Da pujança ao escândalo: a ascensão dos irmãos Batista, pivôs do escândalo que ameaça Temer

  • Zanone Fraissat /Monica Bergamo

    28.ago.2013 - Wesley Batista (esq.) e Joesley Batista (dir.), donos da JBS, em foto de 2013

    28.ago.2013 - Wesley Batista (esq.) e Joesley Batista (dir.), donos da JBS, em foto de 2013

A crise detonada em Brasília pela gravação suspostamente implicando o presidente Michel Temer está diretamente ligada à história de ascensão dos irmãos Wesley e Joesley Batista, símbolos da pujança econômica brasileira da última década.

À frente da holding J&F, que controla várias empresas, mas especialmente o frigorífico JBS - uma das maiores companhias brasileiras em faturamento -, os irmãos viram negócios modestos se transformarem em potência global. Mas agora se veem no centro de um escândalo que ameaça o governo Temer, acusado de dar aval a pagamento para silenciar o ex-deputado Eduardo Cunha, preso em Curitiba.

Wesley e Joesley fecharam delação premiada após a realização de uma série de operações da Polícia Federal que tinham a J&F como um dos alvos - envolvendo, inclusive, denúncias de irregularidades na aprovação de empréstimos do BNDES (banco nacional de fomento ao setor produtivo).

Os irmãos Batista envolveram-se profundamente no cenário político brasileiro: a JBS foi a maior doadora para a campanha eleitoral de 2014, gastando R$ 391 milhões, apoiando a vitória 164 deputados federais, seis governadores e da chapa formada pela ex-presidente Dilma Rousseff e por Temer.

O grupo também doou para a campanha de Aécio Neves (PSDB-MG), senador que ficou em segundo lugar na disputa presidencial e que hoje é um dos principais alvos da operação Patmos, desdobramento da Lava Jato deflagrada nesta quinta para dar sequência às investigações sobre as acusações dos empresários - segundo os relatos, ele recentemente foi gravado pedindo dinheiro a Joesley.

"Por que a JBS participa em doações de campanha? Porque acredita que, participando, tem condições de apoiar partidos e pessoas que, se ganham, podem contribuir para a gente ter um país melhor. E com um país melhor, automaticamente, a JBS tem um ganho de valor extraordinário", disse Wesley à BBC Brasil, em julho de 2015.

A empresa terminou 2014 com um faturamento de R$ 120 bilhões, um salto espetacular em relação aos R$ 3,5 bilhões registrados em 2003.

E, sobretudo, em comparação com o início humilde dos negócios da família: uma pequena casa de carnes em Anápolis, no interior de Goiás.

Mas os irmãos também ficaram famosa pela estratégia agressiva de aquisições, como a compra, em 2015, da Alpargatas, fabricante das sandálias Havaianas, por R$ 2,67 bilhões, e também de negócios no exterior, como o frigorífico Swift - a JBS têm fábricas em 20 países, incluindo os EUA e clientes em todos os continentes.

O conjunto dessa obra fez com que, ainda em 2015, a JBS se tornasse a maior empresa privada do Brasil em termos de receita.

E agora?

Tamanha pujança agora será testada duramente, segundo analistas de mercado. Investidores e credores da empresa estão à espera do impacto que a delação dos irmãos Batista terá no valor da JBS.

Notícias de ações policiais anteriores causaram abalos nos preços das ações da empresa, que desde o pico de R$ 17,2 em setembro de 2015 vêm caindo vertiginosamente e atingiram R$ 8,10 nesta quinta-feira.

Já é certo que o estrago institucional será maior, já que possíveis procedimentos escusos da cúpula da JBS serão revelados, e há ainda o risco de que o grupo J&E seja alvo de investigações no exterior.

Os irmãos sempre negaram que tivessem cometido irregularidades na obtenção de recursos públicos.

À BBC Brasil, Wesley chegou a se dizer injustiçado diante de alegações de que a JBS teria conluios com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que teriam facilitado a ascensão da empresa por meio de apoio da política de campeões nacionais do BNDES.

"Parece que no Brasil há uma dificuldade de se reconhecer que alguém pode crescer por ser competente ou por força do seu trabalho - e não por sorte ou porque é testa de ferro ou sócio de alguém."

Algo agora contradito pela delação, em que ele e o irmão admitem, pelo menos do que sabe até agora, o pagamento de propina para políticos e o uso de favores para a obtenção de decisões favoráveis em processos administrativos.

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