O ex-agricultor maranhense consagrado jóquei número 1 da Inglaterra sob aplausos da rainha

Lígia Mesquita - Da BBC Brasil em Londres

"Se você tem o Messi ou o Ronaldinho no seu time, quem você vai chamar pra bater o pênalti? É a mesma coisa na corrida de cavalo", diz Silvestre de Sousa, 36, lembrando das vezes em que, anos atrás, frustrado e acreditando em seu potencial, era deixado de lado em importantes corridas de cavalo na Inglaterra.

O maranhense gosta das comparações com futebol; e sabe que, no Reino Unido, o esporte com corrida de cavalos é uma paixão nacional, enquanto tem um alcance relativamente pequeno em seu país natal.

Hoje, seria titular absoluto e o artilheiro do time. No sábado, 21 de outubro, "Silvester de Suza", como pronunciam os britânicos, foi agraciado, pela segunda vez, com o mais importante título do país dado a jóqueis de corridas rasas (sem obstáculos), o Stobart Champion Flat Jockey.

O ganhador é sempre o jóquei com o maior número de vitórias no ano. Como Silvestre obteve 155 vitórias e não pôde mais ser alcançado pelo rival, recebeu o título antecipado em um badalado evento de turfe no hipódromo de Ascot, o British Champion Day, que contou com participação da rainha Elizabeth 2ª.

O primeiro título veio em 2015, quando venceu 132 corridas.

"O tratamento que agora me dão mudou muito nos últimos dez anos. Sabem que ninguém vira campeão do, como se diz em português?, do dia pra noite?", diz ele com sotaque carregadíssimo em inglês à BBC, por telefone, do Maranhão, para onde viajou no dia seguinte para ver a família.

"Eu estava mais confiante neste ano, tive uma boa vantagem. É resultado de muito trabalho, ôquey? Monto quase todos os dias, treino muito, igual no futebol", fala. "E sou o primeiro latino-americano a ganhar competição em grupo e estatística no turfe aqui no UK [United Kingdom]. Estou muito feliz."

De tapeceiro a jóquei

Até os 17 anos, Silvestre não tinha ideia do que era um jóquei. Aprendeu a andar a cavalo com quatro anos, no pequeno sítio onde seus pais moram até hoje em São Francisco, cidade com cerca de 12 mil habitantes no interior do Maranhão, quase fronteira com o Piauí. Lá, ajudava o pai com os animais e o trabalho de agricultor. Foi à escola, mas parou na 6ª série do então ensino fundamental.

Quando fez 14 anos, decidiu seguir para São Paulo, onde Roberto, o mais velho dos nove irmãos, já vivia. Na capital paulista, Silvestre foi trabalhar como tapeceiro, ajudando o irmão. "Geralmente quem vive no Nordeste vai para São Paulo para buscar uma melhora de vida", diz, explicando por que deixou a vida no campo.

Afastado dos cavalos na cidade grande, conheceu um amigo que lhe falou da escolinha de jóqueis no Jockey Club de São Paulo. Foi conhecer o local e acabou se inscrevendo para tentar uma vaga.

Com seus 1,52 m, altura ideal para o turfe, e o corpo franzino, foi aprovado e se mudou para o alojamento da instituição, onde passou a ter aulas e a competir.

"Fui um dos destaques dos aprendizes e aí me falaram de uma oportunidade na Irlanda", lembra.

Mudança de país

Um treinador irlandês de cavalos havia entrado em contato com o Jockey paulista atrás de mão de obra. Silvestre se interessou e, em 2004, desembarcava em Kildare, na Irlanda, em pleno inverno, e não falando uma palavra em inglês.

"Fui para ser escovador e galopador de cavalos. O começo foi difícil, não sabia a língua, fazia muito frio. Mas comecei a pedir para ir montando, e tirei meu registro profissional", lembra. Ele conta que levou cerca de dois anos para conseguir se comunicar direito em inglês. "Aprendi lendo livros e na convivência com amigos. Depois, arrumei uma namorada irlandesa, isso ajudou também."

Como seu patrão na Irlanda não dava muito espaço para que ele competisse, Silvestre buscou trabalho na Inglaterra. Conseguiu um novo emprego como galopador e escovador em Yorkshire, junto com um dos mais famosos treinadores de jóqueis do Reino Unido, David Nicholls.

"Ele me ensinou muita coisa e deixava eu pegar algumas montarias de vez em quando. Comecei a ganhar umas carreiras e decidi virar freelancer dois anos depois", diz Silvestre.

Com 24 para 25 anos, o jóquei conseguiu um agente e passou a disputar competições.

Preconceito

O brasileiro ressalta que o começo no turfe foi difícil. Sofria preconceito, não conseguia se comunicar tão bem e normalmente não o deixavam montar os melhores cavalos, que ele ajudava a treinar.

"Criticavam porque não falava a língua e porque achavam que eu, brasileiro, estava tomando o espaço deles. Alguns jóqueis e treinadores falavam na minha cara. Às vezes eu montava um cavalo e fazia uma corrida excelente e aí na próxima vez que eu ia correr, colocavam um jóquei com mais nome para montá-lo. Senti que tinha que ser muito forte para persistir", fala.

Em seu primeiro ano de competição, lembra, teve 27 vitórias. Depois, foram 35, 60 e por aí em diante, até chegar a 132 em 2015 - o que lhe rendeu o primeiro título de campeão do ano.

O turfe permitiu a Silvestre comprar sua primeira casa, "bem pequena, em que eu tinha que entrar de frente e saía de lado [risos]". Alguns anos depois, se mudou para um espaço maior em Newmarket, cidade perto de Cambridge.

Lá vive com a mulher, uma ex-jóquei, que ele conheceu em competições mistas, e com o filho de 10 anos. O casal espera um bebê para dezembro.

Além de disputar as corridas, ajuda a treinar alguns dos melhores cavalos da Inglaterra e é pago por isso.

Silvestre não tem planos de voltar ao Brasil nem cogita participar de uma competição esportiva representando o país. No fim do ano, ele se muda temporariamente para Hong Kong e para o Japão, onde disputará alguns torneios.

"Nunca imaginei chegar aonde cheguei, nem pensei em conquistar o que conquistei aqui. Deus foi muito generoso, estou feliz assim."

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