Os detalhes ainda nebulosos sobre o assassinato de JFK

Owen Amos - Da BBC News em Washington (EUA)

  • John F. Kennedy Library/AFP

Arquivos confidenciais sobre o assassinato a tiros do ex-presidente americano John F. Kennedy, em 22 de novembro 1963, serão divulgados nesta quinta-feira, e podem revelar novos detalhes a respeito do episódio que se tornou alvo de uma das maiores teorias da conspiração dos Estados Unidos.

A professora Toni Glover, da Universidade de Scranton, na Pensilvânia, lembra até hoje do momento em que assistiu, na rua, ao desfile do então presidente e da primeira-dama Jacqueline Kennedy em Dallas, no Texas. Ela tinha 11 anos.

"Eu tive uma infância difícil. Queria que Kennedy olhasse para mim e acenasse para mim. Isso ia significar que ele sabia quem eu era, e a situação em casa estaria perfeita", relembra.

Quando ela encontrou o lugar "perfeito" para assistir ao desfile, o carro despontou na praça Dealey. "Ele apareceu, sorriu e acenou. Jackie também acenou - ela estava do meu lado."

Glover decidiu seguir o carro, que já virava a esquina, para acompanhar cada segundo da passagem do casal por Dallas. "E aí a cabeça dele simplesmente explodiu", conta.

Ela disse a sua mãe que alguém tinha soltado fogos de artifício no carro, "mas, no fundo, sabia a verdade".

Horas depois, Lee Harvey Oswald foi preso pelo assassinato do presidente. Mesmo assim, o episódio alimentou inúmeras teorias sobre uma possível conspiração para pôr fim ao governo democrata, em meio à Guerra Fria.

Hoje, 54 anos depois, Glover é uma das que acreditam que ainda há muitas perguntas a serem respondidas sobre o caso - incluindo até mesmo a possibilidade de que um segundo atirador tenha colaborado com Oswald.

"Eu acredito em fatos. Fui para um congresso sobre JFK que tinha muitos conspiracionistas. Algumas daquelas teorias são completamente malucas", admite. "Mas há investigadores sérios que ainda têm dúvidas."

Assassinatos em sequência

John Fitzgerald Kennedy, o 35º presidente dos Estados Unidos, foi morto a tiros enquanto desfilava com a primeira-dama em uma limusine cor-de-rosa aberta.

O então governador do Texas John Connally, que estava sentado diante do presidente no carro, ficou ferido, mas sobreviveu.

Uma hora depois, o policial texano JD Tippit também foi morto a tiros. E em seguida, policiais prenderam Lee Harvey Oswald, que teria atirado no presidente de um edifício no trajeto do desfile.

Cerca de 12 horas depois do assassinato, Oswald foi acusado de matar Kennedy e JD Tippit.

Mas no dia seguinte, 24 de novembro, o próprio Oswald foi morto a tiros no departamento de polícia de Dallas por Jack Ruby, um dono de bar local, que assistia a sua chegada. Sua morte foi registrada ao vivo na televisão.

Ruby foi condenado à morte pelo assassinato de Oswald. Ele chegou a apelar para a Justiça, mas morreu de câncer em 1967, antes de conseguir um novo julgamento.

Explicação oficial

Uma semana depois da morte de Kennedy, com o país ainda em choque, o presidente Lyndon B. Johnson criou a chamada Comissão Warren para investigar o caso.

O relatório da comissão (que pode ser lido aqui, em inglês) foi publicado em setembro do ano seguinte, e dizia que os tiros vieram da janela do 6º andar do Texas School Book Depository, um depósito de livros escolares que ficava na praça Dealey.

Ainda de acordo com os investigadores, os tiros foram realmente disparados por Oswald e "não havia provas de que Lee Harvey Oswald ou Jack Ruby fossem parte de qualquer conspiração, doméstica ou estrangeira".

Nos anos seguintes, especialistas continuaram a se debruçar sobre o caso. Em 1968, uma equipe de médicos "corroborou as conclusões médicas da Comissão Warren".

Em 1975, uma segunda comissão, a Rockefeller, disse não ter encontrado "provas aceitáveis de nenhum envolvimento da CIA" no assassinato do democrata.

E em 1979, um relatório do Comitê sobre Assassinatos da Câmara dos Deputados americana reiterou as conclusões da comissão Warren, mas afirmou que havia "uma alta probabilidade de que dois atiradores tenham alvejado o presidente Kennedy".

A nova afirmação voltou a dar combustível para os conspiracionistas: quem seria o segundo atirador? De quem teria sido o plano?

Mas nenhum fato novo foi divulgado até que, em 1992, uma lei aprovada pelo Congresso transferiu todos os registros do caso - cerca de 5 milhões de páginas - para o Arquivo Nacional dos EUA.

Cerca de 88% desses documentos são abertos, mas 11% tiveram "informações sensíveis" removidas e 1% são completamente confidenciais. Pelo menos até esta quinta-feira.

De acordo com a lei, todos os documentos deveriam ser divulgados 25 anos depois de seu arquivamento, a não ser que o presidente americano em exercício o proíba.

Teorias

Como Toni Glover, muitos acreditam que havia um segundo atirador em um canteiro pelo qual o carro do presidente passou. Glover acha que ele poderia estar em uma das margens da avenida.

"Há provas razoavelmente substanciais. Elas têm alguma validade", afirma a professora universitária.

Já Jefferson Morley, ex-repórter do jornal Washington Post que escreveu diversos livros sobre o episódio, também "tende a duvidar" que Oswald atirou em JFK. Para ele, é mais provável que o tiro fatal tenha atingido Kennedy pela frente e não pelas costas.

"Quando se assiste à cena, dá para ver que (os pedaços da) cabeça dele voam para trás. Sei que existe uma teoria de que, se você for atingido pelas costas por uma bala, a cabeça se moveria em direção à fonte do tiro, mas isso não parece uma explicação provável do ponto de vista do senso comum. Parece mesmo um tiro de frente", afirma.

Morley, no entanto, diferencia seu trabalho das teorias da conspiração: "Eu nunca escrevi sobre essas teorias. Eu só relato fatos novos sobre o assassinato".

O ex-repórter também diz ter outras razões para duvidar da explicação oficial sobre o crime. Um teste de parafina feito na bochecha de Oswald depois que ele foi preso teria mostrado que não havia marcas deixadas em alguém que atirou com um rifle.

Mas vale ressaltar que, desde então, a validade do teste foi questionada.

John Connally, o ex-governador do Texas que estava no carro, diz que não foi atingido pela mesma bala que matou Kennedy, o que contradiz o relatório da Comissão Warren.

"Sabemos, sem dúvida, que a história que conhecemos é falsa. Essa história de que esse cara, Oswald, sobre quem ninguém sabia coisa alguma, apareceu do nada e matou o presidente", afirma Morley.

"Oswald já estava sendo monitorado pela equipe de contrainteligência da CIA quatro anos antes - de dezembro de 1959, quando abriram o primeiro arquivo sobre ele, até novembro de 1963."

O que os novos documentos podem revelar?

Thomas Whalen, escritor e professor da Universidade de Boston, acredita que Oswald foi realmente o responsável pela morte de JFK.

"De um modo geral, os historiadores acreditam que ele era o assasino. Mas a pergunta é: ele estava envolvido em uma conspiração maior?"

A Comissão Warren afirmou, na época, que Oswald agiu sozinho, mas agregou que ele tinha viajado para a União Soviética em 1959 e morado lá até 1962. Ele tentara, sem sucesso, conseguir a cidadania soviética.

Os investigadores também descobriram que Warren, que se dizia marxista, visitou as embaixadas de Cuba e da Rússia na Cidade do México em setembro de 1963, dois meses antes do assassinato.

Os documentos confidenciais, segundo Whalen, poderiam esclarecer melhor as circunstâncias dessa viagem. Ele teria visitado agentes de inteligência cubanos e soviéticos?

"Fidel Castro (ex-líder cubano) certamente tinha motivos para querer matar Kennedy. Nós - o governo americano - também estávamos tentando matá-lo."

Já Bruce Miroglio, advogado californiano que diz ter lido "milhares de livros" sobre Kennedy, não acredita que os documentos causem reviravoltas no caso.

"Eu estou, inclusive, sentado no meu escritório lendo novamente os 26 volumes do relatório da Comissão Warren", garante, ao falar por telefone com a BBC.

Para ele, apesar de ter "cometido erros", o relatório está correto.

"O número de pessoas que teriam que estar envolvidas numa operação para encobrir o assassinato é tão imenso que seria quase impossível manter algo tão bombástico escondido por tanto tempo", afirma.

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