Como tragédia levou curitibanos a se unirem em projeto de tênis que atende crianças carentes

  • Valterci Santos/BBC Brasil

    7.mai.2017 - Projeto social ensina crianças carentes a jogar tênis

    7.mai.2017 - Projeto social ensina crianças carentes a jogar tênis

"Faria qualquer coisa para conseguir atravessar essa fase tão difícil." Esse desalento resumiu, para Eduardo Marcolin, a tristeza de lidar com a perda do filho de 17 anos, Ícaro.

Técnico de tênis, Marcolin acompanhava o atleta Alexandre Bonatto em um torneio na Argentina em 2003 quando o filho, tenista que também disputava a competição, morreu em um acidente de moto no país vizinho.

Ante a dor da perda do único filho, Marcolin decidiu canalizar suas forças para ensinar o tênis a crianças carentes no Paraná. No início, diz, ele próprio foi o principal beneficiado pela iniciativa, que o amparou durante o luto.

"Foi maravilhoso para me ajudar a passar por essa fase. Fiquei envolvido demais emocionalmente, e durante anos foi a minha âncora."

Anos antes, até 2000, ele manteve uma academia semelhante, com apoio do tenista Gustavo Kuerten, o Guga. Após perder apoio financeiro, porém, a ideia foi deixada de lado.

Apenas em 2004, pouco mais de um ano após a tragédia familiar, surgiu o Instituto Ícaro, que atende diretamente mais de 200 jovens e outros 2 mil por meio de parcerias.

'De repente, eu não tinha mais nada'

Além de Marcolin, a tragédia afetou profundamente a Alexandre Bonatto, o tenista que, em sua melhor fase, disputava o torneio na Argentina.

"Foi um baque: ele (Ícaro) era um dos meus melhores amigos", disse à "BBC Brasil".

Depois da morte, Marcolin e Bonatto tentaram manter a rotina de treinamentos. Mas, debilitados, acabaram por também perder o contato.

"Eu era uma das promessas do país --já tinha sido número 20 do mundo juvenil e o tenista que mais tinha subido no ranking da ATP (sigla para a federação internacional de tênis)-- antes de isso acontecer. Depois, passei dois anos sem ganhar nada. Parecia que tinha acabado para mim. Aquilo me destruiu", diz Bonatto.

"Eles (os Marcolin) eram meu porto seguro. Estávamos sempre juntos e, de repente, eu não tinha mais nada", afirma o ex-tenista. "Não ter o Duda como técnico foi como ter perdido um pai."

Nesse meio tempo, o Instituto surgiu. Bonatto recuperou a carreira, mas, como resume Carla, sua mulher e assessora do projeto, o tênis não aceita tantas falhas. "(Parecia que) a carreira não tinha como dar errado. Exceto por algo como isso, sobre o qual não se tem controle."

De longe, Bonatto continuou a acompanhar o ex-técnico. Anos depois, o projeto em homenagem a Ícaro os reuniu. Hoje, o ex-tenista integra o corpo técnico do instituto e é exemplo para os atletas de alto rendimento.

"Eu e Duda sempre tivemos muita afinidade enorme, mas nossa relação era de treinador e atleta. Agora, passei para o lado dele."

Do Instituto, uma família

Um dos tenistas treinados por Bonatto é Emanuel Lima, o Maneco, de 17 anos. "Ele conhece o circuito, tem muita experiência para passar. Ele explica situações reais de jogo, como se comportar em certos aspectos, mentalmente e fisicamente", afirma Maneco.

O jovem entrou para a "família", como descreve, depois que seus dois irmãos conheceram o tênis graças à ligação da escola municipal onde estudavam com o instituto.

Há oito anos, o hobbie virou amor e passou a integrar grande parte de sua rotina. Deu, inclusive, inspiração para uma possível carreira. "O instituto me abriu várias portas: meu projeto, hoje, é uma faculdade nos EUA", planeja. Para isso, tem aulas de inglês oferecidas sem custos pela organização.

Tênis para todos

Além das aulas de tênis e de inglês, o instituto oferece xadrez, massoterapia, preparo físico e fisioterapia para todos os atletas. Reforços de português e matemática também acontecem nas duas salas de estudos construídas na sede da instituição.

O intuito primordial é formar pessoas, mas desenvolver atletas profissionais ajuda o Instituto a se manter existindo. "A visibilidade atrai mais talentos e recursos. Levando 30 tenistas para o alto rendimento, bancamos dois mil (outros jovens)", estima Marcolin.

Sustentado por leis de incentivos, doações e patrocínio de um canal de TV, o projeto ainda é ligado à academia privada de Marcolin. Tenistas pagantes convivem com os atletas do instituto - e usufruem da mesma estrutura fornecida pela organização, equipamentos que vão de raquetes a calçados e uniformes.

Parcerias com a Prefeitura e a Secretaria da Educação de Curitiba e com uma universidade permitem que o projeto tenha 39 células, alcançando todas as nove regiões da cidade através da capacitação de professores.

Quase 15 anos após a morte do filho, Marcolin tem muitos planos inacabados, mas sente ter feito o melhor possível diante da tragédia. "Sinceramente, sou muito feliz. Em todos os sentidos - agora tenho cinco filhos (nascidos após a morte do primogênito), três academias e uma multidão de crianças para educar", diz. "Ícaro teria orgulho."

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