Como um pai resgatou suas filhas do Estado Islâmico

Steven Rosenberg

Da BBC News no Daguestão

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    Magomedov foi à Síria atrás de suas filhas, que tinham sido levadas por sua mulher após ela se converter ao extremismo

    Magomedov foi à Síria atrás de suas filhas, que tinham sido levadas por sua mulher após ela se converter ao extremismo

Sem ele saber, sua mulher tinha levado suas filhas - Fatima, então com 10 anos, e Maizarat, de 3 - para a Turquia, onde cruzaram a fronteira com a Síria para se unir ao grupo extremista autodenominado "Estado Islâmico".

"Os dois pareciam estar contentes, mas disse a eles: 'Isso vai terminar em lágrimas'. Que direito ela tinha de levar minhas filhas para longe sem minha permissão?"

Uma das repúblicas mais pobres da Federação Russa, o Daguestão havia se tornado um campo fértil de recrutamento dos extremistas. Segundo autoridades locais, 1,2 mil cidadãos já foram lutar em território sírio.

Entre eles, estava a mulher de Artur, que havia passado a seguir uma versão radical do Islã e via o califado que o EI declarava ter criado no norte da Síria e do Iraque como uma terra prometida. Ele decidiu então resgatar suas filhas.

A longa viagem ao território do EI

Artur pegou dinheiro emprestado e foi para a capital turca, Istambul, onde um guia o esperava para ajudá-lo a cruzar clandestinamente a fronteira com a Síria.

"Dirigimos até Gaziantep, no sul da Turquia. Uma família chechena e três outras pessoas viajam comigo. Trocamos de carro cinco vezes antes de chegar à fronteira. Há toda uma máfia em torno desse esquema de transporte", conta ele.

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Uma das repúblicas mais pobres da Rússia, o Daguestão é um campo fértil de recrutamento para extremistas

"Para cruzar, você precisa correr por 200 metros e fazer isso rápido, carregando suas malas, antes que os guardas comecem a atirar. Enquanto corria, meu coração batia muito forte. Quando cheguei ao território do Estado Islâmico, homens armados estavam me esperando em uma caminhonete. Eles nos levaram para um centro de recepção em Jarablus."

A essa altura, Artur já sabia onde sua família estava vivendo. Ele havia recebido a informação por uma mensagem de texto enviada pelo marido da irmã de sua mulher, que também havia ido para a Síria.

"Ele escreveu o seguinte: 'Sou um homem justo, e você tem sido tratado injustamente. Por isso, estou entrando em contato."

A mulher de Artur e suas filhas estariam em Tabqa.

"As crianças estavam muito felizes de me encontrar. Fatima vestia roupas prestas e vestia um hijab. Maizarat ainda era muito nova, então, usava o mesmo tipo de roupa de quando estava no Daguestão", afirma.

"Minha mulher não estava lá quando cheguei, mas logo veio correndo ao saber que eu tinha aparecido. Ela sabia que estava encrencada."

Fuga perigosa

Um tribunal islâmico deu a guarda das meninas a Artur, mas o proibiu de deixar o califado. Para voltar para casa, ele e suas filhas teriam de fugir.

Uma noite, pegaram uma carona até a fronteira com a Turquia. "Nós nos esgueiramos pela linha do trem até chegar a 70 metros da fronteira. Peguei a mais nova no colo e disse para a mais velha: 'Corra!'"

"Conforme corríamos, minhas calças e o vestido de Fatima rasgaram ao ficarem presos em arame farpado. Maizarat começou a chorar. Eu tinha acabado de cruzar a fronteira quando tropecei e caí em uma armadilha para tanques. Caí três vezes. Não sei como tive forças para seguir em frente", se recorda Artur.

"Os guardas estavam a apenas 50 metros de distância e começaram a atirar. Nós mergulhamos em uma vala usada para irrigação e ficamos ali escondidos por 20 minutos enquanto balas passavam voando por cima de nossas cabeças. De lá, saímos andando por um mato alto até eu me dar conta que tínhamos conseguido. Podia ver a lua e os milharais. Parecia um paraíso."

Artur e suas filhas voltaram a Istambul, onde o consulado russo os ajudou a voltar para casa. Mas e sua mulher?

"Não sei onde ela está. Não mantemos contato. Ela fez sua escolha e agora tem de conviver com isso."

A mãe de Artur conta que outras pessoas de seu vilarejo já foram embora rumo ao califado: "Há quatro ou cinco mulheres que foram para a Síria e se arrependeram disso. Às vezes falo com seus pais, que me contaram que a vida por lá não é boa".

O que está por trás do êxodo para a Síria?

No Daguestão, a situação não é fácil também. A taxa de desemprego é alta, e os salários, baixos. Isso facilita o recrutamento de pessoas para causas extremistas.

Marat é um cidadão do Daguestão que fugiu do EI e agora está escondido. Ele conta que passou por uma lavagem cerebral conduzida por um recrutador pela internet. Chegou ao ponto de abandonar sua mulher ainda grávida para ir para a Síria.

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'Protegeremos o nosso planeta do terror - Não ao terrorismo', diz a mensagem no Daguestão

"O recrutador postava vários vídeos que afirmavam que os sírios estavam sendo perseguidos e mortos e diziam: 'Por que vocês, muçulmanos, estão sentados em casa? Venham ajudar!'. Então, decidi ir para lá", diz Marat.

"Minha mulher era contra. Então não fui totalmente honesto. Disse a ela que ficaria só por um mês ou algo assim. Quando estava na Síria, liguei e disse que não voltaria. Ela começou a chorar, ficou histérica. Hoje, vejo que foi um erro. Sei que não há uma guerra santa em curso por lá, são apenas um monte de muçulmanos lutando uns contra os outros."

'Feche a mesquita, e os jovens vão embora'

Alguns cidadãos do Daguestão afirmam que, a fim de combater o terrorismo localmente, autoridades têm levado as pessoas a ir para o exterior.

Shamsutdin Magomedov é da cidade de Shamkhal e conta que a mesquita local onde ele costumava rezar foi recentemente fechada pela polícia. Ele admite que "cinco ou seis pessoas da mesquita" viajaram para a Síria, mas argumenta que fechar locais assim não é uma solução.

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Fechamento de mesquistas no Daguestão tem sido criticado

"Quando os jovens estão aqui, podemos ficar de olho neles. Mas, se você fecha a mesquita, os jovens vão embora. Quem sabe para onde? E o que farão?", questiona.

De volta ao quintal da casa de Artur Magomedov, a pequena Maizarat está sentada na varanda.

Questionado sobre como suas filhas foram afetadas pelo que passaram, Artur conta que Maizarat perguntou por que todos tinham uma mãe, mas ela não.

"Sei que as crianças ainda mantêm contato com a mãe pelas redes sociais. Disse para não se comunicarem com ela, mas não vou impedi-las. Afinal, ela é a mãe das meninas. E elas sentem saudades."

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