Manifestação anti-Lula na av. Paulista tem lágrimas e celebração, mas público minguado

Leticia Mori e Rafael Barifouse - Da BBC Brasil em São Paulo

O locutor de um dos carros de som na avenida Paulista, em São Paulo, quase perdeu a voz ao gritar entusiasmadamente o resultado do julgamento de Lula: o ex-presidente teve a condenação por corrupção confirmada por unanimidade pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) e a pena aumentada para 12 anos e um mês.

Concentrados em frente ao Museu de Arte de São Paulo (Masp), dezenas de manifestantes não chegavam a ocupar um quarteirão da avenida, que teve uma faixa bloqueada no trecho em frente ao museu.

A assistente social Maria Isabel Pascolato, de 70 anos, começou a chorar: "Estou muito feliz. Esse homem é um bandido, ele merece sofrer agora. Pedi isso a Deus... Como Deus é bom...".

Próximo dali, Sidenil Souza, de 63 anos, também chorou ao saber do resultado. Contou ter votado em Lula em 1989, mas mudou de opinião ao saber dos casos de corrupção. "Acabou a impunidade", disse.

Pessoas abraçavam umas às outras. Em grupo, pulavam e cantavam: "Lula na cadeia".

Os ambulantes que esperavam lucrar com a manifestação, no entanto, não estavam tão felizes: reclamavam da falta de público.

"Ontem à noite estava melhor, hoje tá bem devagar" diz o vendedor de pixuleco Alex Ribeiro, de 44 anos. Segundo ele, os colegas que estavam na praça da República, onde se reuniam os apoiadores do ex-presidente Lula, estavam tendo mais sorte. "Mas lá não vende pixuleco, né? Vende capa de chuva, apito vermelho."

"Tem muito vendedor pra pouco público", dizia a ambulante Ednalva Cruz da Silva, que carregava uma caixa com água e refrigerante.

Intervenção Militar

A movimentação havia começado cedo. Apoiadores do Movimento Brasil Livre (MBL), do grupo Revoltados Online e do deputado federal Jair Bolsonaro (PSL-RJ) chegaram pouco depois do início do julgamento no TRF-4, às 8h30.

"Está dois a zero, mas vai ser três a zero", apostava pouco antes da conclusão do julgamento a advogada Francine Rana, de 47 anos, que afirmava ter sido a primeira a chegar, às 9h. "Demorou para o Lula ser condenado. É um exemplo de justiça e moralidade para o povo brasileiro."

Ao lado da advogada, o militar Amarildo Santos, de 53 anos e vestido com roupa camuflada, ajudava a desenrolar uma grande bandeira em que se lia: "Lula na cadeia", uma frase proferida incansavelmente por muitos ali.

"Lula tem que pagar pelos crimes que cometeu. Ele, Dilma e todos os comunistas que estão levando adiante a degradação do país e tentando acabar com nossa identidade", disse Santos.

A alguns metros de distância, outros manifestantes exibiam uma faixa com a qual pediam uma intervenção militar.

Hino

Quando os locutores se cansavam, tocavam o hino nacional - que foi reproduzido mais de vinte vezes ao longo do dia.

Os líderes do MBL demoraram mais do que o previsto para aportar no Masp, deixando integrantes incomodados com o fato de que manifestantes com posturas mais radicais estivessem chamando tanta atenção.

Boa parte das pessoas ao redor dos carros de som eram fotógrafos e jornalistas cobrindo o evento, policiais monitorando o movimento, vendedores de bebidas e souvenires e curiosos.

Teve até uma manifestante que se confundiu. A chilena Mabel Aranciba queria estar na praça da República com os apoiadores de Lula - e perguntava sobre "como chegar lá".

"Quero protestar contra o movimento imperialista que deseja acabar com as reformas sociais e a democracia, como aconteceu no Chile em 1973", disse a turista.

Após o anúncio da votação no TRF-4, o público foi ficando ainda mais ralo. Nem os dirigentes do MBL (Movimento Brasil Livre) ficaram até o fim. O carro de som onde eles estavam na hora da condenação já estava vazio antes das 19h e foi ocupado por algumas crianças.

A tropa de choque da Polícia Militar também passou longe. Até as 19h30, os caminhões da divisão estavam bem no fim da avenida, aparentemente esperando os manifestantes pró-Lula subirem pela rua da Consolação.

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