Com humor inocente sem polarização, Whindersson conquista o Brasil e já mira Europa e África

Juliana Gragnani e Lígia Mesquita - Da BBC Brasil em Londres

"Mãe só tem um defeito: ela quer que a gente fale e cale a boca ao mesmo tempo. Mamãe falou: 'O que é isso aqui, Whindersson?'. Eu falei: Mãe, é que... 'Eu mandei você calar a boca!'"

As mil pessoas que lotaram a primeira sessão do show de Whindersson Nunes, de 22 anos, no O2 Forum Kentish Town, em Londres, no último domingo (12), gargalham com essa e outras piadas sobre mães, cachorros, diferença entre rico e pobre, que o piauiense conta no palco por quase uma hora e meia.

Em sua primeira turnê pela Europa, ele segue no palco a mesma fórmula que o ajudou a se tornar o maior youtuber brasileiro: o humor inocente e sem polêmica, quase sempre remetendo à sua infância de hábitos mais humildes no Nordeste.

"No nosso tempo só tinha dois tipos de boneca. A criança rica tinha a boneca que fechava o olho, e a pobre tinha aquela que o olho era pro lado, arregalado", continua ele na apresentação que segue o mesmo roteiro tanto no Brasil quanto no exterior.

Maior influenciador brasileiro, segundo uma pesquisa do Google divulgada em setembro, e dono de um canal no YouTube com 24,7 milhões de assinantes (é mais gente do que a população da Austrália, que tem 24,5 milhões de habitantes), Whindersson e sua equipe viram que havia um filão a ser explorado fora do Brasil depois de apresentações nos EUA e em Portugal, lotando teatros.

Eles fizeram um levantamento de onde o hoje comediante tinha mais fãs na Europa e montaram o roteiro de shows que, além de Londres, incluiu Amsterdã, Dublin, Milão, Paris e Zurique. Em Londres, cada ingresso custava 29 libras (R$ 124). A estratégia deu certo: em seis dias, ele se apresentou para 6.800 pessoas - em Londres e em Paris, precisou fazer sessões extra.

"Tô até animado pro ano que vem como vai ser. Se a gente vai fazer um show por mês fora do Brasil, já pensou? Dá para fazer", diz ele à BBC Brasil. "Tem muita gente da Austrália, do Canadá, da Índia, da África pedindo. E dos países que falam português, Moçambique, Angola. Já estamos vendo de ir para Angola ano que vem."

Nostalgia e saudade de casa

No domingo em que se apresentou em Londres, muitos brasileiros chegaram cedo ao teatro para aguardar a abertura das portas - mesmo tendo lugar marcado. Havia várias babás, faxineiras e motoboys que emigraram para a Inglaterra há alguns anos, em busca de uma vida melhor do que aquela que levavam no Brasil.

A babá Barbara Prata, de 27 anos, diz que acompanha Whindersson há anos. Ela havia comprado o ingresso dois meses antes, assim que soube que o youtuber estaria em Londres. "Ele fala de coisas que remetem à nossa infância, ao Brasil, é um humor simples. Muitas histórias que ele conta, principalmente sobre coisas de rico e de pobre, todo mundo já ouviu, já passou."

Whindersson (pronuncia-se Uindersson) diz achar que seu sucesso fora do Brasil não se deve tanto às suas habilidades cômicas. "Não acredito que seja porque sou eu que venho, mas porque às vezes a pessoa tem saudade de interagir com alguém que ela goste ou que é do Brasil. Acho que ajuda a carência, a saudade do Brasil", fala.

Sobre o fato de usar muitas histórias de infância, e sobre a mãe, é por que esta sempre foi muito presente em sua vida. "A maioria das minhas histórias minha mãe tava junto. E todo mundo tem mãe...E quem não tem mais, já teve e se lembra. E isso é bom, lembrar. Nostalgia é uma coisa engraçada, boa."

Sem polêmicas

O piauiense, que já foi ajudante de garçom e começou a fazer vídeos para a internet há sete anos, diz ter aprendido muita coisa que não dava certo ao longo desse tempo. Como, por exemplo, tentar fazer piada com "coisas que não cabem a mim" - ou seja, entrar em assuntos que dividam opiniões.

"Sou um cara tranquilo, as minhas piadas são sobre a minha vida, nada que saia do meu universo. As vezes que saí do meu universo e falei coisas com religião, com política, a galera muito não aceita", fala. "Tem muito assunto que dá para falar. E não precisa tocar em assuntos delicados. É legal, tem gente que sabe falar melhor desse tipo de assunto, então deixa as pessoas falarem e eu falo do meu jeito, faço minhas piadas de cachorro (risos)."

Ele diz ser tão relaxado e tranquilo que, pensando nisso, escolheu onde moraria na Europa: na Suíça (que acabara de conhecer). "Sou mais quieto, gosto de ficar em casa curtindo. E lá tem um clima gostosinho, né? Tem as gramas verdinhas, as casas bonitinhas, as cachoeirinhas...", fala. "Eu gostei do clima, das pessoas, ninguém fala muito com ninguém, não gostam de abraço. Sou eu mesmo."

À frente do Porta

O canal de Whindersson no YouTube ganhou em um ano mais de 12 milhões de assinantes. Em outubro de 2016, ele passou o do Porta dos Fundos, até então o maior do Brasil, em número de inscritos: na época, o dele tinha 12,65 milhões, contra 12,63 do da trupe de humoristas. Hoje, o Porta tem 13,5 milhões.

Ele acha que conseguiu deixar o Porta para trás porque fala para um maior número de pessoas, para a massa. "É aquela coisa, não gosto de fazer piada com um só tipo de pessoa. O Porta dos Fundos faz muita piada com um tipo de pessoa. São pessoas de senso crítico mais aguçado. Eu sou o cara que ri da besteira. E o meu público ri de besteira", afirma.

"Eu faço muita besteira no palco, muita piada que você fala 'Meu Deus, o que esse cara tá falando?'. E é engraçado. Acho que a massa prefere consumir esse tipo de humor. O Porta dos Fundos já é mais crítico, é o que eu gosto também de assistir, mas acho que é para um público muito selecionado, por isso acho que meu canal é maior."

Para continuar em primeiro lugar, diz que não pensa em mudar nem a linguagem com a qual se comunica com o público nem o conteúdo que passa. E não costuma olhar a concorrência. "Nunca mudei nada (pensando): os youtubers fizeram isso e vou ter que me adaptar. Não, sempre fiz a mesma coisa e tá dando certo. Eu ligo muito para o meu canal, não ligo muito para o dos outros, Continuo fazendo as mesmas coisas que eu faço."

Mesmo assim, ele sabe que não dá para agradar sempre. "Uma hora eu vou decepcionar as pessoas, mas eu pretendo continuar o máximo possível agradando a todo mundo. Eu gosto realmente da massa", diz. "Gosto de todo mundo. Quero que as pessoas saiam do meu show com sentimento de alegria, de 'adorei o show, tô renovado das energias'."

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