Eleições 2018

A esquerda tucana que é contra Doria e MBL e quer Alckmin presidente

Leandro Machado

Da BBC Brasil em São Paulo

  • Leandro Machado/BBC Brasil

    Fernando Guimarães Rodrigues, coordenador da esquerda tucana

    Fernando Guimarães Rodrigues, coordenador da esquerda tucana

O PSDB é um partido de esquerda? Para um grupo cada vez mais forte na sigla, a resposta deve ser sempre "sim, com certeza". Eles afirmam que os tucanos nasceram no espectro político da esquerda e devem retomar esses valores daqui para frente.

O PSDB Esquerda Pra Valer (EPV) surgiu em 2004 e hoje reúne cerca de 5,5 mil filiados, entre militantes, vereadores, deputados estaduais e federais e até um ex-governador de São Paulo. No total, o partido tem cerca de 1,5 milhão de inscritos - a maioria, no entanto, não tem participação ativa.

Críticos do PT e do presidente Michel Temer (PMDB), do prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), e do MBL (Movimento Brasil Livre), os tucanos 'esquerdistas' foram contra o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), são contra as privatizações como política de governo e o liberalismo econômico - que prega mercado livre de intervenções do Estado.

Também são contra o vestibular como método de seleção universitária e contra a redução da maioridade penal - projeto de lei criado, inclusive, pelo tucano Aloysio Nunes, ministro das Relações Exteriores.

O movimento é a favor da descriminalização do uso da maconha e do aborto, do respeito aos direitos humanos, a favor do transporte público totalmente gratuito, do voto facultativo e da taxação de grandes fortunas.

O grupo também se colocou ao lado do governador Geraldo Alckmin na disputa em que ele trava com Doria pela candidatura do partido à Presidência da República, em 2018.

O principal objetivo, porém, é fazer com que a sigla volte os olhos para seu programa partidário e à sua principal bandeira: a social democracia. Essa ideologia política, ligada historicamente à esquerda, prega a presença e intervenção do Estado na economia como forma de garantir o bem estar e a justiça social.

Herança tucana

Criado em agosto de 1988, o PSDB foi formado por políticos e intelectuais de esquerda, como Franco Montoro, Mario Covas e Fernando Henrique Cardoso, opositores da ditadura militar que comandou o país entre 1964 a 1985.

"PSDB significa Partido da Social Democracia Brasileira, está no nome. O partido perdeu muito o espaço de discussão ideológica, perdeu sua capacidade de dialogar com a população, com os movimentos sociais", diz Fernando Guimarães Rodrigues, de 42 anos, coordenador nacional do EPV e um dos criadores dessa tendência tucana.

O militante se filiou ao PSDB em 1991, por influência de seu ídolo Franco Montoro, ex-governador de São Paulo e alinhado à esquerda. Estudante de ciências sociais na USP, Rodrigues foi um dos organizadores dos protestos a favor do impeachment de Fernando Collor, em 1992. Anos depois, já no tucanato, chegou a ser diretor da UNE (União Nacional dos Estudantes).

"O partido não tem cursos de formação política, não há congressos de discussão de conteúdo programático. Hoje, se você fizer um congresso para distribuir cargos, ele ficará lotado. Mas se for para discurtir tese política, aparecem poucas pessoas", diz.

Além de delegado nacional do partido, Rodrigues é assessor parlamentar do deputado estadual de São Paulo Calor Bezerra Jr., um dos simpatizantes do grupo e bastante ligado à defesa dos direitos humanos.

Tucanos x Filiados

Os integrantes da esquerda do PSDB dividem os membros da legenda em dois grupos: os tucanos e os filiados. Os tucanos seriam pessoas ligadas historicamente à ideologia da sigla: Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Geraldo Alckmin. O prefeito João Doria seria um "filiado" - ou seja, não partilha das origens da agremiação.

"O problema de Doria é que ele escolheu o partido errado", diz Rodrigues.

O assessor parlamentar chegou a ocupar um cargo na gestão do prefeito, a convite da vereadora Patrícia Bezerra, quando ela assumiu a Secretaria Municipal de Direitos Humanos. Ambos renunciaram aos postos meses depois com duras críticas a Doria, principalmente em temas ligados ao tratamento da prefeitura a usuários de crack.

De volta à Câmara Municipal, Bezerra - ligada à esquerda - tem criticado o prefeito em vários temas e votou contra projetos de lei enviados por ele.

"Para se filiar ao PSDB, basta preencher três fichas na internet. Muitos dos atuais filiados nem sabem o que é social democracia nem parlamentarismo, bandeiras defendidas pelo partido. Falta conhecimento mesmo", diz o estudante Donizete Ferreira Beck, de 23 anos, membro da juventude tucana e do EPV.

Quando questionado sobre o que pensa de Doria, ele para de falar por 21 segundos. Respira, ri, pensa. "Se Doria tem boa-fé, ele precisa fazer um exame crítico, sincero. Ele pode até ter boa intenção, ele pode até acreditar que o liberalismo possa funcionar. Na prática, porém, no liberalismo tem monopólio e oligopólios com a falta de regulação que ele prega", responde, finalmente.

A inimizade com Doria se acentuou quando o prefeito divulgou um vídeo chamando Alberto Goldman, ex-governador de São Paulo e membro do EPV, de "fracassado" e de "improdutivo". O prefeito também faz duras críticas à esquerda, sempre associando a ideologia ao PT.

Por essas questões, a esquerda tucana apoia Geraldo Alckmin como candidato à Presidência da República no próximo ano. Há uma semana, o governador se encontrou com o EPV e disse que o "liberalismo completo é incivilizado".

O EPV discorda da visão de que Alckmin é um político conservador e de direita. "Ele é de diálogo, veio do berço do PSDB. Talvez essa imagem exista porque ele é uma pessoa discreta", diz Rodrigues.

"Mas Alckmin, quando toma uma decisão, tem a certeza de ele fez a coisa certa, com a doutrina. É diferente de Doria, que pensa no marketing. Alckmin fez uma série de políticas sociais, inclusive para a comunidade LGBT, e voltadas para as pessoas mais pobres, como o (restaurante popular) Bom Prato", diz Rodrigues.

Doria nunca se afirmou como pré-candidato em 2018, apesar de suas constantes viagens pelo país. Ele defende prévias para a escolha do nome tucano à Presidência.

'Desigualdade não é natural'

Em seu estatuto, o PSDB divide seus membros entre apoiadores de quatro vertentes políticas: social democracia, socialismo democrático, democracia cristã e liberalismo progressista. João Doria, por exemplo, estaria nessa última tendência - à direita do restante da legenda - e rejeitada pelo Esquerda Pra Valer.

Rodrigues explica por que se considera de esquerda: "Sou de esquerda no sentido da definição clássica do (filósofo italiano) Norberto Bobbio. Você é de esquerda se acredita que todos nascem iguais e a que é a sociedade que produz a desigualdade. Sou de esquerda porque acredito que o papel da política deve ser o compromisso em corrigir essa distorção".

"Se não acredita nisso, ou se você acha que a desigualdade é um fenômeno natural, você é de direita", diz.

O EPV pretende impedir que novos nomes da direita tentem usar o PSDB em futuras candidaturas. O Movimento Brasil Livre (MBL), por exemplo, é o principal alvo.

Já há filiados nas duas agremiações, como Paulo Mathias, subprefeito do bairro paulistano de Pinheiros e que milita dos dois lados. Uma ala da juventude tucana, conhecida como Conexão 45, também está alinhada ao movimento de Kim Kataguiri e do vereador Fernando Holiday (DEM).

"O MBL está tentando usar a máquina partidária do PSDB para seus objetivos eleitorais", diz Donizete Ferreira Beck, de um grupo rival.

Rodrigues faz uma crítica mais dura.

"O MBL não é um movimento de diálogo nem de representatividade. Ele funciona apenas nas redes sociais, como uma agência de comunicação, e se ancora no falso moralismo. As portas do PSDB estão fechadas para eles", diz. "O MBL cumpre um papel de censor das liberdades de expressão e artística", completa, em referência às recentes manifestações do grupo contra exposições e performances de arte.

Procurado pela BBC Brasil, o Movimento Brasil Livre não comentou as críticas. Disse apenas: "Nós nem sabíamos que eles (Esquerda Pra Valer) existiam, deixa eles falarem qualquer coisa".

Divulgação
Alckmin encontrou-se os militantes do "PSDB Esquerda Pra Valer"

Virada à direita?

Hoje, o PSDB é normalmente associado à direita. Alguns fatores contribuíram para essa imagem, segundos os próprios militantes: as privatizações do governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, a posterior oposição aos governos do PT, a aliança com partidos como o DEM, o atual apoio a projetos de lei criticados pela esquerda como as reformas da Previdência e trabalhista e a filiação de políticos controversos, como o deputado estadual Coronel Telhada - membro da bancada da bala.

A imagem do partido, entretanto, começou a mudar já em 1993, quando seus líderes fizeram um acordo com o PFL (hoje DEM) para compor a chapa com Fernando Henrique Cardoso nas eleições presidenciais vencidas por ele no ano seguinte.

A aliança foi duramente criticada pelos próprios militantes, pois a legenda criada por opositores da ditadura estava se juntando a um partido formado por egressos do regime militar - anos depois, o mesmo aconteceu com o PT. Na convenção daquele ano, tucanos levaram uma faixa na qual se lia "Movimento 25 de Junho. Esquerda Pra Valer" - a data é uma referência à fundação do partido.

A esquerda do PSDB também é bastante crítica ao PT - "que fez da permanência no poder um projeto político" - mas também é contra o apoio que o partido dá ao governo Temer. "Somos contra apoiar um governo que não está em nada comprometido com a questão social", diz o deputado federal Eduardo Barbosa, membro do EPV.

Sobre o senador Aécio Neves, presidente licenciado do PSDB e alvo de denúncia por corrupção, a coordenação do EPV é mais reticente. "Digamos que ele não é inspiração para nenhum tucano. Mas nós esperamos um gesto de grandeza dele com relação ao partido", diz Rodrigues.

Dentro da sigla, há quem peça que o parlamentar renuncie à liderança da agremiação.

Divulgação
Membros do PSDB Esquerda Pra Valer fazem congressos anuais para discutir a ideologia da legenda

Resgate de FHC

Outro militante do EPV, o administrador Antonio Celso Albuquerque, de 50 anos, também explica por que se diz tucano e de esquerda. "Você precisa do mercado para gerar a riqueza, mas precisa do Estado para distribui-la", diz.

"O Fernando Henrique foi quem iniciou os maiores projetos sociais, depois ampliados pelo PT, como o Bolsa Escola (que virou o Bolsa Família). Ele fez reforma agrária maior que o Lula, pois atacou os latifúndios, quebrou patentes de medicamentos contra a Aids. Isso é ser de esquerda", lembra Rodrigues.

O estudante Donizete Ferreira Beck conta que a reação de seus amigos é de espanto quando ele diz a amigos ser tucano e de esquerda. "As pessoas acham esquisito, porque o senso comum diz que o PSDB é de direita. Daí eu explico o que é social democracia", conta.

Fernando Henrique Cardoso já falou algo parecido. Segundo relato do jornal Folha de S.Paulo, ele brincou com essa imagem em um evento com intelectuais em abril de 2014: "Hoje, se disser que sou de esquerda, as pessoas não vão acreditar. Embora seja verdade. É verdade".

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