham ao afrouxamento das punições por desmatamento ilegal. "No discurso ela fala uma coisa, mas na hora de votar e agir, faz outra bem diferente."

A senadora não quis comentar as críticas.

Ela diz que posições reacionárias também estiveram por trás de seu afastamento da Confederação Nacional da Agropecuária (CNA). Presidente da instituição desde 2008, ela se licenciou do cargo em 2015 para assumir o Ministério da Agricultura.

Após sair do governo, ela poderia voltar à entidade, mas foi barrada por outros dirigentes do órgão, que reprovaram sua postura diante do impeachment.

"Tudo que a Dilma fez pelo setor agropecuário era de conhecimento da CNA, eu fui ovacionada e festejada como ministra da Agricultura várias vezes na CNA, todas as reivindicações da CNA foram atendidas, mas bastou alguém bater um pé para virarem as costas para aquilo que estava dando certo, por puro reacionarismo, preconceito contra posições que divergem."

A CNA não quis comentar a declaração de Abreu.

No Congresso, antigos aliados dizem que a senadora perdeu influência no setor. Presidente da bancada ruralista, o deputado federal Nilson Leitão (PSDB-MT) diz que Abreu anda afastada do grupo. "Ela não participa de nada na frente parlamentar há muito tempo", afirma. "Ela acabou tomando um lado político que conflitava com o que a gente imaginava para o Brasil."

'Congresso paralisado'

Questionada sobre quem apoiará à Presidência em 2018, Abreu diz que é cedo para pensar no pleito e que está totalmente focada em seu mandato de senadora.

Segundo ela, os trabalhos no Congresso foram "totalmente paralisados pela (Operação) Lava Jato".

Ela diz ainda que a operação "deu uma grande contribuição ao país", mas critica os vazamentos de delações e afirma que os investigadores "não podem buscar um personagem e fazer dele culpado de qualquer jeito, como se fosse um ponto de honra" - argumento semelhante ao usado pelos advogados que defendem o ex-presidente Lula.

Abreu foi citada nas delações de quatro executivos da Odebrecht. Eles afirmaram que a senadora recebeu por meio de caixa 2 duas parcelas de R$ 250 mil. O dinheiro teria sido entregue a seu marido em encontros no hotel Meliá Jardim Europa, em São Paulo.

Segundo o ministro Edson Fachin, Abreu foi identificada nos registros de pagamentos da Odebrecht com o codinome "Machado".

A senadora negou as acusações em nota enviada por sua assessoria.

"Afirmo categoricamente que, em toda a minha vida pública, nunca participei de corrupção e nunca aceitei participar de qualquer movimento de grupos fora da lei."

Ela se disse "à disposição para prestar todos os esclarecimentos necessários de maneira a eliminar qualquer dúvida sobre a minha conduta e a do meu marido".

Dias antes do anúncio de que estava sendo investigada, Abreu se impacientou quando a BBC Brasil a questionou se de fato havia recebido recursos da Odebrecht.

"Não sei, você tem de ler a delação. É só isso que você tem para me dizer? Eu não tenho mais tempo para você, tá bom?". E desligou o telefone.

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