A hegemonia anglo-americana no mundo está ameaçada?

  • Kevin Lamarque/Reuters

Sempre houve um conceito que permeou a boa relação entre Estados Unidos e Reino Unido: o de que a liderança global é sempre melhor exercida em inglês.

Mais orgulhosos do que os britânicos, os sucessivos presidentes americanos têm defendido o que chamam de "excepcionalismo americano".

Os primeiros-ministros, de uma forma mais discreta, também acreditaram no excepcionalismo britânico - a ideia de que Westminster é "a mãe do Parlamento" e que o Reino Unido é um modelo de governo e de valores liberais que se consolidou como um "padrão global" a ser seguido.

Na ordem anglo-americana pós-guerra, essas ideias se uniram. A Otan (aliança militar ocidental), o FMI e o Banco Mundial se uniram na Carta do Atlântico assinada por Franklin Delano Roosevelt e Winston Churchill em agosto de 1941.

O sistema de livre comércio que floresceu depois da guerra é muitas vezes chamado de modelo anglo-saxão. A arquitetura global, diplomática, mercantil e financeira, foi em grande parte uma construção de língua inglesa.

No entanto, nas últimas semanas, a ordem anglo-americana parece estar enfraquecida. O inesperado e confuso resultado da eleição britância - em que a premiê Theresa May tentou se fortalecer, mas acabou vendo seu Partido Conservador perder a maioria no Parlamento - faz com que ela pareça ainda mais frágil, com um edifício histórico que resta cambaleando após um forte terremoto.

Existe uma incerteza em Westminster agora, e um certo caos em Washington por causa das polêmicas envolvendo Donald Trump e as acusações de envolvimento de pessoas próximas a ele com a Rússia.

Nem o Reino Unido, nem os Estados Unidos atualmente estão podendo se gabar de terem "governos estáveis". Muito menos podem ser considerados "exemplos globais".

Nas seis semanas desde que Theresa May convocou as eleições, as placas tectónicas do mundo mudaram muito rápido, deixando britânicos e americanos à deriva.

Donald Trump, durante sua primeira viagem internacional, se recusou a endossar publicamento o Artigo 5 do tratado da Otan e repreendeu publicamente seus aliados sobre a partilha de encargos financeiros.

Ele se viu isolado na reunião do G7 (grupo de países mais ricos do mundo) na Sicília. Depois, na sua volta para Washington, anunciou que os Estados Unidos deixariam o Acordo de Paris - uma decisão com impacto enorme em todo o planeta e na geopolítica mundial.

Aqui, "América Primeiro" significou "América sozinha", e Trump parecia se divertir com seu "novo isolamento", como ele fez quando saiu do Acordo Transpacífico logo no início de sua Presidência.

Para o Reino Unido, o impacto diplomático do Brexit também tem ficado mais claro nas últimas semanas. Líderes da União Europeia já começaram a dizer o que eles querem para o acordo de saída do país do bloco - algo que parece que será mais conturbado do que apenas uma separação amigável.

Os 27 membros restantes da União Europeia também deixaram claro que têm a intenção de penalizar o Reino Unido. Quando Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, encontrou Theresa May logo depois de ela ter convocado as eleições, estava visivelmente frustrado.

"Saio daqui dez vezes mais cético do que eu estava antes", disse.

Um diplomata da União Europeia também afirmou: "O Reino Unido deu um tiro em um dos pés. Nós agora vamos atirar no outro."

A primeira-ministra britânica não conseguiu vencer as eleições com vantagem e enfraqueceu seu poder de barganha ainda mais.

Nas últimas semanas, não é só a relação do Reino Unido com a União Europeia que ficou mais tensa. A aliança transatlântica também foi colocada em xeque.

Aconteceram até mesmo questões bilaterais inimagináveis até então, como o interrompimento no compartilhamento de informações de inteligência entre Reino Unido e EUA - no caso, após o vazamento à imprensa americana de dados confidenciais das invesrtigações do atentado em Manchester.

Depois disso, passado o ataque de Londres, veio o comentário de Trump no Twitter em que chamou de "patética" a reação do prefeito da capital britânica, Sadiq Khan - algo também inédito na relação bilateral antes da eleição do presidente americano.

Theresa May não fez a dura reprimenda pública que se esperava ao episódio, talvez por medo de irritar Trump e comprometer um acordo comercial pós-Brexit com os Estados Unidos.

Talvez isso também explique por que ela não se juntou a Alemanha, França e Itália, que assinaram uma declaração conjunta criticando a decisão de Trump sobre deixar o acordo de Paris.

Mas, de novo, isso reforça a fraqueza britânica. A relação "especial" entre os dois países sempre foi assimétrica, mas agora parece estar ainda mais desequilibrada.

A aliança transatlântica terá que lidar eventualmente com um problema de longo prazo que irá além do governo de Trump. Uma das maiores utilidades do Reino Unido para Washington nas últimas décadas tem sido fazer a "ponte" entre o país e a União Europeia.

Foi por isso que o ex-presidente Barack Obama fez uma campanha tão forte pelo voto anti-Brexit no plebiscito do ano passado. Sob o governo dos próximos presidentes americanos, fica mais fácil imaginar agora uma aliança Alemanha-Estados Unidos superando a antiga relação com o Reino Unido.

Os vazios das lideranças globais são imediatamente preenchidos - e nós vimos isso acontecendo muito rapidamente nas últimas semanas. O Brexit deu força à União Europeia. A eleição de Emmanuel Macron reforçou a aliança França-Alemanha, dando a ela uma cara mais jovem e dinâmica.

A China também vê a chance de ampliar sua esfera de influência na UE, posicionando-se em questões ambientais como uma intermediária por acordos. Mesmo antes de Trump tomar posse, este parecia mais ser o século asiático do que uma repetição do século americano.

A Europa também ganhou um papel diferente. "Nós, europeus, precisamos cuidas nós mesmos do nosso destino", declarou a chanceler alemã Angela Merkel durante discurso depois da desastrosa reunião do G7.

Em uma fala claramente direcionada aos Estados Unidos e ao Reino Unido, ela também alertou que os dias em que a Alemanha poderia confiar completamente nos outros "acabaram até certo ponto".

Mais e mais, a chanceler alemã parece a líder do mundo livre, algo que seria impensável nos anos pós-guerra quando a ordem anglo-americana começou a tomar forma.

Winston Churchill, durante o discurso em 1946 em que cunhou o termo de "relação especial" para se referir ao elo EUA-Reino Unido, afirmou: "É necessário que a constância do pensamento, a persistência do propósito, e a grande simplicidade de decisão guiem a conduta do povo anglo-saxão no período de paz, assim como aconteceu no período de guerra. Nós devemos nos provar iguais nesta severa exigência".

Agora, tanto Estados Unidos quanto Reino Unido parecem fracassar no teste de Churchill. As duas nações anglo-saxônicas não falam mais tão alto, e o resto do mundo também não faz mais questão de escutá-las.

Uma nova ordem mundial parece estar surgindo e está sendo articulada em outras línguas.

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