O voluntário que resgatou centenas de vítimas dos dois terremotos mais fortes da história recente do México

Alberto Nájar - BBC Mundo, Cidade do México

  • Alberto Nájar/BBC

    Javier Serrano Olivera diz ter renascido depois de ser resgatado dos escombros após tremor da última terça-feira

    Javier Serrano Olivera diz ter renascido depois de ser resgatado dos escombros após tremor da última terça-feira

Debaixo dos escombros, no pequeno túnel que cavava para buscar pessoas soterradas, o mexicano Javier Serrano Olivera escutou um forte barulho.

Eram golpes de marreta que ouvia e sentia por cima da montanha de terra e de pedaços de concreto que se tornou uma fábrica de tecido de quatro andares.

Horas antes, um terremoto de magnitude 7,1 havia sacudido a Cidade do México e provocado a maior tragédia na capital do país em 32 anos.

"Alguém gritava desesperado: "Não deem marretadas!, com uma voz de que nunca vou esquecer. E então a viga caiu. Depois disso, silêncio total. Já não escutei mais ninguém gritando", relembra ele à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC.

Era noite da última terça-feira (19), Olivera quis voltar à superfície, mas o túnel estava bloqueado. A bateria de sua lanterna acabou. E, na escuridão, tentou buscar outra saída.

"Comecei a cavar e cavar por onde podia, mas o oxigênio estava acabando. Fiquei sufocado", diz.

"Vi a luz de uma lanterna e gritei: me tirem daqui!", acrescenta.

Em seguida, vieram médicos e enfermeiras de um hospital da região central da cidade, para onde acabou levado após ser resgatado.

Pura coincidência. Em 19 de setembro de 1985, Olivera perdeu alguns dentes quando tropeçou enquanto resgatava corpos de um restaurante atingido pelo terremoto que ocorreu naquele dia.

E agora, exatamente 32 anos depois, quase perdeu a vida quando decidiu retirar dos escombros os sobreviventes de um novo tremor devastador.

BBC/Alberto Nájar
Dezenas de pessoas morreram após desmoronamento de fábrica têxtil

Dois terremotos

Javier Serrano Olivera é um dos mexicanos que resgataram pessoas nos dois terremotos mais intensos da história recente do país.

E, em ambos os casos, a tragédia ocorreu perto de sua casa, no centro da Cidade do México.

No primeiro terremoto, em 1985, Javier fazia os preparativos para uma festa de família, quando, às 7h19 (hora local), o sismo derrubou milhares de casas e edifícios.

O bairro dele, no centro da capital, foi um dos mais afetados.

No local, havia o popular restaurante Súper Leche, que naquela hora da manhã costumava estar cheio.

O terremoto surpreendeu os clientes. Muitos não puderam evacuar o restaurante e ficaram debaixo dos escombros.

Olivera e alguns vizinhos chegaram minutos depois do terremoto e começaram a cavar com picaretas e pás. Mas não encontraram sobreviventes.

"Houve um incêndio e a fumaça asfixiou todos os que estavam soterrados", recorda.

Outros morreram quando desciam as escadas, e alguns foram surpreendidos ainda em seus quartos, pois, acima do restaurante, havia apartamentos e escritórios.

"Quando me enfiei ali (nos escombros), não encontrei ninguém vivo. Só mortos. Mas retiramos todos de lá", acrescenta.

O socorrista civil, como prefere ser chamado, já resgatou muitas pessoas.

"Não me lembro de quantos, mas eram muitos. Alguns foram levados para uma vala comum", diz.

O número de vítimas no restaurante não é conhecido, mas ali trabalhavam cerca de 100 funcionários, que atendiam mais de 1.000 clientes todas as manhãs.

Resgate

No mesmo 19 de setembro, mas 32 anos depois, Olivera se preparava para almoçar em sua casa, a alguns passos do complexo que abrigava três fabricantes de roupas.

Duas horas antes, ele havia participado de uma simulação realizada em todo o país anualmente, desde o terremoto de 1985.

Com calor, voltou à sua casa e começou a beber uma cerveja. "Coloquei o copo sobre a mesa e ele começou a se mover. A primeira coisa que pensei foi: "O que aconteceu? Mas eu só tomei uma cerveja!".

Mas não era o efeito do álcool. A terra se sacudia naquele momento.

Segundo estatísticas da Secretaria de Educação Pública do México, um total de 5.092 escolas sofreu danos durante os dois terremotos que atingiram o país nos últimos dias 8 e 19.

Sem pensar duas vezes, Olivera saiu de casa e entrou na escola primária Simón Bolívar, ao lado da fábrica de roupas.

Ali, ele ajudou a evacuar as crianças.

Em seguida, rumou ao edifício que, naquele momento, já havia se reduzido a escombros.

Ali começou a se meter por dentro de buracos e a cavar um túnel para resgatar os sobreviventes.

Por quatro vezes, fez as incursões, sem sucesso. Só conseguia escutar gritos dos que pediam ajuda.

Durante a última tentativa, ficou preso. "Os pedaços de tecido amorteceram a queda da viga. Se não fosse por isso, estaria no céu".

'Viver ou morrer'

Depois do terremoto de 1985, Olivera passou a fazer parte do coletivo Topos Azteca, que apoia o resgate de soterrados durante catástrofes naturais em diferentes países do mundo.

A experiência como voluntário, no entanto, não eliminou por completo os riscos durante a operação.

Quando ficou preso debaixo dos destroços e praticamente sem oxigênio, Olivera perdeu as esperanças.

"Não estava desesperado, já havia perdido as minhas esperanças", conta.

"É preciso ter disciplina para viver ou morrer; essa é a verdade", conclui.

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