Por que a China barrou o Ursinho Pooh nas redes sociais

Stephen McDonell

  • Empics

    Quando Xi Jinping foi discursar do alto da limusine presidencial durante uma cerimônia militar, uma foto de Pooh em seu próprio "veículo" também se multiplicou nas redes sociais

    Quando Xi Jinping foi discursar do alto da limusine presidencial durante uma cerimônia militar, uma foto de Pooh em seu próprio "veículo" também se multiplicou nas redes sociais

A notícia de que a China proibiu o uso de imagem do ursinho Pooh pode parecer bizarra à primeira vista, mas a decisão faz parte de uma operação para evitar que bloggers mais espertos "driblem" a censura que vigora no país.

O personagem da Disney vinha sendo usado em memes para ironizar ninguém menos que o presidente Xi Jinping - aparentemente, o porte físico do líder se assemelha ao do urso. Algo evidenciado em uma foto de Jinping andando ao lado do ex-presidente dos EUA, Barack Obama, em 2013 (Obama virou o Tigrão).

Jinping também foi comparado com Pooh após um encontro com o premiê japonês, Shinzo Abe, marcado por um estranho aperto de mão.

Montagens dos dois circularam na internet - Abe, por sinal, foi "representado" pelo burrinho Bisonho.

Em outra ocasião, quando Jinping foi discursar do alto da limusine presidencial durante uma cerimônia militar, uma foto de Pooh em seu próprio "veículo" também se multiplicou nas redes sociais.

Além de censurar as brincadeiras com o líder, as autoridades chinesas não querem que um personagem infantil seja associado à imagem de Xi Jinping.

Se em outros países é permitido zombar do presidente, na China a história é diferente. A figura do líder é tratada com imensa seriedade.

E a ironia dos blogueiros ativistas da China por vezes é bem refinada: um exemplo é o uso de um bordão do ex-presidente Hu Jintao, que falava em "promover uma sociedade harmoniosa" no país. 

Weibo/AFP
Montagem com Xi Jinping e Barack Obama começou a circular em 2013

Blogueiros logo apelidaram a censura de "harmonização", palavra que em chinês pode soar como "caranguejo". Ou seja, se a imagem de um crustáceo aparecer na internet chinesa, pode ser uma referência a algo ter sido censurado.

Não é muito fácil, contudo, driblar os censores.

Eles conseguiram basicamente apagar do público em geral a existência do ativista Liu Xiaobo - ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 2010, e que morreu semana passada sob custódia, após quase nove anos de prisão.

A maioria dos chineses simplesmente jamais ouviu falar dele, sobrevivente do Massacre da Praça da Paz Celestial, em 1989.

O aplicativo de mensagens instantâneas Wechat, o mais popular da China, sofre o peso dessa censura, por exemplo.

Se você enviar para alguém uma mensagem usando o nome de Liu Xiaobo, no seu aparelho ela vai constar como enviada, mas o destinatário jamais vai recebê-la.

O acrônimo RIP (para descanse em paz, em inglês) também foi bloqueado no Weibo, o equivalente chinês ao Facebook.

As autoridades chinesas conseguem ainda filtrar certas palavras ou frases para "derrubar" discussões ou tópicos.

Apesar de o Wechat ser uma companhia privada, mesmo os gigantes de tecnologia da China precisam obedecer ao regime.

Curiosamente, não é a primeira vez que o ursinho Pooh se vê em maus lençóis na China.

Mas com a proximidade do congresso quinquenal do Partido Comunista, os censores estão atentos. Isso porque o evento marcará também o início do segundo mandato de Jinping.

Em meio a um clima tenso no partido por causa da política de baixa tolerância do presidente com a corrupção, qualquer desafio à autoridade do líder, por menor que seja, não deverá ter espaço.

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