Lula dá depoimento a Moro como réu da Lava Jato: veja como foi o dia em Curitiba

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve, nesta quarta-feira, sua primeira audiência com o juiz federal Sergio Moro, juiz da operação Lava Jato na primeira instância e, por isso, responsável por julgar os processos contra o ex-presidente ligados ao caso.

Réu de três ações sob a alçada do magistrado, o petista foi interrogado sobre as acusações de que recebeu vantagens indevidas das empreiteiras OAS em troca de contratos com a Petrobras.

Segundo o Ministério Público Federal, a companhia pagou R$ 3,7 milhões a Lula por meio da reserva e reforma de um tríplex no Guarujá, no litoral de São Paulo, e pelo custeio do armazenamento de seus bens depois que o petista deixou a Presidência.

Lula negou ser proprietário do imóvel e que tenha recebido propina da OAS. A Moro, o ex-presidente afirmou nunca ter tido a intenção de adquirir o tríplex, mas admitiu que jamais disse à OAS que não ficaria com o apartamento. Ele afirmou ainda que sua mulher, Marisa Letícia, morta em fevereiro, poderia estar interessada no imóvel como "investimento".

O ex-presidente também afirmou não ter mandado destruir provas e disse não saber sobre desvios na Petrobras.

O depoimento ocorreu sob grande expectativa. A defesa do ex-presidente vinha afirmado que ele é vítima de "um histórico de perseguição e violação às garantias fundamentais pelo juiz de Curitiba" e chegou a pedir que Moro fosse afastado do caso. O magistrado refuta as acusações - e a solicitação foi negada pela instância superior.

Depoimento

Lula ficou cerca de cinco horas no prédio da Justiça Federal. Parte da audiência foi marcada por bate boca da defesa do ex-presidente e Sérgio Moro, em especial durante as perguntas em que o juiz citou o sítio de Atibaia (SP) - que teria sido reformado pela OAS a pedido de Lula, segundo sustenta a acusação com base em informações fornecidas pelo sócio da OAS Leo Pinheiro. A defesa do ex-presidente alegou que o sítio é objeto de outro processo penal e Lula, mais de uma vez, afirmou que daria os detalhes necessários quando fosse intimado para falar sobre essa outra ação.

Nos primeiros trechos tornados públicos, Lula é questionado sobre o tríplex e diz que "nunca houve a intenção de adquirir" o apartamento de três andares, só uma unidade simples no prédio. Também diz que chegou a visitar o tríplex uma única vez, mas que nunca teve a intenção de comprá-lo - apesar das afirmações em contrário de Leo Pinheiro.

"Leo estava querendo vender o apartamento e o senhor sabe que, como todo e qualquer vendedor, (ele queria) vender de qualquer jeito. Eu disse ao Leo que o apartamento tinha 500 defeitos", afirmou Lula, admitindo que não recusou de pronto o imóvel. Questionado por Moro se ele não comunicou a Leo Pinheiro que não ficaria com o imóvel, o ex-presidente afirmou: "Não. Não sei por que não comuniquei".

Depois de ter visitado o imóvel com a mulher, ele afirma que nunca mais falou sobre o apartamento com o executivo da OAS. Disse ter ficado sabendo pelo filho Fábio que a mulher voltou ao Guarujá para visitar o tríplex. "Dona Marisa não gostava de praia, nunca gostou de praia. Certamente ela queria o apartamento para fazer investimento", afirmou durante o depoimento.

Já Leo Pinheiro havia dito à Justiça que o apartamento sempre pertenceu a Lula, apesar de no papel estar no nome da OAS, e que "tinha a orientação de não colocá-lo à venda porque pertencia à família do ex-presidente".

Lula também negou que tivesse pedido a Leo Pinheiro que destruísse provas - conforme o executivo da OAS havia dito em depoimento.

Lula também negou as acusações de que a OAS custeava o armazenamento de seu acervo presidencial.

O advogado de Lula, Cristiano Zanin Martins, disse após o depoimento desta quarta que "o que vimos hoje no tribunal foi um ataque com motivações políticas" e criticou Moro, chamando a audiência de "farsa" e "um ataque à democracia".

Moro, durante a audiência, disse a Lula que ele foi "tratado com respeito" durante os procedimentos judiciais e que ele será julgado "com base na lei".

O juiz perguntou também sobre as indicações feitas a cargos da Petrobras, e o ex-presidente afirmou que Nestor Cerveró (ex-diretor financeiro da companhia) foi uma indicação do PMDB. Também falou sobre o encontro que teve com Paulo Duque (ex-diretor de serviços da Petrobras) e confirmou ter indagado se o ex-diretor da estatal, preso e condenado a 53 anos, mantinha contas no exterior.

Diante de Moro, Lula reclamou da postura do Ministério Público e da Polícia Federal. E, ao final do depoimento, disse que, se for absolvido, Moro teria de se preparar para ataques "muito mais fortes". O juiz rebateu, dizendo: "Já sou atacado por bastante gente, inclusive por blogs que supostamente são patrocinados pelo senhor".

Palanque

Milhares de simpatizantes aguardavam o fim do depoimento em uma praça a poucos quilômetros do prédio da Justiça Federal, onde Lula discursou após falar à Justiça.

Agradeceu aos manifestantes por "apoiarem uma pessoa que está sendo massacrada" e disse que está se preparando "para voltar a ser candidato a presidente desse país. Nunca tive tanta vontade, vontade de fazer melhor, de fazer mais, e provar que se a elite brasileira não tem competência pra consertar este país, o metalúrgico primário vai provar que e possível consertar este país."

Diante da tensão entre apoiadores e críticos de Lula, o acesso ao edifício estava fechado desde a noite de terça, quando manifestantes chegaram em maior número à cidade.

Havia temores de confrontos entre grupos favoráveis ao ex-presidente e contrários a ele, o que acabou não se confirmando diante do forte policiamento.

Apoiadores de Lula se concentraram no acampamento da Frente Brasil Popular, que reúne vários movimentos sociais, próximo à rodoviária.

Críticos ao petista eram em menor número - após vídeo de Moro pedindo que os simpatizantes da Lava Jato ficassem em casa, vários grupos decidiram não ir a Curitiba.

O local ficou cercado por policiais, e os manifestantes pró e contra Lula foram mantidos afastados entre si e do acesso à Justiça Federal.

Durante o depoimento, a imprensa ficou em um espaço reservado situado distante do prédio. Os moradores do grande perímetro cercado foram escoltados por agentes para entrar e sair de casa - todos tiveram que comprovar residência na região e cadastrar seus veículos para conseguir usá-los.

Impacto político

Ao aterrissar em Curitiba, Lula foi recebido por petistas e posou para fotos e vídeos com correligionários como a senadora Gleisi Hoffmann, o deputado federal Zeca Dirceu e o presidente do partido, Rui Falcão.

O ex-presidente chegou ao prédio da Justiça Federal acompanhado de militantes por volta das 13h45, reforçando o caráter político que o depoimento assumiu.

Segundo especialistas entrevistados pela BBC Brasil, era pequena a possibilidade de o interrogatório ter relevância jurídica para o processo contra o ex-presidente.

Já o impacto político poderia ser expressivo.

Líder nas pesquisas de intenções de voto para as eleições de 2018, Lula pode ser impedido de concorrer tenha uma condenação em segunda instância até o pleito, e tem adotado o discurso de que é perseguido pela Lava Jato.

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