Os três Estados americanos que passaram incólumes à onda de tiroteios em massa

Fernando Duarte - Da BBC Brasil em Londres

  • Scott Smith/AP

    Apesar de legislação mais rigorosa, Califórnia tem maior número de tiroteios em massa

    Apesar de legislação mais rigorosa, Califórnia tem maior número de tiroteios em massa

As estatísticas sobre tiroteios em massa nos Estados Unidos não chamam a atenção apenas pela ocorrência quase corriqueira de incidentes do tipo. Exceções também saltam aos olhos, até porque não existe consenso para explicar por que três dos 50 Estados da União não registram atrocidades deste tipo.

Segundo um levantamento da Universidade Stanford, que leva em conta dados desde 1966, Dakota do Norte, New Hampshire e Rhode Island são as únicas unidades da federação em que não houve os chamados mass shootings (uma classificação que leva em conta incidentes que não estão relacionados ao crime organizado e em que pelo menos quatro pessoas são mortas ou feridas).

E outras três (Wyoming, Virgínia Ocidental e Havaí) formam um seleto grupo que, no ano de 2015, o último para qual há estatísticas completas, escapou de um festival de incidentes pelo país: 2.533 ocorrências em 220 cidades, com 462 mortes.

O levantamento usa 1966 como "ano zero" porque ele marca o início da era dos tiroteios deste tipo nos EUA - em agosto, o estudante universitário e ex-militar Charles Whitman matou 15 pessoas e feriu 30 a tiros disparados do alto da torre do relógio do campus da Universidade do Texas em Austin.

Passados 51 anos, tiroteios em massa se tornaram cada vez mais frequentes em um país cuja Constituição garante o porte de armas e dá aos Estados liberdade de relaxar ou controlar seu uso. 

Diante disso, pode parecer lógico pensar que Dakota do Norte e New Hampshire, onde incidentes do tipo não foram registrados, têm legilações rígidas.

Chris Wattie/ Reuters
Tiroteios em massa como de Las Vegas têm aumentado de frequência nos EUA
Mas pelo contrário: segundo dados da ONG Brady Campaign, fundada pela família de Jim Brady (secretário de Imprensa da Casa Branca que ficou paralítico em 1981, ao ser baleado em um atentado em Washington contra o então presidente Ronald Reagan), essas unidades da Federação estão entre as mais liberais no que diz respeito à venda e ao porte de armas de fogo.

O que explica, então, essa exceção a essa triste regra?

Para acadêmicos, a resposta é demográfica: esses Estados são alguns dos menos povoados do país e, consequentemente, têm menos densidade populacional. A Dakota do Norte, por exemplo, tem cerca de 673 mil habitantes em uma área maior que a de quase metade dos países do mundo - a Coreia do Norte por exemplo, tem menos espaço para sua população de mais de 25 milhões de pessoas.

Esses Estados também são marcados por uma vida mais rural e, de acordo com o mais recente censo americano, apresentam população no campo superior à média americana, de 28,8% - em New Hampshire, por exemplo, o índice é esmagadoramente maior (60,3%).

"Tiroteios em escolas e locais de trabalho também ocorrem em áreas rurais, mas pessoas nesses Estados americanos têm menor probabilidade de serem vítimas de um tiroteio em massa", afirma, em um dos mais citados estudos sobre o assunto, o criminologista Adam Lankford, da Universidade do Alabama.

O argumento de Lankford é reforçado com uma olhadela em um mapa de incidentes: a Califórnia, o Estado mais populoso dos EUA (39 milhões de pessoas), teve 33 tiroteios em massa desde 1966. Texas e Flórida, segundo e terceiro, tiveram 19 e 23 incidentes, respectivamente.

No entanto, isso nem sempre é "automático": apesar de ter apenas a 48º maior população entre os 50 Estados, o Alasca tem a maior taxa de mortes por armas de fogo dos EUA (23,4 por 100 mil pessoas em 2015). E, em 1997, foi palco de um tiroteio em uma escola secundária, em que duas pessoas morreram e quatro ficaram feridas.

Nesse caso, outra variável interessante entra em cena: a abundância de armas de fogo entre a população. Diversos acadêmicos apontam para um estudo conjunto das universidades de Boston e Colúmbia, publicado há dois anos, em que se estima que a posse de armas no gelado Estado americano passa de 61%, ao passo que, em Rhode Island, o índice fica abaixo de 6%.

Mas isso não ajuda a explicar como a Califórnia lidera as estatísticas de tiroteios em massa, já que apenas 20% de seus habitantes possuem armas. Ou como um índice de propriedade de quase 50% não teve impacto sobre a Dakota do Norte.

Lankford acredita que se trate apenas do acaso.

"Houve sorte, e não algum resultado de políticas públicas como o controle de armas, por exemplo."

Essa anomalia apresentada pelos três Estados faz parte da própria dificuldade de explicar por que os tiroteios em massa acontecem, para começo de conversa. Mesmo com o aumento de ocorrências, esses incidentes ainda são tão infrequentes em termos estatísticos que previnem a criação de algoritmos confiáveis para as autoridades.

"Ninguém vai poder dizer com certeza a razão pela qual não tivemos tiroteios em massa, mas precisamos justamente evitar pensarmos demais sobre isso. O foco tem que ser no trabalho pela segurança da comunidade, especialmente em campanhas educativas", explicou Joel Vettel, investigador-chefe da polícia de Fargo, a maior cidade de Dakota do Norte, em uma recente entrevista.

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