Na Rússia, Temer busca ar de 'normalidade' em meio a crise no Brasil

Após sobreviver ao julgamento do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e à quase saída do PSDB de seu governo, o presidente Michel Temer aproveita o fôlego que conquistou para quebrar um jejum de cinco meses sem sair do Brasil, iniciando nesta terça uma viagem de quatro dias por Rússia e Noruega.

Desde 1992, ano do impeachment de Fernando Collor, um presidente brasileiro não ficava tanto tempo sem viajar para compromissos no exterior.

A agenda internacional, que estava sendo planejada há alguns meses e quase foi desmarcada após a divulgação da delação da JBS em maio, acabou confirmada apenas na semana passada.

Para analistas ouvidos pela BBC Brasil, a manutenção da viagem serve para tentar passar uma "imagem de normalidade", de que seu governo "segue funcionando".

O efeito prático, porém, tende a ser limitado, já que a expectativa é de que a qualquer momento o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, apresente uma denúncia contra Temer ao Supremo Tribunal Federal (STF), solicitando que o presidente seja julgado por supostos crimes de corrupção passiva e obstrução de Justiça.

As acusações devem se basear na delação de executivos da JBS, segundo a qual Temer teria dado aval para o grupo comprar o silêncio do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, atualmente preso em Curitiba. Além disso, o presidente também foi gravado em conversa com o empresário Joesley Batista indicando seu ex-assessor especial Rodrigo Rocha Loures como interlocutor de confiança. Depois, Loures foi gravado recebendo propina de R$ 500 mil em uma mala, em troca de interferência indevida no Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica,).

"Desde que começaram as denúncias, Temer tem se enfraquecido bastante domesticamente, e é comum, a muitos presidentes, perseguir uma agenda de política externa para reforçar a sua imagem domesticamente", nota Carlos Gustavo Poggio, coordenador do curso de Relações Internacionais da PUC-SP.

"Temer faz muito esses cálculos políticos. Para ele, ser visto com um líder importante como o Vladimir Putin (presidente russo) ajuda de alguma forma a passar uma imagem de normalidade", acrescenta.

A leitura é a mesma do cientista político Rafael Cortez, da consultoria Tendências, embora ele considere que os efeitos na prática sejam limitados.

"Ele busca passar uma certa normalidade, mas não creio que a viagem vai ser um fato relevante, diante da gravidade da crise política e de um certo já ceticismo da comunidade internacional em relação ao processo político no Brasil recente".

Na sua visão, a fraqueza interna de Temer, que desde que assumiu apresenta índices baixos de popularidade, acaba se refletindo na limitada agenda internacional.

"A explicação para esse baixo número de viagens tem a ver com a falta de legitimidade no plano doméstico. Acho importante notar que boa parte da reação mais cética em relação ao processo de impeachment (de Dilma Rousseff) foi externa", afirma.

Agenda

Temer chega a Moscou nesta manhã, acompanhado de uma comitiva 100% masculina de parlamentares e ministros, entre eles Aloysio Nunes (Relações Exteriores) e Marcos Pereira (Indústria).

Além de se reunir com Putin, durante dois dias terá compromissos com o primeiro-ministro Dmitry Medvedev e com os presidentes da Assembleia Federal da Rússia, Valentina Matvienko e Vyacheslav Volodin.

Ainda na terça, também participa de um encontro com investidores russos, cujo foco será atrair recursos para os setores de ferrovia e petróleo e gás, segundo o Itamaraty. À noite, sua agenda prevê uma visita ao Ballet Bolshoi.

A visita a Moscou servirá ainda para contornar um certo mal estar gerado na cúpula dos Brics da Índia, em outubro do ano passado, quando Putin se reuniu separadamente com líderes de todos os demais países do bloco (Índia, China e América do Sul), mas não realizou encontro individual com Temer.

"Em Moscou trataremos, ainda, de estruturar o diálogo político, tornando-o mais sistemático. Assinaremos plano de consultas bilaterais para o período 2018-2021. Consolidaremos, assim, nossa interlocução sobre questões que mobilizam russos e brasileiros nas Nações Unidas, no G-20 (grupo das maiores economias do mundo), no Brics e em outras instâncias internacionais", disse Temer em artigo no jornal o Estado de S.Paulo sobre a viagem.

Assim como para o Brasil, observa Poggio, a visita de Temer também tem valor simbólico importante para as autoridades russas, na medida em que o relacionamento com os Brics interessa ao país como contraponto ao protagonismo dos Estados Unidos no cenário global.

O professor de relações internacionais da FGV Oliver Stuenkel ressalta ainda o aumento do isolamento da Rússia após ter anexado em 2014 a Crimeia, até então território ucraniano.

"Vale lembrar que o Brasil não condenou a anexação (se absteve na votação de uma resolução da ONU). Gerou uma certa perplexidade, mas na época isso foi muito reconhecido dentro do governo russo. Sem os Brics, a Rússia teria caído num buraco diplomático muito maior", diz Stuenkel.

Noruega

Na quinta pela manhã, Temer segue para a Noruega - a visita ocorre justamente em um momento delicado para a principal agenda entre os dois países, a preservação ambiental, na medida em que lideranças ruralistas ganharam força no atual governo e têm pressionado pela flexibilização do licenciamento ambiental e a redução de áreas protegidas.

Cobrado por ambientalistas, Temer acabou vetando nesta segunda-feira trechos de medidas provisórias aprovadas recentemente no Congresso que reduziam significativamente reservas florestais no Pará. A expectativa, porém, é que um novo projeto de lei será encaminhado ao Congresso pelo Planalto com outras alterações.

A Noruega é o maior doador do Fundo Amazônia, para o qual já destinou cerca de R$ 2,8 bilhões, entre 2009 e 2016. Há duas semanas, a embaixadora da Noruega no Brasil, Aud Marit Wiig, adotou tom crítico pouco usual na diplomacia, em entrevista ao jornal Valor Econômico.

"A criação de áreas protegidas foi uma medida muito eficiente para manter a floresta. E quando se enfraquece esse instrumento, tememos que os resultados possam ser negativos", afirmou.

"Estamos preocupados. O serviço de redução de emissões de CO2 que o Brasil entrega é muito importante, não podemos desistir. O que vai acontecer, provavelmente, é uma redução no dinheiro (repassado ao Brasil)", disse ainda.

Na Noruega, Temer terá encontros com o rei Harald 5º, com a primeira-ministra Erna Solberg e com o presidente do Parlamento, Olemic Thommessen. O país também tem investimentos importantes no Brasil na área de petróleo e gás.

Perda de protagonismo externo

Conforme mostrou levantamento recente da BBC Brasil, Temer é o presidente que menos viajou ao exterior desde Itamar Franco (1992-1994) - foram sete países visitados em seu primeiro ano de governo.

Diante de uma forte crise doméstica, o presidente tem focado suas energias internamente. Com a continuidade desse cenário, os especialistas ouvidos pela BBC Brasil não veem perspectiva de retomada do protagonismo brasileiro no cenário externo - que já vinha encolhendo no governo de Dilma Rousseff - a partir de viagens pontuais de Temer.

Nos próximos meses, a previsão é que o presidente participe da cúpula do G20 em Hamburgo (Alemanha), da Assembleia Geral da ONU em Nova York (Estados Unidos) e do encontro anual do Brics (China).

Há ainda conversas em andamento com a Casa Branca na tentativa de marcar um encontro com o presidente americano, Donald Trump. Enquanto Temer ainda aguarda a confirmação para uma visita, o republicano já recebeu em Washington outros líderes sul-americanos, como os presidentes de Peru, Argentina e Colômbia.

A crise doméstica brasileira comprometeu o protagonismo do país mesmo regionalmente. Em pouco mais de um ano de governo, Temer visitou apenas dois países da América do Sul - Argentina e Paraguai. O Brasil tem tido também pouca relevância como interlocutor para negociações da crise venezuelana.

A chanceler alemã Angela Merkel, que mantinha encontros quase anuais com Dilma, ignorou o Brasil em recente passagem pela América Latina, para visitas a Argentina e México.

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