'Nenhum partido deve sair ileso': imprensa internacional diz que delação da JBS pode jogar Brasil em novo caos político e econômico

A nova denúncia contra o presidente Michel Temer, publicada na quarta-feira pelo jornal O Globo, é destaque na imprensa internacional.

Em gravação feita por dono da JBS, Temer teria dado aval à compra de silêncio do deputado cassado e ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (PMDB-RJ), preso em Curitiba (PR). O presidente nega, no entanto, a acusação.

De acordo com a imprensa internacional, a suposta gravação põe o governo Temer em xeque. E, diante das denúncias, o país corre o risco de "mergulhar em um novo caos político e econômico".

'Nenhum partido deve sair ileso'

Segundo o jornal britânico The Guardian, "gravações explosivas" atingem Temer e incriminam vários políticos incluindo o tucano Aécio Neves (PSDB-MG) e o ex-ministro petista Guido Mantega.

"Nenhum partido deve sair ileso", diz o texto.

O jornal lembra que a aprovação do presidente já estava na casa de apenas um dígito. Menciona ainda a recente greve geral contra as políticas de austeridade e reformas de leis trabalhistas, previdenciárias e do meio ambiente.

"A possibilidade de o Brasil derrubar outro presidente está mais próxima", apesar da coalisão do governo ter maioria no Congresso.

Ao mencionar a relação de Aécio Neves com Zezé Perrela (PSDB-MG), o jornal lembra ainda o incidente de 2013, quando um helicóptero que pertencia à família do senador, também do PSDB, foi encontrado com 445 quilos de cocaína. Apenas o piloto foi preso.

Nos Estados Unidos, o The New York Times afirmou que, mesmo "após anos de acusações e prisões por escândalos de corrupção no Brasil", a notícia deixou o país em choque.

O jornal americano lembrou ainda que uma pesquisa realizada em abril mostrou que 92% dos brasileiros acreditavam que o país estava no caminho errado. E afirma que, apesar dos baixos índices de aprovação, Temer vinha tentando obter apoio para aprovar "medidas de austeridade", incluindo a reforma da Previdência, "considerada um fator importante para restaurar a confiança na economia do país".

'Se for verdade, é uma bomba'

Para o Financial Times, Temer enfrenta a maior crise de sua curta presidência. De acordo com a publicação, a denúncia já está sacudindo o impopular governo Temer, que conta com baixa aprovação, e tem oito de seus ministros alvos de investigação.

"Se for verdade, é uma bomba", diz o analista Thomaz Favaro, citado pelo jornal.

Na análise das possíveis consequências, o jornal lembra que Rodrigo Maia, presidente da Câmara dos Deputados, na linha de sucessão, também foi implicado em denúncias. O jornal menciona também que Temer está batalhando para introduzir reformas ambiciosas, incluindo mudanças altamente impopulares no sistema de Previdência.

"As últimas revelações teriam o poder, não apenas de pisotear seus planos - poderiam derrubá-lo", afirma.

'Novo caos político e econômico'

O jornal francês Le Monde diz, por sua vez, que as gravações 'mancham' a imagem de Temer e marcam um novo capítulo da saga iniciada em 2014 pela Operação Lava Jato. O jornal alerta ainda que, diante das novas denúncias, o Brasil corre o risco de "mergulhar em um novo caos político e econômico".

"O país que mal havia começado sua recuperação depois de uma recessão histórica, poderia novamente sofrer com a ira dos mercados financeiros, preocupados com o bloqueio das reformas prometidas por Michel Temer", diz o texto.

O The Times lembra, por sua vez, que Temer chegou ao poder prometendo combater a corrupção e colocar a economia do país de volta aos trilhos. E destaca que centenas de manifestantes se reuniram em São Paulo, a maior cidade do Brasil, após a denúncia ser divulgada pedindo a renúncia do presidente.

Cunha, 'o homem que desatou o processo'

Já o site do jornal argentino El Clarín chama a atenção para o papel de Eduardo Cunha, que está preso, no escândalo. De acordo com a publicação, o ex-presidente da Câmara "não foi qualquer personagem da história do impeachment" contra a ex-presidente Dilma Rousseff.

"Na realidade, foi o homem que desatou o processo e que logo conduziu com respaldo de uma grande maioria da Câmara", diz a publicação.

O jornal americano The Washington Post lembra que Temer e Cunha são membros do mesmo partido e foram aliados, mas que "pareciam ter se desentendido em meio à crescente investigação sobre corrupção envolvendo a Petrobras". A publicação afirma que, desde o início da Operação Lava Jato, diversos políticos e empresários foram presos.

"Muitos acreditam que Cunha, que era amplamente visto como o político mais poderoso do Brasil antes de ser atingido pelos diversos casos de corrupção, poderia testemunhar contra dezenas de outros (políticos e empresários) caso fechasse um acordo de delação com os investigadores da Lava Jato", diz.

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