Talebã já ameaça 70% do território do Afeganistão

Shoaib Sharifi e Louise Adamou - Da BBC News em Cabul

Bilhões de dólares já foram gastos pela coalizão que há 17 anos tenta derrotar o Talebã, grupo que governou o Afeganistão entre 1996 e 2001 e que acolheu Osama Bin Laden.

Estima-se que só os Estados Unidos, que comandaram a ação das tropas estrangeiras a partir daquele ano, tenham desembolsado US$ 17 bilhões. Tamanho esforço bélico e financeiro, contudo, não conseguiu conter o avanço do grupo que, atualmente, está ativo em 70% do país.

É o que indica levantamento feito pela BBC, que mapeou áreas do Afeganistão que estão sob ameaça ou sob o comando do Talebã desde a retirada das tropas estrangeiras em 2014 - os EUA ainda matêm, contudo, militares no país.

O governo afegão minimizou o levantamento, dizendo que controla a maioria das áreas. Mas ataques recentes reivindicados pelo Talebã e pelo grupo autodenominado Estado Islâmico, com centenas de vítimas, dão indicativo da força que ainda têm esses grupos.

Em resposta, tanto autoridades afegãs quanto os Estados Unidos têm descartado a possibilidade de diálogo. No ano passado, Trump anunciou que as tropas americanas ficariam no país sem previsão de retirada.

O levantamento levou em conta ataques registrados entre agosto e novembro de 2017, e retrata a situação de segurança em cada um dos 399 distritos do Afeganistão.

Repórteres da BBC entrevistaram mais de 1,2 mil pessoas de todos os distritos para fazer uma análise mais aprofundada dos ataques registrados no país no período.

As conversas foram feitas pessoalmente ou por telefone, e todas as informações coletadas foram checadas com pelo menos duas ou até com seis fontes diferentes. Em alguns casos, repórteres da BBC foram a estações rodoviárias para encontrar pessoas viajando de e para regiões remotas e distritos de difícil acesso na tentativa de confirmar a situação narrada pelos entrevistados.

Os resultados desse levantamento mostram como 15 milhões de pessoas, o equivalente a metade da população, estão vivendo em áreas controladas pelo Talebã ou em locais onde o grupo atua abertamente e comanda ataques regulares.

O levantamento indica de forma clara como o Talebã avançou do sul, seu tradicional reduto, em direção ao leste, oeste e norte do país.

Desde 2014, o Talebã vem ampliando o controle de áreas da província de Helmand como Sangin, Musa Qala e Nad-e Ali, locais onde as forças estrangeiras haviam desbancado o grupo em 2001. Mais de 450 militares britânicos morreram em Helmand entre 2001 e 2014.

"Quando eu saio de casa, não sei se vou voltar vivo", diz Sardar, de Sjondand, um distrito a oeste que tem sofrido ataques semanais. "Explosões, terror e o Talebã são parte do nosso dia a dia".

O levantamento da BBC também indica que o Estado Islâmico está mais ativo no Afeganistão, apesar de ter menos poder que o Talebã.

Qual fatia do território está nas mãos do Talebã?

A coleta de dados precisos e confiáveis sobre o conflito no Afeganistão tem ficado cada vez mais difícil desde que as tropas estrangeiras deixaram o país e que as estatísticas ficaram sob a responsabilidade das forcas de segurança afegãs.

Avaliações anteriores da força do Talebã nem sempre levavam em conta informações de todos os quase 400 distritos do país, e muitas vezes eram criticadas por estarem subestimando a realidade.

O levantamento da BBC mostra que atualmente o Talebã controla 14 distritos (4% do país) e tem presença ativa e declarada em outras 263 áreas (66% do território). Isso significa uma proporção mais elevada do que qualquer outra estimativa já feita sobre a força do grupo extremista.

Nessas áreas onde há presença ativa, são frequentes os ataques contra o governo, desde ações coletivas em bases militares a emboscadas ou atos direcionados em comboios ou pontos de controle oficiais.

No período analisado, ataques foram contabilizados com graus de frequência variados. Há desde áreas com uma presença mais esparsa do Talebã, que registraram um ataque a cada três meses, até locais com maior atuação do grupo, que sofrem pelo menos dois ataques por semana.

Por questões metodológicas, definiu-se que os distritos controlados pelo governo são os que têm chefe, comandante da polícia ou corte que representam Cabul - sede do governo.

Amruddin, que comanda uma empresa de transporte local, mora em Baharak, região classificada pela BBC como nível médio em relação à presença do Talebã. Ele também narra a rotina diária de tensão, em especial porque vive perto da área de confronto.

"Quando o governo começa a lutar contra o Talebã, estamos na linha de fogo cruzado, deixando a vida em suspenso. Está calmo no momento, mas o Talebã ainda está aqui".

Em Sangin, área controlada pelo grupo, Mohammad Reza, pai de oito filhos, diz que a vida é melhor porque há paz.

"Só ficou violento quando as forças governamentais chegaram".

A BBC identificou 122 distritos, o equivalente 30% do Afeganistão, que não tinha uma presença aberta do Talebã. Essas áreas foram classificadas como controladas pelo governo, mas isso não significa que estão livres de violência.

Cabul e outras cidades grandes, por exemplo, têm sofrido ataques massivos perpetrados a partir de áreas adjacentes ou pelas chamadas células adormecidas - isso aconteceu não apenas durante o período analisado, mas também antes e depois.

"As pessoas não têm outra opção senão abandonar suas casas, fazendas, ranchos ou viver sob o domínio talebã", diz uma professora de um distrito no norte de Cabul.

Ela disse que a família saiu da vila em outubro. Foram buscar refúgio no centro do distrito, área ainda controlada pelo governo. Mas seu irmão acabou morto em um ataque de um homem-bomba dois dias depois da mudança.

Do lado oeste da capital, Jamila, mãe de cinco, diz: "Dois foguetes talebãs caíram nos fundos do nosso jardim no mês passado. Moramos a poucos metros do escritório do chefe do distrito. Não é seguro aqui", relata.

A apuração também revelou que o Talebã passou, subitamente, a cobrar taxas dos moradores das áreas onde controla. Os extremistas forçam fazendeiros, comerciantes locais e até quem transporta mercadorias a pagar taxas, apesar de deixar o governo no controle de serviços básicos como escolas e hospitais.

"Eles estão cobrando pessoas pela energia elétrica que a gente fornece", diz o chefe de um dos distritos no sul do país.

O levantamento feito pela BBC foi avaliado pela Rede de Analistas do Afeganistão, organização de pesquisa sem fins lucrativos baseada em Cabul. A co-diretora da entidade, Kate Clark, disse ser tão bem vinda quanto rara "uma pesquisa tão bem apurada sobre a guerra afegã".

"As descobertas são chocantes, mas infelizmente não nos surpreendem. São verdadeiras e o mapeamento sobre a extensão do conflito é preciso", avaliou Clark.

"Mas é incômodo perceber que cada ponto laranja no mapa se traduz em vidas perdidas e prejudicadas".

O que é o Talebã?

- Grupo islâmico que atua no Afeganistão e Paquistão

- Surgiu a partir de tribos que vivem na fronteira entre os dois países, depois da ocupação soviética do Afeganistão (1979-89)

- A "linha dura" talebã assumiu o comando do Afeganistão em 1996 e foi afastada do poder cinco anos depois pela ação comandada pelos EUA

- No poder, o Talebã impôs uma interpretação radical da "sharia", a lei islâmica, com execuções públicas, amputações e mulheres banidas da vida pública

- Homens foram obrigados a usar barbas e mulheres, a vestir burcas cobrindo todo o corpo. Televisão, música e cinema foram proibidos.

- O Talebã deu abrigo aos líderes da al-Qaeda antes e depois de terem sido afastados do poder e, desde então, têm lutado na tentativa de recuperar poder e território

Qual o nível de violência nas cidades?

A violência tem aumentado desde que as tropas internacionais deixaram o país há três anos. Mais de 8,5 mil civis foram mortos ou feridos nos nove primeiros meses de 2017, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU). As estatísticas oficiais que contabilizam o total de vítimas no passado ainda não foram divulgadas.

A maioria dos afegãos morre nos ataques dos insurgentes, mas também sofre com as contraofensivas apoiadas pelos americanos, com operações tanto por terra quanto por ar.

Boa parte dos atos de violência não é reportada, mas os ataques maiores nas médias e grandes cidades ganham as manchetes. A frequência desses ataques está aumentando e as forças de segurança afegãs parecem enfrentar dificuldade para contê-los.

Durante a coleta de dados feita pela BBC, homens armados invadiram a sede da TV Shamshad de Cabul, deixando um integrante da equipe morto e 20 feridos. O Estado Islâmico reivindicou o ataque. Houve outras ações violentas em Kandahar, Herat e Jalalabad.

Nos últimos 10 dias deste mês, três ataques deixaram mais de 130 pessoas mortas. Em maio passado, Cabul experimentou o mais fatal ataque perpetrado por único combatente desde 2001, com 150 mortos e mais de 300 feridos. Nessa ação, um caminhão bomba explodiu onde deveria ser a parte mais segura da cidade. Nesse caso, contudo, nenhum grupo reivindicou autoria.

Mas a onda de violência crescente deixa os moradores da capital vulneráveis.

Quão forte é o Estado Islâmico na região?

Diferentemente do Talebã, o Estado Islâmico tem atuação restrita a uma área relativamente pequena próximo à fronteira com o Paquistão. Ainda assim, tem dado mostras de que pode atingir seus alvos em lugares como Cabul.

Durante o levantamento conduzido pela BBC, pelo menos 50 pessoas morreram em Jalalabad. Algumas das vítimas foram mortas a tiros e outras vítimas de explosões. Três foram decapitadas, uma marca do EI.

"Meu tio foi morto na porta de casa", disse o comerciante Mashriqiwal. "Ele era um oficial de segurança na cidade. Eu tive que sair de Jalalabad", conta. "Minha casa ainda está lá, mas virou um lugar perigoso demais para morar e para ir a lugares públicos", observa o comerciante.

Moradores e autoridades locais com quem a BBC conversou disseram que o EI está presente em 30 distritos, não apenas no leste, mas em lugares mais ao norte como Khanabad e Kohistanat.

O grupo tem lutado tanto contra o exército afegão quanto contra o Talebã por território.

Em 2017, o número de ataques atribuídos ao EI cresceu. A maioria deles tinha como alvos centros urbanos e muçulmanos xiitas, em ações sectárias quase nunca vistas em 40 anos de conflitos no Afeganistão.

O EI, no entanto, não tem controle absoluto de nenhum distrito no momento. Mas o grupo já conseguiu ocupar território no norte do distrito de Darzab, expulsando centenas pessoas de casa.

O que diz o governo local?

Ao ser confrontado com os dados coletados pela BBC, Shah Hussain Murtazavi, porta-voz do presidente Ashraf Ghani, declarou: "Algumas áreas dos distritos podem ter mudados de mão, mas, se você olhar a situação nos anos de 2017 e 2018, as atividades do Talebã e do EI reduziram consideravelmente".

Segundo o porta-voz, as forças de segurança afegãs têm ganhado a guerra nos vilarejos. "Não é mais possível que os combatentes assumam o controle de uma província, um distrito ou de uma rodovia. Não resta dúvidas que eles mudaram a natureza da guerra e passaram a atacar Cabul, mesquitas e mercados", disse.

Murtazavi afirmou ainda que o levantamento da BBC foi influenciado por conversas com pessoas que podem ter sido vítimas de incidentes, "talvez em algum momento um dia". "Mas as atividades conduzidas e serviços prestados pelos nossos administradores locais nos distritos mostram que o governo está no controle na maioria absoluta das áreas. A exceção é um número pequeno de áreas onde o Talebã está presente", salientou o porta-voz.

Entretanto, em uma sinalização de que a situação da segurança no país tem se deteriorado, o presidente Donald Trump enviou no ano passado outros 3 mil soldados ao Afeganistão. Com o reforço, o efetivo americano no país chegou a 14 mil.

O tema das vitórias militares e de quem está controlando o território afegão é controverso.

Na véspera da publicação do levantamento da BBC, militares dos EUA negaram tentar impedir que um órgão de fiscalização do governo local divulgasse a estimativa oficial de quanto do território está sob controle do Talebã. Em relatório, a Inspetoria Geral para a Reconstrução do Afeganistão (Sigar, na sigla em inglês) definiu essa possibilidade como preocupante.

Enquanto isso, não há previsão de um fim do conflito na região. Uma nova geração de afegãos cresce ameaçada pela violência.

"Minhas crianças não estão seguras fora de casa, então não os deixo sair", disse Pahlawan, vendedor de tapetes em Cabul que tem 13 filhos. "Eles basicamente estão presos em casa. Montei uma escola em casa. O mundo deles é de paredes e tapetes. Apesar de estarmos em Cabul, é como se fosse uma selva".


Relato: 'Vou voltar para casa hoje?'

Karim Haidari, serviço afegão da BBC, Cabul

'Não tenho dormido bem nessa semana. Acontece toda vez que uma tragédia ocorre na nossa cidade. Meu filho de 7 anos entra no meu quarto e me fala que estou mais velho, lembrando-me de que é o dia do meu aniversário. Como se eu fosse esquecer. Rio e me levanto da cama.

Quando eu saio de casa, paro para olhar para trás e ver minha família tomando café da manhã. Vou voltar para casa hoje? Essa é a última vez que vou vê-los? Todos nós pensamos assim em Cabul atualmente.

Meus colegas da BBC estão me esperando no carro. Trocamos informações sobre os últimos ataques. Um deles, uma mãe de duas crianças pequenas começa a chorar. Diz que às vezes gostaria de explodir para acabar com tudo de uma vez por todas. Mas não quer machucar ninguém.

Digo a ela que podemos buscar ajuda. Mas ela não me ouve. O motorista está trocando de estação de rádio, na tentativa de melhorar o clima. Uma música pop com letra sem sentido começa a tocar. É só mais um dia em Cabul. Apenas mais um dia em que a gente espera que vai sobreviver.'


Os nomes de alguns dos entrevistados foram alterados para proteger suas identidades.

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