'O Vaticano está nos vendendo': por que a aproximação entre o papa e Pequim desagrada os católicos da China

Guillermo D. Olmo - BBC Mundo

  • David Gray/Reuters

    Padre católico chinês realiza missa em Tianjin, a 70 km de Pequim

    Padre católico chinês realiza missa em Tianjin, a 70 km de Pequim

De um lado, o menor Estado do mundo, que diz estar baseado no poder de Deus. De outro, a superpotência mais populosa do mundo e um Estado oficialmente ateu. O Vaticano e a República Popular da China têm uma relação difícil há muito tempo.

O vínculo entre os países se rompeu em 1951, após a vitória da Revolução Cultural de Mao Tsé Tung, que não reconheceu a autoridade do papa.

A China de Mao, desconfiada da presença de poderes estrangeiros, dediciu nomear seus próprios bispos e expulsar missionários forasteiros, vistos como agentes "do imperialismo ocidental".

Desde então, convivem no país duas igrejas: a Associação Católica Patriótica, controlada pelo governo, e vertente leal ao Vaticano - que funciona na clandestinidade, porque o governo não a reconhece.

O conflito faz com que o Vaticano e Pequim disputem há anos a prerrogativa de nomear os bispos do país. Agora, no entanto, as coisas parecem estar a ponto de mudar.

Uma fonte do Vaticano disse recentemente à agência de notícias Reuters que um acordo sobre a designação dos bispos deve ser assinado nos próximos meses.

Será um passo no caminho do reestabelecimento das relações diplomáticas nas quais o Vaticano vem apostando há anos. Mas não é o fim da polêmica.

Alguns católicos estão protestando, porque, com sua nova política, o papa "corre o risco de trair a memória de quem sofreu e morreu por lealdade a Roma", segundo análise da jornalista Carrie Gracie, que atuou como editora da BBC na China até o início deste ano.

Yang Fenggang, diretor do Centro para Religião e Sociedade Chinesas da Universidade Perdue de Indiana, nos Estados Unidos, diz que "há alguns sacerdotes e bispos leais ao Vaticano que estão em prisão domiciliar".

Organizações como a Anistia Internacional acusam as autoridades chinesas de "intimidar e até aprisionar" os católicos e classifica como "perseguição" a atitude das autoridades.

Um dos que se sentem traídos é o cardeal Joseph Zen, de 86 anos, arcebispo de Hong Kong. "Se acredito que o Vaticano está vendendo a comunidade católica na China? Definitivamente sim", escreveu em seu perfil do Facebook.

Não é a primeira vez de Zen levanta a voz contra a política da Santa Sé - e ele não é o único a fazer isso. O padre Dong Guanhua, diretor espiritual de uma comunidade de fiéis em Hebei, se nega a ir aos templos tolerados pelo Estado.

"Não apoio o acordo. O governo não vai mudar sua política de controle das igrejas, porque essas negociações não significam nada", disse à BBC.

Questionado sobre o que diria ao papa se pudesse encontrá-lo pessoalmente, respondeu: "Que tenha cuidado."

O arcebispo Guo Xijin, a quem o Vaticano pediu que se submeta à autoridade do Estado chinês, afirma que respeitará o acordo, mas alerta que Pequim não deverá respeitar a liberdade dos católicos.

Em um comunicado, o Vaticano lamenta que haja vozes dentro da Igreja "fomentando a confusão e a controvérsia".

Segundo Gracie, o papa está fazendo todo o possível para que o diálogo tenha êxito. "Também está tendo muito cuidado para evitar criticar a China sobre a questão de liberdade religiosa e dos direitos humanos", diz ela.

O governo chinês diz que promove e respeita a liberdade de culto.

Negociação

Os acenos do papado à China recentemente começaram a gerar um eco cordial de Pequim

Um editorial do jornal Global Post, de propriedade do Partido Comunista Chinês, elogiou a sabedoria do papa Francisco como uma qualidade que ajudaria a superar os diferenças entre os países.

Depois disso, Peter Shao Zhumin, arcebispo nomeado pelo papa, foi libertado pelas autoridades chinesas após ter ficado sete meses preso.

Outro sinal da aproximação são as duas exposições simultâneas que estão planejadas na Cidade Proibida de Pequim e no Museu do Vaticano - os dois países trocaram obras para esse projeto.

A televisão estatal chinesa destacou o papel da "diplomacia da arte".

Ficaram para trás os tempos em que o governo chinês impedia o avião do pontífice de atravessar seu espaço aéreo em suas viagens, como aconteceu com João Paulo 2º em 1995.

Mas os entraves ainda são muitos. Segundo Yang, "o Partido Comunista está particularmente preocupado com o catolicismo, porque ele tem uma estrutura hierárquica e é percebido como uma organização forte que poderia ter um impacto na China".

"Outro grande obstáculo é Taiwan", diz Yang Fenggang.

Depois do triunfo do comunismo maoísta, muitos dos católicos chineses partidários do exército nacionalista derrotado de Chiang Kai-Shek se refugiaram em Taiwan.

O Vaticano é o único Estado europeu que mantém relações diplomáticas oficiais com Taiwan, que Pequim reivindica como parte da China.

Fiel ao lema da "China Unida", Pequim não aceita ter relações diplomáticas com países que as mantenham com Taiwan.

É um limite que o papa terá dificuldade de ultrapassar. O Sumo Pontífice tem o desafio de explicar um acordo com a China comunista à comunidade católica taiwanesa.

Desde Bento 16

As atitudes da Igreja para se reaproximar da China começaram na época do papa Bento 16, mas Francisco acelerou o processo. Por que ele faz isso diante de tantos problemas?

"A China é muito importante na visão do papa sobre a Ásia", destaca Francesco Sisci, pesquisador da Universidade de Renmin, na China.

"A Igreja Católica é uma exígua minoria em quase todos os países asiáticos, menos de 1% da população na China. Mas a Ásia concentra cerca de 60% da população global e é também a parte do mundo que cresce mais rápido economicamente."

Segundo Sisci, a Igreja está diante de um desafio crucial. "Ou conquista uma presença na Ásia ou estará falhando em sua missão de ser uma igreja universal."

As várias viagens do Papa à região atendem a esse interesse.

O conteúdo do acordo para a designação dos arcebispos não foi divulgado, mas é certo de que se trata de um ponto importante na tentativa de aproximação.

Segundo a Reuters, o Vaticano estaria disposto a reconhecer a autoridade da Igreja oficial chinesa em troca de ter a voz ouvida no processo de nomeação de novos bispos no país.

O cardeal Zen afirma que o que o Vaticano está fazendo com os católicos da China é "empurrá-los para uma gaiola de pássaros".

A alta fonte do Vaticano citada pela Reuters vê de outra forma: "Continuaremos sendo um pássaro em uma gaiola, mas ela será maior."

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