As acusações que fizeram Marco Polo Del Nero ser banido do futebol pela Fifa

Renata Mendonça - Da BBC Brasil em São Paulo

O ex-presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) Marco Polo Del Nero foi banido de vez do futebol pela Fifa em comunicado divulgado nesta sexta-feira. Segundo a entidade, o cartola brasileiro foi afastado de todas as atividades no esporte por ter sido considerado culpado de acusações envolvendo "suborno e corrupção", "oferecer e aceitar presentes e outros benefícios", "conflitos de interesse" e por ter violado "regras gerais de conduta" do Código de Ética da Fifa.

Del Nero foi banido pela primeira vez do futebol ainda em dezembro do ano passado, quando a Fifa o suspendeu por 90 dias - com isso, ele foi obrigado a deixar a presidência da CBF, cargo para o qual foi eleito em 2014. Depois disso, a entidade estendeu a suspensão dele por mais 45 dias até anunciar o banimento total do futebol "para sempre" nesta sexta-feira.

O "pesadelo" do cartola brasileiro começou três anos atrás, quando estourou o chamado "Fifagate", o escândalo que abalou as estruturas da maior entidade do futebol mundial. Em maio de 2015, sete dirigentes da Fifa (incluindo o outro ex-presidente da CBF, antecessor de Del Nero, José Maria Marin) foram presos na Suíça e levados para os Estados Unidos, onde seriam julgados pelo Departamento de Justiça americano.

Naquele momento, o nome de Del Nero ainda não era citado diretamente nas acusações, mas a partir dali ele passou a temer pelo seu futuro no futebol - e, desde então, nunca mais deixou o Brasil.

Em competições internacionais, como as duas edições da Copa América que aconteceram desde então e outros amistosos da seleção brasileira, o então presidente da CBF optou por não acompanhar a equipe, como era de praxe dos outros mandatários da entidade (e até mesmo dele antes do escândalo). Críticos alegam que ele tenha tomado essa atitude por medo de ser preso fora do solo brasileiro.

Dali em diante, a situação se complicou para Del Nero, que viu seu nome aparecer oficialmente nas investigações em dezembro de 2015, quando o Departamento de Justiça dos Estados Unidos incluiu mais 16 nomes entre os indiciados - com mais dois presidentes da CBF envolvidos: Ricardo Teixeira, que antecedeu Marin e comandou a entidade de 1989 a 2012, e Del Nero.

Em dezembro do ano passado, a promotoria americana chegou a acusar tanto Marin quanto Del Nero pelo recebimento de um total de US$ 6,5 milhões cada um em propinas pagas por negociações de direitos de transmissões de campeonatos (Copa do Brasil, Libertadores e Copa América).

Já afastado do comando do futebol brasileiro - mas tendo conseguido um aliado para substituí-lo em 2019, com a confirmação da eleição de Rogério Caboclo -, Del Nero segue negando todas as acusações que envolvem seu nome.

A CBF, por sua vez, divulgou nota a respeito da decisão da Fifa. "A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) informa que tomou conhecimento, hoje (27), da decisão do Comitê de Ética da Fifa em relação ao presidente Marco Polo Del Nero. A entidade esclarece que, em cumprimento à citada decisão e em linha com seu Estatuto, o vice-presidente Antônio Carlos Nunes de Lima segue à frente da Presidência."

Veja as acusações que pesam sobre o ex-presidente da CBF:

Escândalo da Fifa em 2015

Tudo começou com uma delação do empresário J. Hawilla, réu confesso que revelou o esquema envolvendo dirigentes do futebol brasileiro para a Justiça americana.

Hawilla é dono da Traffic Group, maior agência de marketing esportivo da América Latina. Segundo as autoridades americanas, ele confessou culpa em dezembro de 2014 por acusações de extorsão, fraude eletrônica, lavagem de dinheiro e obstrução da justiça. Em maio de 2015, o escândalo veio à tona com a prisão dos dirigentes da Fifa em Zurique, onde aconteceria um congresso da entidade.

Segundo as investigações da Justiça dos Estados Unidos - que, à época, ainda não envolviam Del Nero - J. Hawilla pagava propina para três altos dirigentes da CBF para dividir os direitos sobre a Copa do Brasil. Outras acusações envolviam propinas também pelos direitos de transmissão da Copa América.

No relatório divulgado ainda em maio de 2015, a Justiça dos Estados Unidos mostra uma conversa entre Marin (citando o nome do ex-presidente da CBF) e o chamado "Co-Conspirador #2", J. Hawilla, em abril de 2014 para a divisão de propina relacionada à Copa América de 2016, organizada de maneira conjunta entre Conmebol e Concacaf.

"Em certo momento, quando Co-Conspirador #2 pergunta se era realmente necessário continuar pagando propina ao antecessor de Marin na presidência da CBF (Ricardo Teixeira), Marin diz: "Chegou o momento de, de isso vir ao nosso encontro. Verdade ou não?"

Co-Conspirador #2 concordou, afirmando: 'É claro, é claro, é claro. Esse dinheiro tinha que ser dado a vocês'. Marin concordou: 'É isso, está certo'", afirmava o documento divulgado pela Justiça americana.

O nome de Del Nero apareceu oficialmente nas investigações em dezembro de 2015, quando ele foi indiciado junto com outros 15 dirigentes do alto escalão do futebol (incluindo Ricardo Teixeira) por corrupção, formação de quadrilha e enriquecimento ilícito. Segundo a investigação da Justiça dos Estados Unidos, eles estariam envolvidos em um esquema que teria desviado mais de US$ 200 milhões em propina.

Foi aí que ele optou por se afastar da presidência da CBF em um primeiro momento, para "concentrar seus esforços na elaboração de sua defesa". Del Nero retornou ao cargo em abril de 2016.

Acusações de empresário argentino

A situação de Del Nero começou a ficar mais crítica em novembro do ano passado, quando o depoimento de outro réu confesso, desta vez o argentino Alejandro Burzaco, citou o nome dele como recebedor de propinas pagas pela empresa Torneos y Competencias (da qual Burzaco era diretor) pelos direitos de transmissão da Libertadores e da Copa Sul-Americana.

Segundo o argentino, Del Nero tomava nota de todos os valores de suborno e os destinatários deles em um caderninho. Ainda de acordo com a delação do empresário, até março de 2012, Ricardo Teixeira, então presidente da CBF, era quem recebia US$ 600 mil por ano como propina pelos direitos de transmissão do torneio. Depois disso, o valor passou para US$ 900 mil, que eram divididos entre Marin (que assumiu a presidência da CBF à época) e Del Nero, que era seu vice.

Já no final de 2014, Del Nero teria procurado Burzaco, segundo o depoimento do argentino, para aumentar a propina para US$ 1,2 milhão a partir de 2015, quando o próprio Del Nero assumiria a CBF.

Assim que a acusação veio à tona, o então presidente da entidade máxima do futebol brasileiro se defendeu por meio de nota. "Com referência à citação feita à sua pessoa pelo delator premiado Alejandro Buzarco na Corte de Justiça do Brooklin, New York, EUA, o presidente da CBF, Marco Polo Del Nero, vem a público esclarecer que nega, com indignação, que tivesse conhecimento de qualquer esquema de corrupção supostamente existente no âmbito das entidades do futebol a que se referiu. As investigações levadas a efeito naquele país não apontaram qualquer indício de recebimento de vantagens econômicas ou de qualquer outra natureza por parte do atual presidente da CBF.(...) Por fim, reafirma que nunca participou, direta ou indiretamente, de qualquer irregularidade ao longo de todas atividades de representação que exerce ou tenha exercido."

Defesa de Marin coloca Del Nero 'na fogueira'

Em dezembro de 2017, foi a vez do advogado de José Maria Marin, Charles Stillman, colocar Del Nero na fogueira ao exercer a defesa do ex-presidente da CBF, ainda preso nos Estados Unidos. De acordo com ele, era Del Nero quem "comandava o show".

"O mundo do futebol no Brasil era visto como uma espécie de monarquia: Marin era o rei, que fazia discursos e brindes em eventos, mas todos sabiam que quem comandava o show era Marco Polo Del Nero, que era visto como o sucessor natural de Ricardo Teixeira quando terminasse seu mandato à frente da CBF", afirmou.

"O senhor Marin estava no campo, mas não participou do jogo", completou.

Na mesma semana, o promotor do caso também já havia incluído Del Nero em suas acusações, alegando que ele era o "gêmeo" de Marin nas negociações de propina.

Segundo a promotoria, havia anotações de Santiago Peña, ex-funcionário da empresa de marketing esportivo Full Play, que pagava propinas para dirigentes do futebol mundial, indicando as iniciais de Marin e Del Nero. "Ele guardou documentos que mostravam as iniciais MPM ao lado da indicação de US$ 3 milhões. MP era a abreviação para Marco Polo Del Nero e M era Marin. Del Nero e Marin estavam unidos, eram gêmeos", afirmou.

Os valores recebidos pelos dois, ainda de acordo com a acusação, chegariam a US$ 13 milhões (US$ 6,5 milhões para cada um).

Investigação na Fifa e banimento do futebol

A Fifa abriu investigação independente no Comitê de Ética contra Del Nero em novembro de 2015 para apurar se houve recebimento de propina na negociação de contratos de mídia e de marketing esportivo para torneios da Libertadores, Copa América e Copa do Brasil.

Em janeiro deste ano, Marco Polo Del Nero foi interrogado pela Fifa como parte do processo e respondeu aos questionamentos por meio de videoconferência - ele optou por não comparecer ao interrogatório para não sair do Brasil.

O dirigente foi confrontado por todas as evidências apresentadas pela Justiça americana a respeito do pagamento de propina e negou participação em todas elas. Segundo seus advogados, nenhuma prova material teria sido apresentada para comprovar sua participação no esquema.

À época, Del Nero já estava suspenso de suas atividades no futebol por 90 dias. Em março, a entidade estendeu a suspensão por mais 45 dias e agora confirmou o banimento dele para sempre de qualquer atividade envolvendo o futebol.

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