Da escola ao 1º emprego: como buscar um caminho profissional sem ter (ao menos ainda) um diploma universitário

Ana Luiza Daltro - De São Paulo para a BBC Brasil

O trimestre de maio a julho deste ano foi encerrado com um índice de desemprego na casa de 12,8%. O percentual assusta, mas é menor do que os 13,7% apurados no fim do período imediatamente anterior. Os dados mostram um quadro preocupante, mas que sugere que o pior da crise pode já ter ficado para trás.

Só que a situação dos trabalhadores entre 18 e 24 anos é mais complicada do que a da média. Segundo a mesma pesquisa do IBGE, nada menos do que 28,8% dos jovens nessa faixa etária estavam desocupados ao fim do primeiro trimestre de 2017. Esse percentual recorde equivale a 4,503 milhões de pessoas.

Os trabalhadores mais novos sempre sofrem mais com as crises e o desemprego decorrente. Por um lado, eles representam custos menores (e menos produtividade perdida) para as empresas na hora da demissão. De outro, a menor experiência no mercado dificulta a busca por oportunidades.

Mas é fato também que os empregos que exigem menor qualificação costumam ser os primeiros a surgirem em maior número nas retomadas. Dados do Ministério do Trabalho apontam que, das 1,24 milhão de contratações feitas no último mês de maio, quase metade foram de trabalhadores com até 29 anos.

Os maiores destaques na geração de empregos formais para os jovens foram os setores de serviços, com 21,8 mil vagas; a indústria da transformação, com 12,6 mil postos, e o comércio, com 11,8 mil. Concentrar a procura por vagas nesses segmentos é uma boa ideia para os jovens que buscam uma recolocação ou mesmo entrar no mercado de trabalho. Mas não só.

Portas de entrada

Programas de capacitação profissional são uma maneira de melhorar as próprias qualificações e, de quebra, conseguir o tão sonhado primeiro emprego. E muitos deles não apenas são gratuitos como fornecem vários tipos de auxílio. Um exemplo é o Instituto Formare, que qualifica jovens carentes para o mercado de trabalho por meio de parcerias com empresas.

"O nosso jovem-alvo é aquele que possui indicadores sociais desfavoráveis, mas também muita vontade de crescer. Um jovem para quem ninguém estendeu a mão ainda", resume Claudio Anjos, diretor institucional do Instituto Formare. Por indicadores sociais desfavoráveis entenda-se, neste caso específico, uma renda familiar que não ultrapasse um salário mínimo por pessoa.

Cerca de 80% dos jovens assistidos pelo programa em um dos seus 170 cursos lançados até agora conseguem vagas formais de emprego nos primeiros três meses após a formatura, a maioria nas próprias empresas em que foram treinados. Não é incomum que haja listas de mil jovens em busca das 20 vagas em média de um curso.

O primeiro funil é uma prova básica de português e matemática. Depois, entrevistas e dinâmicas de grupo em que o interesse, a força de vontade e a capacidade de colaboração dos jovens são medidos. Passada essa fase, são os indicadores socioeconômicos, junto com a proximidade entre a residência do jovem e a empresa em questão, que vão decidir quem entra ou não.

"Fazemos uma combinação entre quem mais quer e quem mais precisa", completa Beth Callia, coordenadora-geral do instituto.

O curso dura cerca de um ano e consiste em um primeiro núcleo básico e, depois, em disciplinas específicas à realidade de cada empresa. Os alunos recebem uma bolsa-auxílio de meio salário-mínimo, uniforme e todos os benefícios que a empresa parceira concede aos seus funcionários.

É comum, aliás, que estes jovens sejam os primeiros das suas famílias a contar com benefícios de qualquer ordem e, mais tarde, com um trabalho formal. A certificação é reconhecida pelo Ministério da Educação.

Gerente de treinamento e desenvolvimento do Hotel Grand Hyatt de São Paulo - parceiro do Instituto Formare e de outra iniciativa do mesmo gênero para jovens já maiores de idade e especializada na área de turismo, o Youth Career Iniciative (YCI) -, Lígia Shimizu é responsável por coordenar as ações de treinamento da equipe do hotel, de recepctionistas bilíngues a camareiras e cozinheiros, passando também pelo pessoal administrativo.

No meio desta força de trabalho estão atualmente 12 alunos do Formare e 12 do YCI, fora 30 aprendizes e 30 estagiários. Dos 70 líderes da empresa, aliás, 41 têm menos de 35 anos - caso da própria Lígia, que tem apenas 26 anos.

Durante os programas, os jovens costumam passar por todos os setores do hotel. Áreas como a recepção (que exige o conhecimento do inglês) e os setores mais administrativos (onde a maioria dos funcionários possui nível superior), no entanto, não costumam abrigar os recém-formados no programa, ao menos não de primeira. Mas a história desses jovens é repleta de casos de superação.

Formada pela turma de 2011, Natalia Cordeiro não foi efetivada logo após o curso, mas entrou na equipe do hotel um pouco mais tarde como aprendiz - muitos dos 30 ex-alunos do Formare atualmente no Hyatt foram contratados primeiro como aprendizes e estagiários, o que mostra também o quanto a persistência e a força de vontade são cruciais nessa fase da carreira.

Depois de promovida a estagiária e com significativa melhora no inglês, ela partiu para Dubai, onde trabalhou em uma unidade local da rede. De volta a São Paulo, foi contratada em abril deste ano como estagiária e, em julho, aos 22 anos, efetivada como assistente de recursos humanos.

Quando o céu é o limite

Um dos casos mais impressionantes nesse sentido é o do mineiro Everton Alves, de 35 anos. Ex-aluno da turma do Formare de 1999, ele trabalha hoje como diretor de operações e vendas da Sambatech, empresa especializada em armazenagem e distribuição de conteúdos digitais.

Auxiliar de pedreiro na adolescência, ele conseguiu o primeiro emprego cinco meses após se formar no projeto. Trabalhando na indústria de autopeças, ele passou rapidamente do chão de fábrica para a área de qualidade graças ao estofo fornecido pelo Formare e também por causa do curso técnico que ele decidiu fazer assim que entrou no mercado.

"A minha família inteira, que é bastante humilde, sempre trabalhou na indústria. Nós viemos de Contagem, que é uma zona industrial. E ali, na Sambatech, uma start-up, eu tinha 27 anos e era o mais velho da sala", recorda.

Com a intenção de retribuir aquilo que recebeu, Everton atuou como educador voluntário do programa entre 2009 e 2012 nas disciplinas de informática e raciocínio lógico. Uma vez, há cinco anos, foi parado na rua por um ex-aluno que havia assistido a apenas uma aula sua, a última.

"Ele me disse que aquela aula mudou a sua vida. E isso, pra mim, foi inesquecível. Eu sei o que eles estão vivendo, parece meio intangível falar em ter sucesso na carreira. Mas quando alguém como eu fala com eles é como se houvesse um espelho", diz.

O apoio da família nos períodos mais difíceis é fundamental para o jovem que não possui um diploma mas deseja crescer na carreira.

"Durante o período que eu cursava o Formare, eu simplesmente não parava em casa. Era curso o dia todo e escola de noite. Muitos dos meus amigos naquela época passavam o dia à toa, no máximo tinham (cursado) o colégio. Mas a minha família sempre me incentivou muito. Fui o primeiro a cursar uma faculdade, e todos os meus irmãos, mais novos do que eu, acabaram por também fazer o mesmo mais tarde", conta.

A importância do planejamento e das atitudes simples

Essa força de vontade na hora de aprimorar competências é fundamental e independe de grau de estudo ou condição social.

"É preciso sacrificar uma parte das horas de lazer para dar esse upgrade nas qualificações. Não existe outro jeito. Quando você estiver finalmente empregado e com um salário um pouquinho maior, por que não fazer uma faculdade? Depois de concluir a faculdade, por que não uma pós? Ou aprender inglês, que é um diferencial e algo mais barato do que uma faculdade ou pós-graduação?", exemplifica Fernando Mantovani, diretor-geral da consultoria Robert Half no Brasil.

Seja começando a carreira com a ajuda de programas sociais de capacitação, seja com o auxílio de programas governamentais ou privados de ajuda a jovens candidatos a emprego (veja uma lista deles ao final da reportagem), seja por conta própria, é importante também focar no planejamento.

Questionamentos como para onde se quer ir, quais os próximos passos e quais são os seus pontos fracos devem ser feitos constantemente.

Para Mantovani, é preciso também relativizar a importância do ensino superior no Brasil de hoje, dada a quantidade de cursos de péssima qualidade.

"Muitas vezes o profissional se frustra porque faz aquela faculdade com bastante esforço, mas não consegue o emprego que achou que ia conseguir. A falta de controle da qualidade do ensino cria uma indústria estelionatária, onde o aluno acha que aprende e a instituição lhe dá um pedaço de papel que custou algum dinheiro mas não vale grande coisa", opina.

Para ele, vale muito mais a pena para o jovem que batalha pelo primeiro emprego investir em um bom curso técnico - ou mesmo cursar o ensino médio técnico - do que em um curso universitário de qualidade duvidosa. E as empresas em geral e os recrutadores em particular também precisam mudar os seus parâmetros e avaliar essa questão de forma menos automática e mais cautelosa.

"É preciso ter muito cuidado com essa pressão pelo curso superior. Gestores podem acabar dando preferência a profissionais com um ensino superior ruim em detrimento de um profissional técnico bom", adverte.

Estudo recente do Sistema Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) apontou que o Brasil precisará qualificar 13 milhões de trabalhadores em ocupações industriais até 2020. Em países como Alemanha, Áustria, Suíça e Japão, mais da metade de todos os estudantes cursam alguma formação técnica junto com o ensino regular.

E mesmo no Brasil não é possível associar o nível técnico a salários necessariamente mais baixos. Ainda segundo o Senai, um técnico em mineração recém-formado, por exemplo, tem hoje no país rendimentos iniciais de R$ 7 mil - salário de fazer inveja à maioria dos universitários em início de carreira.

Educação e qualificação profissional à parte, é importante lembrar que muitas vezes aquela ajuda providencial pode estar logo ao lado. A relações-públicas Camilla Assreuy, por exemplo, ainda trabalhava no setor varejista de moda quando se deparou com uma profissional que havia perdido o seu emprego como estoquista em uma loja e precisava se recolocar.

"Ela não fazia a menor ideia de como ou por onde começar a procurar trabalho", recorda.

Com uma simples consulta a um aplicativo que integrava informações e serviços para os lojistas e funcionários do shopping em questão, e que a moça desconhecia, Camila encontrou não uma, mas dez vagas de estoquista para a profissional. Ou seja: ninguém deve ter receio, vergonha ou preguiça de perguntar, pesquisar e pedir ajuda. E não só quando se trata do primeiro emprego.

Programas de qualificação gratuitos (sendo que alguns também oferecem benefícios ou feiras de oportunidades):

Instituto Formare (para jovens entre 16 e 18 anos)

Youth Career Iniciative (para jovens entre 18 e 24 anos)

Programa Jovem Protagonista (para jovens entre 16 e 29 anos)

Programas de emprego, estágio e/ou ligados à Lei da Aprendizagem:

Centro de Integração Empresa Escola

Programa Jovem Cidadão (para jovens entre 16 e 21 anos residentes na Grande São Paulo, em Campinas, Piracicaba, São José dos Campos e Santos)

Programa Aprendiz Legal (para jovens entre 14 e 24 anos)

Programa Aprendiz Paulista (para jovens entre 14 e 24 anos residentes no estado)

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