Tim Vickery: Futebol ajuda a despertar a curiosidade geográfica nas crianças

Tim Vickery

Colunista da BBC Brasil*

  • Pablo Sanhueza/Reuters

A primeira lembrança que tenho da Copa do Mundo é de 1970. Estava fazendo 5 anos, jovem demais para acompanhar o torneio. Mas um vizinho, dois anos mais velho, estava colecionando o álbum de figurinhas. Peguei algumas. Uma delas ficou na minha memória até hoje.

Foi de um jogador da seleção Peruana – se não me engano, Ramon Mifflin, que mais tarde jogou no Santos. Chamaram a minha atenção a camisa do Peru, branca com a faixa vermelha, as feições andinas do atleta, a qualidade da luz no pano do fundo. Tudo era diferente, exótico, intrigante. Foi, acredito, o momento em que descobri o mundo, e comecei a imaginar como deveriam ser esses países tão distantes. O futebol iniciou uma grande curiosidade geográfica.

Já nas Copas de 1974 e 78 eu tinha idade para acompanhar tudo, de seguir os jogos a fazer a minha própria coleção de figurinhas da Copa. Bebi as informações sobre os jogadores e os clubes onde atuavam --naquela época a maioria jogava em times na sua terra natal. Aprofundei meu conhecimento geográfico.

É verdade que não aprendi nada sobre os Estados Unidos e outros países que teimaram em ficar de fora da Copa. Mas, levando em consideração que cresci em um ambiente onde a França parecia tão distante quanto a Lua, acabei adquirindo bastante conhecimento sobre a Europa e a América Latina, seus países, populações e capitais. Tudo isso por meio do futebol.

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Em 1982, não colecionei as figurinhas. Com 17 anos, a música desempenhava um papel mais importante na minha vida de adolescente e não me empolguei tanto com a Copa. Mas ainda acompanhei tudo.

Uma história rápida para ilustrar a importância do futebol na família. No dia da final de 1982, minha mãe saiu para um show. Horas depois, ela não tinha voltada ainda, que era muito incomum. Num determinado momento, meu pai ficou preocupado. Ligou para a polícia. Pediram para ele uma descrição da minha mãe, do que ela estava vestindo. "Como eu vou saber?", respondeu ele num tom de exasperação. "Está passando a final da Copa!"

O meu pai foi um "quase" jogador. Um teste aqui, um teste ali, mas não conseguiu uma vaga. Como primeiro filho, a obrigação passou para mim. Mas desde cedo ficou óbvio que herdei o entusiasmo sem um pingo do talento. Tudo bem. Tive uma infância feliz jogando bola. O futebol me socializou.

E também, como eu disse, me globalizou. Mas as duas coisas só aconteceram juntas na Copa seguinte, de 1986.

Eu ainda não tinha saído da Inglaterra. Mas, aos 21 anos, já estava na faculdade, cercado por pessoas do país todo – e de várias partes do mundo. Acompanhar aquela Copa num ambiente multicultural foi uma experiência mágica. Vislumbrei o valor do jogo como um fator de unificação, uma língua universal que se fala com sotaques diferentes. Uma maneira incrível de trocar experiências e fazer amizades internacionais. Socialização num contexto global.

É por isso que sinto saudades do que virou a Avenida Atlântica, em Copacabana, quatro anos atrás. Quase todos que viajaram ao Brasil na Copa de 2014 passaram pelo Rio de Janeiro e pela Avenida Atlântica.

Aquele pedaco de asfalto, ao lado da praia, virou o ponto de encontro do mundo inteiro. Com poucas exceções, foi um sonho de confraternização global, uma alegre multidão multicultural. Lembro bem da última noite, depois da final. Parecia que ninguém, nem os argentinos que acabavam de ver a derrota da sua seleção, estava querendo ir dormir, pois acordar ia trazer a triste notícia de que a Copa tinha acabado.

Declaro tudo isso com pleno reconhecimento dos absurdos gastos com o torneio. Fui um dos primeiros a criticar tais gastos, pois anos antes ficou óbvio para mim as consequências desatrosas da demora em definir as cidades-sedes. O preço ia aumentar, enquanto a gama do que era possível fazer diminuía. Em resumo, mais dinheiro para os estádios, menos para projetos de mobilidade urbana. Diante de tudo isso, é impossível defender a incompetência demonstrada pela organização.

Mas nada disso tira o valor de reunir o mundo ao redor de uma bola. Vou além: numa época de tensões entre países e povos, vejo a Copa como mais necessária do que nunca.

Muitos acham que no Brasil a Copa é tratada com uma importância exagerada. Difícil discordar. Mas não compartilho nem um pouco da visão de que se trata de um exemplo de alienação. Porque naquele momento antes do jogo quando se tocam os hinos nacionais, a câmera está mostrando a verdadeira face da nação, ou pelo menos da sua juventude masculina. É uma representação muito mais fiel da pátria do que os diplomatas, governantes ou até o Supremo Tribunal Federal.

Não pode ser considerado alienação quando as pessoas estão se sentindo representadas, torcendo para os seus pares numa disputa leal e saudável. Viva a socialização num ambiente global! Viva a Copa do Mundo, as Nações Unidas do homem comum!

*Tim Vickery é colunista da BBC Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick.

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