Por que vim a Curitiba acompanhar o depoimento de Lula

Ingrid Fagundez

  • BBC

"Seja bem-vindo! A 'República de Curitiba' te espera de grades abertas", lê-se no outdoor financiado por grupos políticos. "Lula, estamos com você", diz a faixa pendurada no acampamento de movimentos sociais.

Às vésperas do depoimento do ex-presidente Lula ao juiz Sérgio Moro nesta quarta-feira, Curitiba é um retrato da polarização no Brasil.

Um lado, vestido de verde e amarelo, veio à cidade para mostrar seu suporte à operação e criticar o petista. Outro, marcado pelo vermelho, chegou para dar força ao ex-presidente e protestar contra a agenda do governo.

Réu na Lava Jato, Lula será ouvido sobre ação na qual é acusado de receber propina da construtora OAS por meio de reserva e reforma do apartamento tríplex em Guarujá (SP).

A fim de entender um pouco melhor a motivação dos dois extremos, a BBC Brasil conversou com manifestantes que vieram à capital paranaense para acompanhar o interrogatório.

Natalia Elisabeth Roque Rojas, 21 anos, militante do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra

BBC
Militante do MTST diz estar em Curitiba 'não só para apoiar Lula', mas para 'defender direitos trabalhistas'

Filha de paraguaio e brasileira, Natalia mora no noroeste do Paraná e chegou a Curitiba na madrugada de segunda-feira. Está dormindo no acampamento que a Frente Brasil Popular, organização que reúne vários movimentos sociais, montou atrás da rodoviária da cidade.

Sentada ao lado de dezenas de barracas, conta que está no Movimento dos Trabalhadores Sem Terra desde os 10 anos, quando os pais tornaram-se membros. Antes, moravam no Paraguai, onde o pai era caseiro em uma fazenda e a mãe, dona de casa.

Como a família queria "um espaço maior para plantar e um lugar para viver", segundo Natalia, decidiram seguir os passos de um tio, então assentado pelo MST, e vieram ao Brasil.

Os direitos dos trabalhadores são um tema que permeia seu discurso. Ela diz que viajou a Curitiba para defendê-los e protestar contra as reformas do governo Michel Temer.

"Na verdade, a gente não veio só defender o Lula, mas os direitos que vêm sendo tirados desde que entrou o governo Temer. Um (das razões) é a reforma da Previdência, que vem forte contra a classe trabalhadora."

Antes da entrevista, um ato contra as mudanças na aposentadoria e na legislação trabalhista ocorria a poucos metros dali. Perguntada se os manifestantes acreditam na inocência do ex-presidente ou se argumentam em prol de um julgamento mais justo, ela escolhe a segunda opção.

"Acreditamos que a forma como ele está sendo julgado não é a correta, até porque, no momento, Lula é o único que ainda está do lado da classe trabalhadora. Ele é o único que a classe trabalhadora tem confiança de que vai entrar e pode fazer diferença para nós. É por isso."

De tempos em tempos, buzinas ou gritos de "fora" vindos da rua ao lado do acampamento interferem na conversa. Natalia diz que não se incomoda.

"Entendemos que as pessoas que buzinam não compreendem o motivo da nossa luta. Então a gente não se sente intimidado, porque o movimento já passou por isso e não é de hoje. Mas a gente não se sente reprimido, não."

Com experiência de mais 11 anos no MST, período no qual fez um curso de pedagogia do campo, diz que nunca foi hostilizada por vestir suas camisetas vermelhas.

Antes de nos despedirmos, uma última questão. O que espera para o futuro do país?

"A gente espera que a questão política se resolva da forma como o povo decida. E que a gente consiga colocar alguém que realmente atenda às necessidades do povo", diz, aparentemente terminando sua fala.

Mas faz um adendo: "Ah, e que se construa o socialismo no país, algo que ainda está longe".

Helio Oliveira, 52 anos, empresário da construção civil

BBC
Empresário considera este um 'momento ímpar' da história do país e se diz um 'combatente da corrupção'

Helio está em frente ao prédio da Justiça Federal do Paraná, local do depoimento do ex-presidente Lula a Sérgio Moro. É a noite de terça-feira e o acesso à frente do edifício ainda não foi fechado pela Polícia Militar. Com o celular em mãos, ele grava vídeos como se estivesse mandando recados a Lula.

Ao fundo, uma mulher no megafone: "Viva Sérgio Moro, viva Sérgio Moro!".

Vindo do Rio Grande do Norte, ele chegou na manhã de terça-feira acompanhado por mais dez pessoas, todos membros do grupo Radar. Juntos, eles organizam manifestações contra a corrupção.

Helio diz que combate esse problema desde 2014, por meio de protestos em seu Estado, e que não poderia perder esse "momento ímpar" da Lava Jato - e do Brasil.

Sua "perseguição aos corruptos", conta, começou criança, por causa da educação rígida da mãe. Para complementar o salário do pai, que era funcionário público, diz que começou a trabalhar aos 12 anos em um supermercado e não podia levar "sequer um alfinete para casa".

"Sou um combatente ferrenho da corrupção, porque tenho comigo que ela mata muita gente nos hospitais, muitas crianças, muitos jovens nas drogas, muitos idosos. E, hoje, Lula é um símbolo da corrupção."

Em seus protestos, ele diz que pensava nas gerações futuras e em como não queria um país mergulhado na miséria e "na ideologia marxista-comunista" que o governo petista estaria tentando instalar no país.

Empresário da construção civil em Natal, não esconde sua admiração pelo que chama de "república de Curitiba", onde, afirma, tudo funciona: se julga e se prende, fazendo com que as pessoas "se saciem com a missão da Justiça".

Ele vê todos os atores envolvidos na Lava Jato - promotores, juízes e policiais federais - como idealistas que querem uma mudança do país e precisam do apoio da "população de bem".

Sobre a expectativa de enfrentamento com manifestantes do lado oposto, Helio afirma que é uma característica da esquerda "fazer essa zoada de que vai ter conflito" para tentar amedrontar a outra parte.

"Não viemos aqui para confronto", diz, enquanto seus amigos o chamam para entrar no carro. Vão a um jantar que reúne apoiadores da Lava Jato do Brasil inteiro. Na janela traseira, há um adesivo com os dizerem "PQP STF".

Antes de nos despedirmos, uma última questão. O que espera para o futuro do país?

"Desejo um país que funcione, que nossos governantes possam conduzir essa massa de miseráveis que temos para o caminho de um país do futuro, onde haja educação, saúde, crescimento econômico e pungência."

Ao juntar-se aos amigos diz "tchau, querida" e todos riem.

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