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Por que muitos prédios resistiram de pé ao terremoto no México, mas outros não

21/09/2017 16h12

É um fenômeno que se repete a cada abalo sísmico: em algumas áreas da Cidade do México, o mesmo tremor é sentido de forma distinta, mesmo de uma rua muito próxima a outra.

Assim, em decorrência de terremotos como o de 7,1 de magnitude que atingiu na terça a capital mexicana, há edifícios que desabam e outros ficam de pé, embora se encontrem a poucos metros um do outro. É o que aconteceu, por exemplo, nos bairros Roma e Condesa, entre os mais atingidos pelos tremores.

Mas por quê? Uma das razões é que a variação dos terrenos em cada parte da Cidade do México.

Grande parte do centro da cidade se encontra sobre antigos lagos, fazendo com que solo seja menos firme.

Um mapa das zonas sísmicas, do Instituto de Geofísica da Universidade Nacional Autonôma do México (Unam), revela que na capital do país existem três tipos de solo que reagem de maneira distinta diante dos tremores.

O mais firme se encontra em regiões montanhosas, ao redor da cidade, onde os tremores são praticamente imperceptíveis. Um outro é o chamado de "transição", onde o impacto dos abalos sísmicos é um pouco maior. Por fim, há o terceiro tipo, chamado de "solo brando", onde as ondas são sentidas com mais força e por mais tempo.

É no último tipo de solo que se encontra a zona central da Cidade do México, que inclui os bairros de Roma e Condesa. Quando há terremoto, essas áreas são mais vulneráveis a sacudir como se fosse gelatina e a sofrer tremores por mais tempo. Os prédios tendem, assim, a balançar mais.

"Os materiais mais leves amplificam o movimento do solo", disse Susanne Sergeant, sismóloga da organização responsável pela Encosta Geológica Britânica. Ela diz, porém, que é "difícil saber no momento se um edifício se danificou por causa de sua arquitetura ou devido à variação geológica".

Até porque o impacto dos abalos sísmicos diverge conforme o estado de manutenção dos edifícios.

Regras de construção após 1985

O forte terremoto de 1985 no México causou 10 mil mortes, arrasou 30 mil edifícios e feriu 68 mil pessoas. Um ano depois, entrou em vigor uma nova lei que exigia que construtoras e arquitetos levassem em conta o estado precário dos terrenos em algumas localidades da cidade e que as autoridades supervisionassem e inspecionassem todo o procedimento de construção.

O engenheiro Christian Malaga-Chuquitaype, do Imperial College London, no Reino Unido, disse à BBC que a população do México, como em grande parte da América Latina, tende a construir suas próprias casas ou a tocar pessoalmente as reformas, derrubando muros ou instalando janelas que mudam as características iniciais do prédio. E que fazem isso sem respeitar o regulamento que baseou a construção dos imóveis.

O inventário de imóveis da capital mexicana é atualizado com pouca frequência, e muitas construções são anteriores a 1985. "Os edifícios precisam ser inspecionados, as plantas devem ser devidamente inspecionadas", disse o engenheiro.

Nos últimos anos, muitos edifícios novos foram construídos, mas, segundo as autoridades, não obtiveram as permissões necessárias para sua edificação. Por isso, os andares de alguns prédios de luxo foram derrubados por não cumprir as normas. O governo do México reconheceu a inspeção foi deficiente nesses casos.

Nos últimos anos, muitos edifícios novos foram construídos, mas, segundo as autoridades, eles não obtiveram as permissões necessárias para sua edificação. Por isso, os andares de alguns prédios foram derrubados por não cumprir as normas. O governo do México reconheceu que a inspeção foi deficiente nestes casos.

Em 2015, durante uma solenidade pelo aniversário do terremoto de 1985, o engenheiro Roberto Meli, da Unam, advertiu que o regulamento estava sendo ignorado com excessiva frequência e pediu normas mais rígidas.

À prova de terremotos

O objetivo da engenharia especializada em terremotos é fazer com que a força sísmica sacuda de cima a baixo as estruturas internas do edifício. Isso pode ser alcançado com a construção de muros estruturantes em vez de colunas, segundo Málaga-Chuquitaype.

"Se um edifício tem mais muros estruturantes, será mais rígido", disse. Também existe a opção de estender a cimentação do prédio a uma profundidade maior, mas isso pode não ser factível ou viável economicamente.

A rigidez é menos necessária para edifícios mais altos, construídos para resistir a ventos fortes. A Torre Reforma, de 57 andares e situada no centro da cidade, por exemplo, é triangular e reconhecida por suas paredes, que podem dobrar sem se romper.

No terremoto de 1985, dois arranha-céus permaneceram de pé: a Torre Latinoamericana, de 44 andares, e a Torre Executiva Pemex, de 54.