Por que interessa à China evitar uma guerra comercial com os EUA

Cecilia Barría - BBC Mundo

Como em qualquer guerra, haverá vítimas de ambos os lados.

Mas num conflito comercial em grande escala entre China e Estados Unidos, o gigante asiático pode sair mais "machucado", já que as exportações aos norte-americanos são chave para o modelo de crescimento chinês.

O superávit comercial a favor da China (calculado em cerca de US$ 347 bilhões por ano) seria duramente afetado por uma escalada protecionista entre as duas maiores economias do mundo.

Por isso, alguns especialistas alertam que Pequim teria mais a perder que Washington.

"Potencialmente, a China está muito mais exposta. Por isso, quer negociar uma saída a este enfrentamento", diz Stephen McDonell, correspondente da BBC em Hong Kong.

Até agora, China e Estados Unidos parecem estar jogando as cartas previstas num conflito que, se continuar a se agravar, pode detonar uma recessão econômica global, segundo advertiu o diretor-geral da Organização Mundial de Comércio (OMC), Roberto Azevedo.

A China anunciou, na segunda-feira, tarifas de entre 15% e 25% a 128 produtos norte-americanos, entre os quais alumínio, carne de porco, nozes, vinho e frutas. As novas taxas afetam um valor total de US$ 3 bilhões em produtos exportados à China pelos EUA.

A medida veio em resposta à decisão do governo Donald Trump de aumentar tarifas sobre aço e alumínio chineses. Mesmo assim, a Casa Branca criticou a retaliação.

"Em vez de atingir produtos americanos exportados de forma justa, a China precisa acabar com as práticas comerciais anticompetitivas que estão ameaçando a segurança nacional dos Estados Unidos e distorcendo os mercados globais", afirmou a porta-voz do governo Lindsay Walters.

Ela ainda acrescentou que com subsídios aos produtores de aço e o excesso de oferta a China estão criando uma crise no setor.

Antes de anunciar o aumento das tarifas, a China disse que gostaria de evitar uma guerra comercial, mas destacou que reagiria à altura se sua economia fosse atacada pelos EUA.

Trump, por sua vez, usou o Twitter para dizer que guerras comerciais podem ter efeitos positivos e afirmar que os Estados Unidos têm condição de se sair bem dessas disputas.

'A China tem mais a perder'

Segundo William Alan Reinsch, pesquisador do Centro de Estudos Estratégicos Internacionais, com sede em Washington, e ex-presidente do Conselho de Comércio Exterior dos EUA, a China prefere negociar porque "potencialmente tem mais a perder" numa Guerra comercial já que "vende mais aos Estados Unidos do que compra".

"A China é uma economia mais dependente das exportações e, portanto, teme pela estabilidade do sistema comercial global", complementa Barry Eichengreen, professor de Economia e Ciência Política da Universidade da Califórnia.

Segundo ele, o país asiático está mais vulnerável a uma guerra comercial "estilo olho a olho" que acabe freando o comércio bilateral entre os dois países.

Isto explicaria os aparentes esforços de Pequim para convencer os demais atores econômicos a preservar o atual sistema e evitar uma batalha comercial de proporções internacionais.

Em um terreno mais político, Eichengreen comenta que convém à China conseguir frear a guerra comercial, para demonstrar sua "liderança global" e reputação como "um sócio confiável".

O fator de consenso entre os especialistas, porém, é a dependência da economia chinesa ao mercado consumidor norte-americano.

"Pelo menos até que a China consiga encontrar mercados alternativos para suas exportações", comenta Raj Bhala, da escola de Direito da Universidade do Kansas.

"As consequências econômicas negativas para a China significam consequências políticas negativas para o Partido Comunista chinês", acrescenta.

'O roubo de propriedade intelectual'

Nesta semana, a Casa Branca tornará pública uma lista com produtos chineses que serão afetados por novas taxas. A taxação servirá para "punir Pequim" pelo que Trump classificou de "tremendo roubo de propriedade intelectual".

Nesta lista, estariam, principalmente, "produtos de alta tecnologia". A China advertiu os Estados Unidos para que não "abra a caixa de Pandora" e gere uma onda de práticas protecionistas ao redor do mundo.

É provável que o governo de Xi Jinping faça tudo o que estiver ao seu alcance para esfriar as tensões antes de responder com medidas de maior alcance.

Outra via diplomática corre em paralelo às negociações bilaterais. Segundo especialistas, a China está apostando as cartas em juntar esforços com outros países para deter a explosão protecionista que Trump parece empenhado em promover.

A questão é que qualquer movimento em falso pode ter repercussões em diferentes partes do planeta, considerando que a arquitetura econômica e financeira do mundo hoje está cada vez mais interdependente e sincronizada.

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