De office boy a CEO: A trajetória de brasileiros até o topo de multinacionais e o que mudaram ao chegar lá

Felipe Souza - Da BBC Brasil em São Paulo

Lavar o carro, passear com o cachorro do chefe e protocolar documentos. Essas eram algumas das funções do homem que hoje ocupa o cargo mais alto no país da Osram - uma das maiores fabricantes de lâmpadas do mundo - quando entrou na empresa, em 1995.

Ricardo Leptich, de 39 anos, foi contratado como office boy. Mas depois de oito promoções em 21 anos, chegou à cadeira de CEO (diretor-executivo) em 2016. Ele conta à BBC Brasil que sua própria trajetória - incomum no país - o fez reconhecer que a maior parte das empresas exige demais dos funcionários, mas oferece poucos benefícios em contrapartida.

Se há duas décadas poderia parecer pretensão de Leptich imaginar que hoje estaria no topo, o mesmo valeria para o atual CEO do Banco do Brasil Américas, Antonio Cássio Segura. Ele nasceu em uma família de lavradores, começou a trabalhar aos nove anos como entregador de jornal e, 24 anos depois de entrar na companhia, alcançou o posto mais alto da subsidiária do banco brasileiro nos Estados Unidos.

Ambas são histórias raras no Brasil - país de pouca mobilidade social e com um mercado de trabalho em que poucos profissionais conseguem se manter por mais de quatro ou cinco anos em uma mesma empresa, de acordo com o consultor de carreiras Rafael Souto.

"A grande oferta de emprego leva o funcionário a ter mais opções. Mas ficar pouco tempo na empresa é ruim para o profissional porque ele pode nunca se consolidar em nenhum lugar", diz Souto à BBC Brasil.

De acordo com o consultor, as trajetórias de Leptich e Segura contêm ensinamentos que podem ser valiosos não apenas para os subordinados deles, mas para funcionários e gestores Brasil afora.

"O primeiro é ter uma visão de futuro em busca de ascensão profissional. O segundo ponto é permanecer um bom tempo na empresa para construir uma trajetória consistente para ganhar confiança da empresa e do mercado", recomenda.

"Também é necessário ter habilidade política e de networking para fazer boas leituras de quem são os influenciadores na empresa e aprender a navegar e como costurar com essas pessoas. É o marketing pessoal, que é diferente de ser 'puxa-saco'."

Meritocracia: um discurso vazio?

Para o CEO da Osram, que nasceu em uma família de classe média, o discurso de meritocracia - que prega que o esforço pessoal basta para o sucesso profissional e é mantra de muitos executivos - é vazio se as empresas não oferecerem políticas e condições que incentivem o funcionário a evoluir. Apenas a cobrança, de acordo com seu raciocínio, levará o empregado a buscar outro trabalho no médio prazo.

"As companhias devem ofertar ferramentas para que o funcionário cresça e tenha vontade de continuar nelas. O escritório do Mercado Livre em Osasco (Grande São Paulo), por exemplo, tem salão de beleza e academia. Isso é investir no funcionário para que ele se sinta feliz e faça carreira na empresa, e não a use apenas como trampolim", diz Leptich.

Seguindo essa linha de pensamento, o executivo criou um ambiente que chama de "sala de descompressão". Ali há TV, sofá e videogame à disposição de seus funcionários. O executivo ainda diz ter se aproximado deles, apostando em bolões e até participando de um grupo de WhatsApp da equipe.

O comportamento destoaria do estilo dos três presidentes que o antecederam. Segundo ele, os três executivos mantinham uma relação de afastamento com os funcionários, com "nariz empinado, sem cumprimentar" para demonstrar que ocupavam um posto mais alto.

"Eu acho que o fato de vir de baixo me dá uma base completamente diferente. Eu conheço todo mundo. É uma relação de amizade e de respeito mútuo", diz Leptich.

Para facilitar o relacionamento com os funcionários, ele agora mantém a porta de sua sala aberta e afirma estar sempre à disposição para conversar. "Antes, eu precisava marcar horário para conversar com meus diretores. Achava um absurdo."

Como manter seus funcionários por mais tempo na empresa por mais tempo é o principal desejo do CEO, sua empresa mantém um formato de previdência privada que premia os subordinados mais longevos: quem completa dez anos de Osram ganha em dobro o valor que depositar. Quem tem mais de 20 anos de casa, recebe 200% a mais e quem completa 25 anos, 250% extra e uma festa para cem convidados em um bufê.

Sem privilégios entre os cargos

Para o CEO do Banco do Brasil Américas, privilégios dentro da companhia não são saudáveis. Segura afirma tentar criar uma relação de mais igualdade entre seus funcionários. A história familiar o ajudou a ter essa visão: a irmã de Segura é diarista, o irmão, motorista de caminhão.

"Essas são as pessoas com quem eu convivo e esse é o meu mundo. Essa é a minha origem e é por isso que eu conheço todas as faxineiras do banco pelo nome. E é fundamental que todos os funcionários se respeitem porque cada um tem sua história. E quem movimenta o banco é o escriturário, a secretária e os caixas", afirmou.

Assim que assumiu a cadeira mais importante da empresa, ele acabou com as salas de vice-presidente e implantou o mesmo plano de saúde para todos os funcionários - desde os faxineiros e seguranças até o dele próprio.

"Hoje, nenhum funcionário tem vaga melhor de estacionamento ou coisa do tipo. Ninguém deve ter privilégios, a não ser nossos clientes. Esses sim pagam nossos salários e merecem mais conforto", diz.

A política é parecida com algumas das estratégias adotadas por grandes companhias, como o Facebook, para melhorar o ambiente de trabalho. O criador da rede social, Mark Zuckerberg, costuma se sentar no escritório californiano em meio a todos os demais funcionários.

Metas curtas e alcançáveis

Leptich lembra que, além de cabelos compridos, tinha dois sonhos quando entrou na Osram aos 16 anos: fazer sucesso com sua banda de heavy metal e se tornar um executivo.

A cabeleira não agradava seu chefe alemão na época, que só passou a respeitá-lo anos depois, quando foi ao cabeleireiro e passou a tesoura. "Agora sim você parece um homem de marketing", afirmou o então CEO.

Leptich logo abandonou seu sonho de ser um astro do rock e diz que seu segredo foi estabelecer metas curtas e "forçar" promoções para atingir sua meta no mundo dos negócios. A estratégia foi apontar deficiências na empresa e sugerir soluções.

"Essa foi a minha estratégia e até hoje valorizo gente que traz problemas junto com soluções. Pode não ser a melhor, mas pelo menos isso mostra que ele está tentando refletir e trazer algo a mais do que simplesmente uma queixa. Mas também é muito importante levar resultados para ganhar credibilidade e implantar suas ações na empresa. Sempre tentei entregar muito mais do que me pediram", afirma.

O executivo revela que já vê alguns de seus funcionários em condições de assumir cargos importantes na empresa nos próximos anos.

Sua dica para os mais jovens é traçar um plano para subir degraus aos poucos. Também é importante, no seu ponto de vista, observar qual a formação das pessoas que ocupam os cargos que almeja e o que elas fizeram para chegar lá.

O homem das metas a curto prazo, porém, precisou de tempo para pensar ao ser questionado pela reportagem da BBC Brasil sobre seu próximo objetivo profissional.

"Nos próximos dois ou três anos eu não vislumbro outra função, mas é obvio que ter oportunidades na companhia fora (do país) é um desejo. Mas por enquanto ainda tenho uma série de coisas a desenvolver por aqui."

Visão sistêmica da empresa

Caçula de quatro irmãos e filho de lavradores, Antonio Cássio Segura, de 49 anos, jamais pensou que fosse sair da fazenda onde morava com a família na infância no interior de São Paulo. Muito menos cruzar o oceano e morar nos Estados Unidos.

Ele tinha nove anos quando foi obrigado a deixar a vida na roça onde sua família trabalhava como lavradora de café após uma geada devastar a plantação. Seu pai passou a atuar como motorista levando boias-frias de caminhão para a zona rural, e seu irmão mais velho virou tratorista. Além de estudar, ainda criança o caçula passou a entregar jornal, leite e pão para ajudar na renda familiar.

Com 14 anos, começou a trabalhar como frentista e dois anos depois virou office boy em um escritório de contabilidade, onde começou a traçar sua carreira. Aos 17, aceitou o convite de um amigo e foi para Rondônia trabalhar em uma agência do Itaú. Em 1988 entrou no Banco do Brasil, onde continua até hoje.

Na avaliação do consultor de carreiras Rafael Souto, quem faz carreira na mesma empresa tem mais facilidade em entender as dificuldades e olhar a corporação de uma forma mais prática do que quem foi contratado diretamente para cargos mais altos. "Ele passou por tudo, viu como funciona e colocou a mão na massa. É uma característica positiva e que o valoriza dentro da empresa", diz o especialista.

Na experiência de Leptich, nem sempre os mais jovens valorizam a experiência de passar por vários cargos e entender bem como a empresa funciona no todo.

"Eles fazem o serviço correto na área deles, mas não têm uma visão sistêmica e isso, muitas vezes, gera um retrabalho. É uma situação individualista de olhar o seu trabalho sem se preocupar como isso influencia as outras áreas. Ele pensa que está fazendo o melhor, por exemplo, ao fechar uma grande venda sem considerar o impacto dessas iniciativas na áreas de logística e de produção, o que pode ser desastroso."

O CEO da Osram afirma que o mundo ideal é ter funcionários com conhecimento técnico, mas que conheçam a fundo a empresa, como ele conseguiu após ficar anos no mesmo emprego. Por isso, a empresa adotou um programa para contratar adolescentes de 15 ou 16 anos, dar experiência e ajudar nos estudos para que eles se formem e cresçam internamente.

Paciência: as promoções podem demorar

O presidente do Banco do Brasil Américas afirma que hoje se considera uma pessoa realizada, mas que já se sentiu frustrado e até pensou em sair da empresa ao ficar quatro anos sem receber uma promoção.

"Eu era promovido a cada dois anos. Chegou uma hora que afunilou e eu fiquei revoltado porque não subia mais de cargo", conta.

Para Segura, chegar a um cargo tão alto é consequência de um trabalho constante.

"Sempre digo em meus discursos o conselho que o personagem do filme 'Carros' recebeu de um ex-corredor antes de uma competição importante: 'Ache a sua velocidade de conforto e a mantenha. Ela te fará vencer'. Esse é o meu lema. Não adianta ter afobação, o ideal é ter regularidade."

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