'Comunismo para crianças': o livro alemão que irritou a direita conservadora nos EUA

  • MIT Press

    Ilustrações do livro 'Comunismo para Crianças'; obra fala sobre doutrina em linguagem simples e desenhos de 'pequenas revolucionárias vivenciando seu despertar político'

    Ilustrações do livro 'Comunismo para Crianças'; obra fala sobre doutrina em linguagem simples e desenhos de 'pequenas revolucionárias vivenciando seu despertar político'

A ensaísta política e artista alemã Bini Adamczak esperava alguma polêmica quando lançou nos EUA, há dois meses, a versão em inglês de um livro que escrevera há 13 anos. Mas não previa a onda de críticas de conservadores radicais e o destaque em sites e jornais de extrema-direita do país.

Adamczak, de 38 anos, é autora de "Comunismo para Crianças", publicado nos EUA pela prestigiada MIT Press (editora do Instituto de Tecnologia de Massachusetts).

Com boas vendas - figura entre os mais vendidos na Amazon americana na categoria "Comunismo e socialismo" -, o livro explica o comunismo em ritmo de fábula infantil e em meio a "ilustrações de pequenas revolucionárias vivenciando seu despertar político", na definição da editora.

"Comunismo define a sociedade que se livra de todos os males que as pessoas sofrem hoje sob o capitalismo", abre o texto, que trata da doutrina elaborada por Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895), em uma história de princesas invejosas, camponesas desalojadas, patroas malvadas e trabalhadoras cansadas.

Embora a autora ressalte que o livro não é para crianças, mas dirigida a "todos que gostam de uma linguagem leve e simples", o livro entrou na mira de políticos e da mídia conservadora americana, que o descreveram como uma obra "que ensina comunismo a crianças".

O blog Economic Policy Journal, por exemplo, descreveu o trabalho como "o livro mais perigoso sobre economia escrito para crianças". O político republicano Garry R. Smith, deputado no Estado da Carolina do Sul, escreveu no Twitter que a publicação "transforma uma ideologia mortal em conto de fadas".

O site ultraconservador Breitbart News, que teve no comando o atual estrategista-chefe do governo Donald Trump, Stephen Bannon, partiu para o ataque à autora, questionando seu preparo para escrever sobre o tema, por ela nunca ter vivido em um país comunista.

"Fome, execuções e as outras maneiras que regimes comunistas encontraram para matar sua própria população são responsáveis por cerca de 94 milhões de mortes no século 20. "Mas, de acordo com Bini, o comunismo ainda não pode ser condenado", diz o texto do site direitista.

Publicações como "The American Conservative" e "The National Review", um dos principais jornais conservadores dos EUA, também repudiaram o texto, que, segundo seus críticos, ignora atrocidades cometidas por regimes comunistas.

Comunismo 'em desenvolvimento'

A autora alemã associa a onda de comentários negativos a dois fatores: o uso da palavra "crianças" no título e a publicação pela MIT Press, editora universitária de elite e com prestígio entre conservadores americanos.

"Mas a principal crítica é política, pois o comunismo continua sendo uma fonte de irritação", disse Adamczak à BBC Brasil. No original em alemão, de 2004, o título é Comunismo: uma pequena história de como tudo finalmente será diferente.

Adamczak conta que a ideia inicial para o título era a mesma da versão americana, mas a editora na Alemanha resolveu mudá-lo para evitar confusões, pois não se trata de uma obra necessariamente infantil.

"Ao escrever o livro, percebi que a linguagem acadêmica eliminava toda afetividade. Por isso, tive a ideia de escrevê-lo em linguagem infantil, que é mais simples e todo mundo entende", afirmou.

O livro apresenta o conceito de comunismo e sua relação com o capitalismo. Na primeira parte, a partir de exemplos simples, explica termos como mercado, trabalho, crise e capitalismo. Expõe o fracasso de tentativas históricas de aplicar o comunismo e problemas de regimes de governo fundados nessas doutrinas, motivados por autoritarismo estatal e aspectos econômicos.

Na segunda parte, mais teórica, Adamczak apresenta teorias marxistas e justifica a metodologia empregada no livro. Ao apresentar o comunismo como "remédio" para os males do capitalismo, ela conclui que o comunismo é uma utopia que precisa continuar sendo desenvolvida para se tornar realidade um dia.

Reprodução/flemingsbond
Livro de ensaísta alemã foi criticado por supostamente minimizar crimes cometidos por regimes comunistas como o de Josef Stalin na União Soviética

Herança autoritária

Adamczak é conhecida na Alemanha como voz crítica contra o comunismo autoritário. A ensaísta e artista visual estudou Sociologia e Filosofia na Universidade de Frankfurt e fez doutorado sobre gênero e revolução. Escreveu livros e artigos sobre a Revolução Russa e integra movimentos locais de esquerda.

"O stalinismo (período de 1924 a 1953 em que a União Soviética foi comandada pelo ditador Josef Stalin) prejudicou muito a possibilidade do futuro do comunismo. Essa herança do comunismo autoritário é um problema real para as pessoas que lutam por um mundo diferente", diz a autora, que no livro faz referência às vítimas de ditaduras comunistas.

Adamczak diz acreditar que muitos americanos possam ter se sentido agredidos pelo seu ativismo LGBT e por questionamentos que o livro faz ao capitalismo. Para ela, esse modelo econômico está muito associado a sentimentos nacionalistas nos EUA.

A polêmica levou a MIT Press a sair em defesa da publicação. Em texto no site da editora, intitulado "Post de blog para adultos", o editor Marc Lowenthal enumera respostas ao que considera equívocos em torno do livro.

"As pessoas têm absolutamente todo o direito de condenar o terror que foi imposto à humanidade em nome do comunismo. Mas é preciso um reconhecimento da hipocrisia envolvida numa defesa do capitalismo nos mesmos termos, que recusa a reconhecer o que esse sistema também trouxe: colonialismo, imperialismo, guerras sem fim e até o fascismo e o nacional-socialismo", escreveu".

Para Lowenthal, "Comunismo para Crianças" é um livro executado com "humor e charme", e que sintetiza conhecimento de modo acessível a um público mais amplo e não especializado.

"O propósito do livro é entender o que foi, o que é e o que poderia ser o comunismo, e qual modelo (sendo que houve vários comunismos através da história) seria o melhor ou se o comunismo precisa ser reinventado. Para isso, o livro oferece inicialmente uma explicação sobre capitalismo e como ele faz as pessoas sofrerem", afirma Lowenthal.

O livro ainda não tem versão em português, mas uma editora brasileira já manifestou interesse em publicá-lo. Como as conversas estão no início, a editora alemã preferiu não dar detalhes sobre a negociação.

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