7 pontos para ficar de olho no depoimento de Zuckerberg ao Congresso dos EUA

Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, está se preparando para o que deve ser seu maior desafio público como diretor-executivo da mais popular rede social do mundo: participar de uma maratona de dois dias de audiências no Congresso dos Estados Unidos para explicar o escândalo envolvendo o uso indevido de dados de 87 milhões de pessoas.

Nesta terça, ele será sabatinado por representantes dos Comitês de Justiça e Comércio do Senado dos EUA e, na quarta, por membros do Comitê de Energia e Comércio da Câmara dos Representantes (equivalente à Câmara dos Deputados brasileira). Esta é a primeira vez que ele fala publicamente frente a um órgão governamental sobre o caso.

Para muita gente, essas sessões nada mais são que teatro político, nas quais muitos congressistas aproveitam para aparecer na televisão criticando ricos e poderosos. As audiências estão sendo encaradas, contudo, como uma rara oportunidade de ver Zuckerberg falar abertamente sobre a empresa, sem filtros diretos da equipe de relações públicas ou de mensagens intermediadas pelos representantes da rede social.

Uma prévia do depoimento que ele fará nesta quarta-feira já foi divulgada. Antes das perguntas de deputados e senadores, ele falará sobre o escândalo envolvendo a consultoria britânica Cambridge Analytica, acusada de coletar e usar dados de usuários da rede social, da suposta influência russa nas eleições dos EUA por meio do Facebook e o que a empresa está fazendo para prevenir futuros incidentes.

No texto, o fundador da rede social pede desculpas. "Está claro agora que não fizemos o suficiente para evitar que essas ferramentas fossem usadas de forma danosa. Isso vale para notícias falsas, interferência estrangeira em eleições e discursos de ódio, assim como desenvolvedores (de softwares) e privacidade de dados."

A BBC preparou uma lista com sete itens para ficar de olho durante os dois dias de audiências de Zuckerberg no Congresso americano.

1. O lado bom do Facebook

Comunidade. Essa é uma palavra que certamente o diretor-executivo do Facebook vai repetir muito nas audiências. Mark Zuckerberg vai abrir seu depoimento salientando as coisas boas que a rede social trouxe para o mundo.

E ele tem razão, se pensarmos que o Facebook nos ajuda a organizar o mundo real. Com a rede social muita coisa ficou mais fácil, de marcar uma festa de aniversário a organizar um protesto. A ferramenta também ajudou a compartilhar fotos e vídeos, além de encontrar pessoas em diferentes lugares do mundo.

Zuckerberg também pretende falar como o Facebook é usado por pequenas empresas para atingir clientes de forma rápida, eficiente e barata. Nas entrelinhas, ele está tentando dizer que, ao reprimir a rede social, milhares de outros negócios podem ser afetados.

2. Comportamento normal

Aos 33 anos, Zuckerberg não é um executivo que fica numa sala. Ele sabe programar tanto quanto seus melhores engenheiros e, por isso, é capaz de explicar exatamente como a empresa funciona. Muitos analistas acreditam que o maior desafio do fundador do Facebook nesses dois dias vai ser mostrar que é uma pessoa absolutamente normal, com algum grau de arrependimento - ainda que, no fundo, ele acredite que os usuários da rede que ele criou tenham, voluntariamente, desistido de preservar seus próprios dados.

Uma esquete do programa de humor Saturday Night Live mostrou, no sábado passado, um Zuckerberg agitado, que contou piadas ruins e ensaiadas e contava os segundos para manter contato visual e, assim, transparecer ter um comportamento normal.

O Zuckerberg verdadeiro tem feito força para parecer mais compassivo. Um vídeo caseiro dele, quando adolescente, o mostra meio robótico, postura que pode prejudicá-lo nas audiências no Congresso.

Analistas acreditam que uma ou duas anedotas sobre a família, por exemplo, pode ajudar nesse sentido. Em entrevista recente à CNN, ele deixou transparecer um lampejo de emoção genuína quando falava sobre a influência que seus dois filhos tiveram em sua vida.

O lado paternal de Zuckerberg pode ajudar a deixar para trás a imagem do aluno de Harvard que criou um dos mais lucrativos negócios do mundo e que notoriamente tinha opiniões infelizes sobre a privacidade do usuário

3. Colocar a culpa em Aleksandr Kogan

É importante levar em conta que, enquanto o Facebook admitiu erros em relação à própria política de dados, a empresa afirma que a culpa maior do uso indevido de informações dos usuários é do pesquisador da Universidade de Cambridge Aleksandr Kogan.

Foi Kogan quem criou o teste de personalidade para coletar dados supostamente usados pela Cambridge Analytica para fins políticos. E foi a empresa de consultoria que disse ter excluído os dados quando aparentemente não tinha deletado as informações coletadas.

Zuckerberg trilhará uma linha tênue entre ressaltar aos políticos que os sistemas do Facebook foram usados de forma indevida, enquanto tenta não parecer estar tentando se isentar da responsabilidade.

4. Envolver outras companhias

Antes de as audiências no Congresso norte-americano terem sido marcadas, os legisladores tentaram colocar os chefes do Google e do Twitter ao lado de Zuckerberg. Seria um sinal de que a maioria dos problemas a serem abordados não é exclusiva do Facebook e pode ser compartilhada com as outras redes sociais.

Também houve bastante propaganda russa no Twitter, por exemplo. Mas, por ora, o Facebook está sozinho na defesa pública de que tem se esforçado para impedir que as informações de seus usuários sejam usadas indevidamente.

Isso não vai impedir Zuckerberg, entretanto, de tentar atrair outras empresas de tecnologia para esse debate, mesmo que não explicitamente pelo nome.

O Facebook não foi a primeira empresa a ganhar bilhões com a coleta de dados pessoais e não será a última.

5. Políticos exibidos e perguntas fracas

"É uma pergunta simples, sim ou não?". Essa é uma frase que muitos políticos fazem nesses tipos de audiências. Nem sempre, contudo, são perguntas eficazes. Há muitos deputados e senadores mais interessados em aparecer na televisão ou ter um clipe "viral" no Facebook que, de fato, saber detalhes da política de proteção de dados do Facebook e o que a empresa tem feito para evitar o mau uso dos dados de seus usuários.

Às vezes, frases de efeito ou essa abordagem mais exibida dos congressistas levam a perguntas ruins e também a respostas que não são verdadeiras.

Há quem esteja apostando que alguém vai perguntar se o diretor-executivo do Facebook pode garantir nunca vai vender os dados dos usuários e a resposta vai ser um "claro", em alto e bom som, sendo que a rede social jamais comercializou os dados, apenas concede acesso ou permitiu a coleta deles.

6. A ausência de debate sobre regulação

Há uma grande expectativa de que Zukerberg cite um projeto de lei que propõe aumentar a transparência da propaganda política na internet, de forma que fique mais parecido com o que já acontece hoje na televisão nos EUA.

Falar sobre essa legislação é uma deixa para que o diretor-executivo do Facebook diga que está aberto à regulação do governo, ao mesmo tempo que é encarada como uma tentativa de a empresa evitar mudanças na forma como é controlada.

As propostas do projeto estão alinhadas com as mudanças que Zuckerberg já implementou no Facebook. Mas são muito poucas as chances de o debate sobre regulamentação das redes sociais avançar durante as audiências com ele.

7. Decreto de consentimento

A Comissão Federal de Comércio (FTC, na sigla em inglês) está investigando se o Facebook violou um decreto de consentimento assinado em 2011. Trata-se de um documento que detalha formas de cuidar de certos dados, elaborado depois que a FTC entendeu que as pessoas pensavam e supunham que estavam apenas tendo suas respectivas informações sendo compartilhadas entre amigos.

O Facebook concordou em não "deturpar de qualquer maneira, expressa ou implicitamente" como os dados coletados seriam usados. A empresa também prometeu ser absolutamente franca com os usuários sobre como eles podem controlar de forma proativa e reativa como seus dados privados estão sendo usados.

A partir do escândalo da Cambridge Analytica, é possível que legisladores tenham o interesse em perguntar se Zuckerberg cumpriu o compromisso firmado com a FTC e de que forma.

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