A tensa batalha de carcereiro para se salvar de ataque de preso armado com faca em cadeia paulista

Felipe Souza - Da BBC Brasil em São Paulo

O carcereiro Mauro (nome fictício*), de 50 anos, é responsável por trancar 46 presos na Cadeia Pública de Lutécia, no interior de São Paulo. Ele faz o trabalho desarmado, e quase sempre sozinho, há 21 anos. Mas no fim da tarde do último dia 2, feriado de Finados, foi surpreendido e agredido por um detento. Durante cerca de cinco minutos de luta intensa, pensou várias vezes que fosse morrer.

O preso aproveitou o momento em que Mauro trancaria sua cela para sacar uma faca artesanal escondida na calça e atacá-lo. A BBC Brasil teve acesso às imagens da batalha, registrada pelas câmeras de segurança.

Durante a luta, os dois se agarram e rolam no chão. Armado, o detento dá facadas e dispara socos e chutes, enquanto o carcereiro apenas tenta se defender. Mesmo em desvantagem e após ser imobilizado, ele consegue se levantar e agarrar o preso, mas leva uma mordida e perde um pedaço do polegar.

Quatro internos que estavam na cela já aberta pelo carcereiro apenas assistem à cena. Mauro grita desesperado por socorro diversas vezes, mas ninguém ouve.

"Meu parceiro estava fazendo trabalhos administrativos no computador, porque estávamos sozinhos e ele precisava fazer a documentação de todos os presos. Não sei como saí vivo. Digo para meus amigos que renasci no Dia de Finados", conta ele em entrevista à BBC Brasil.

As três facadas mais profundas acertaram seu antebraço, a região da clavícula e o peito. "A dor era muita. Ele deu um chute na minha costela, e quase apaguei. Eu não tinha o que fazer e fiquei me defendendo, enquanto esperava o melhor momento para contra-atacar", conta Mauro.

E, depois de dois minutos de luta, esse momento chegou.

"Ele me deu várias estocadas durante a briga, mas em uma delas a lâmina da faca quebrou no osso da minha costela. Se tivesse furado, acertaria meu coração. Mas, naquela hora, consegui abaixar e pegar o cadeado que estava no chão e usá-lo como um soco inglês", relata o carcereiro.

O funcionário da cadeia usou o objeto para dar dois socos no rosto preso, que caiu atordoado. O tempo de recuperação do detento foi o necessário para o carcereiro fugir e fechar o portão que dá acesso às celas. As imagens não mostram, mas enquanto ele tranca a passagem, o detento ainda dá chutes e socos pelos vãos do portão para tentar impedi-lo. O carcereiro revida, e finalmente a luta chegou ao fim.

Após ter seu plano de fuga frustrado, o detento volta para a frente de sua cela e pega sua faca artesanal. Ele usa a arma para fazer um outro preso como refém. O homem só é libertado após a chegada da Polícia Militar.

Depois de prestar depoimento à Polícia Civil, o responsável pela confusão foi encaminhado para outra unidade da região.

O detento era único cuja presença foi permitida do lado de fora da cela no feriado porque havia sido escolhido para ser o "faxina" da cadeia. Esses presos têm a função de fazer trabalhos como varrer os corredores, distribuir café e colocar as roupas para secar. No dia em que ocorreu o ataque, nenhum outro preso foi liberado para o banho de sol, e apenas o "faxina" seria colocado de volta na cela, pouco antes das 18h.

O saldo para o carcereiro foi de uma costela trincada, parte do dedo arrancado, três facadas e o trauma de não querer entrar na área das celas sozinho novamente. Mesmo com tantos ferimentos, o funcionário ficou apenas quatro dias longe do trabalho.

Ele disse à reportagem que o afastamento poderia prejudicar uma possível promoção na carreira. Ele pretende se aposentar em, no máximo, quatro anos.

Ajuda de outros presos

Além do esforço de resistência para se defender de um homem armado com uma faca, Mauro garante que só escapou da morte porque os companheiros de cela do preso não o ajudaram na tentativa de fuga.

"Quando eu abri o xadrez, os outros (presos) não saíram para me pegar. Eu acredito que isso aconteceu por consideração e respeito. Eu já corri atrás de remédio para vários detentos no meu horário de folga. Eu moro a 40 km do trabalho e já até liguei para a família deles que moram perto de mim para levar medicamentos para controlar o diabetes até a cadeia", conta.

Para revolta do funcionário, o caso foi registrado pelo delegado como lesão corporal.

"Quero saber qual situação seria considerada uma tentativa de homicídio. Está claro que ele (detento) quis fazer um ferimento fatal. O ideal seria investigar o caso como uma dupla tentativa de homicídio, porque ele também tenta matar um preso, além de cárcere privado por fazê-lo de refém", afirma Mauro.

Para ele, o que aconteceu a ele era previsível diante da precariedade de suas condições de trabalho.

"A situação do carcereiro é sem segurança. Todos os presos saem ao meu redor para ir para o banho de sol. Se eles quiserem pegar, eles vão. A gente solta 46 de uma vez só e fica lá dentro desarmado. Eles pegam o carcereiro qualquer dia."

A cadeia pública de Lutécia, dizem agentes ouvidos pela BBC Brasil, recebe presos de mais de 40 cidades da região, referentes a três delegacias seccionais: Assis, Tupã e Marília. Em alguns meses, mais de 300 presos chegam a passar por ali.

Segundo levantamento feito pelo Sifuspesp (Sindicato dos Funcionários do Sistema Prisional do Estado de São Paulo), até maio deste ano 11 agentes penitenciários foram agredidos por detentos em penitenciárias administradas pela Secretaria da Administração Penitenciária do Estado de São Paulo.

O caso do carcereiro agredido em Lutécia, porém, ocorreu em uma cadeia pública administrada pela Secretaria da Segurança Pública de São Paulo.

Procurada, a pasta informou que a Delegacia Seccional de Assis vai apurar o caso. A cadeia pública, segundo o governo, tem capacidade para 60 pessoas e funciona como um local de trânsito, onde os presos aguardam até serem encaminhados para uma unidade do sistema penitenciário.

A secretaria não respondeu aos questionamentos da reportagem sobre a rotina dos carcereiros e sobre a decisão de registrar a ocorrência como lesão corporal, e não tentativa de homicídio.

*O nome do carcereiro foi omitido a pedido dele, para preservar sua segurança.

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