Como Donald Trump mudou de opinião sobre o controle de armas ao longo dos anos

Anthony Zurcher - BBC

  • Kevin Lamarque/ Reuters

A chave para interpretar as declarações de Donald Trump a respeito da regulamentação de armas de fogo e a forma como podem orientar a resposta do presidente americano ao tiroteio em massa de Las Vegas é checar em que momento elas foram dadas.

Assim como ocorreu com várias outras de suas opiniões políticas, a visão de Trump sobre controle de armas se tornou mais conservadora ao longo dos anos.

Em 1990 e no início dos anos 2000, o então empresário expressou apoio ao banimento das chamadas armas de assalto - rifles longos com características militares que efetuam vários disparos em pouco tempo.

"Em termos gerais, me oponho ao controle de armas, mas defendo o banimento das armas de assalto e também defendo um período ligeiramente mais longo de espera para a compra de uma arma", escreveu ele em seu livro, "A América que Merecemos", publicado em 2000.

Em 2012, Trump elogiou o apelo do democrata Barack Obama, seu antecessor na Casa Branca, por maior controle de armas, após o tiroteio em uma escola de Newtown, Connecticut, que deixou 26 mortos, entre os quais 20 crianças.

Em busca do apoio do Partido Republicano

À medida que Trump passou a considerar mais seriamente se candidatar à presidência dos Estados Unidos, suas visões sobre controle de armas começaram a mudar.

Quando anunciou que entraria na disputa pela Casa Branca, em 2015, ele já havia se alinhado à posição majoritária do partido Republicano, que considera boa parte das propostas de regulação como uma violação da 2ª Emenda da Constituição do país, segundo a qual:

"Sendo necessária à segurança de um Estado livre a existência de uma milícia bem organizada, o direito do povo de possuir e usar armas não poderá ser infringido."

Foi a forma que Trump encontrou de consolidar sua identidade conservadora e provar que não era o liberal de cidade metropolitana que, por vezes, aparentou ser.

Num debate republicano de outubro de 2015, por exemplo, ele declarou que anda "bastante" com armas de punho e considerou que as ordens do governo de criar zonas livres de armas, como escolas, igrejas e bases militares, eram uma "catástrofe".

Trump também passou a dizer com frequência que a resposta para os tiroteios em massa era ter mais cidadãos armados ? argumentando que o número de mortos nos ataques de Paris e San Bernardino teria sido menor se armas tivessem sido disparados de "ambos os lados", na direção das vítimas e dos agressores.

Apoio à Associação Nacional de Rifles

Em maio de 2016, Trump garantiu que apoiaria a Associação Nacional de Rifles- principal lobby pró-armas dos EUA.

A garantia foi dada num momento em que alguns republicanos ainda estavam desconfortáveis com o fato de o nova-iorquino ser o pré-candidato do partido para a eleição presidencial.

"Agora é momento de nos unirmos", disse, na ocasião, o diretor-executivo da associação, Chris Cox. "Se o seu candidato favorito saiu da disputa, é hora de superar isso."

A partir daí, Trump ecoou amplamente, em suas declarações e no site de sua campanha, as posições da Associação Nacional de Rifles sobre questões relacionadas a armas de fogo. O grupo acabou gastando mais de US$ 30 milhões (cerca de R$ 100 milhões) em apoio à campanha presidencial do republicano.

Durante a disputa eleitoral, Trump acusou a candidata democrata Hillary Clinton de favorecer um rigoroso controle de armas e afirmou que ele era o candidato que protegeria os direitos dos 55 milhões de norte-americanos que atualmente possuem armas.

Houve um momento durante a campanha do ano passado, porém, em que Trump aparentemente contrariou a posição da Associação Nacional de Rifles.

Após o tiroteio em uma boate de Orlando, em junho, ele defendeu limitar o controle de armas por motivo de segurança nacional.

"Eu vou me reunir com a Associação Nacional de Rifles, que me apoiou (na campanha presidencial), para não permitir que pessoas na lista de possíveis terroristas ou na lista de pessoas impedidas de voar em avião comercial comprem armas", disse ele no Twitter.

Mas a reunião não teve resultados práticos.

"Se Hillary tivesse sido eleita..."

A única ação significativa de Trump, como presidente dos EUA, em relação ao tema da venda de armamento foi assinar uma lei revertendo limitações impostas no governo Obama à compra de armas por pessoas com doenças mentais.

Durante visita ao Estado do Alabama, ele relembrou antigos ataques a Hillary Clinton, advertindo que as pessoas estariam "entregando seus rifles" caso ela tivesse sido eleita.

O Congresso dos EUA está atualmente analisando uma proposta que facilitaria aos americanos comprar silenciadores para suas armas de fogo - a proposta foi criticada por Hillary Clinton, em tuíte após o ataque ocorrido em Las Vegas.

O presidente, até o momento, não fez comentários públicos sobre a proposta de lei, cuja aprovação pelos deputados era esperada, mas que tem poucas chances de passar pelo Senado.

Se a proposta se tornar o centro da controvérsia pós-ataque em Las Vegas, porém, pode ser tornar difícil para a Casa Branca se manter afastada da discussão.

Tempo de recuperação

Enquanto isso, Trump tem agora a tarefa inevitável de tentar fazer o país se recuperar do "tiroteio em massa mais letal da história moderna dos EUA" e de apresentar sua proposta- se tiver alguma- para evitar futuras tragédias.

A vez de George W. Bush veio em abril de 2007, quando uma nação chocada chorou a morte de 32 pessoas no campus da Universidade Virgínia Tech.

Já Barack Obama teve que enfrentar a questão das armas em junho de 2016, após um ataque na boate Pulse, em Orlando, deixar 49 mortos.

"Esse massacre é.... mais um alerta de como é fácil para alguém ter acesso a uma arma que lhe permite atirar em pessoas em uma escola, um local de culto, um cinema ou uma boate", disse ele, após o ataque em Orlando.

"E nós temos que decidir se é esse o tipo de país onde queremos estar. Ativamente não fazer nada é uma decisão também", acrescentou.

Qual a melhor resposta?

Em suas declarações pela manhã, Trump argumentou que, na busca por um "sentido em meio ao caos", respostas não vêm facilmente.

Nos próximos dias e semanas, muitas sugestões de como responder ao derramamento de sangue em Las Vegas serão oferecidas. Elas já estão sendo propostas por apoiadores e críticos do presidente.

Várias serão ideias de projetos- muitas vezes contraditórios- que Trump em um momento ou outro já defendeu.

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