PUBLICIDADE
Topo

Como provei que a 'viúva negra' que assassinou meu irmão era culpada

Phil Nisbet ao lado de sua irmã Lee-Anne Cartier - Lee-Anne Cartier
Phil Nisbet ao lado de sua irmã Lee-Anne Cartier Imagem: Lee-Anne Cartier

22/08/2018 15h31

Quando Phil Nisbet morreu, em maio de 2009, as cartelas vazias de comprimido encontradas pelas autoridades fizeram parecer que foi suicídio.

Mas não demorou para que Lee-Anne Cartier, sua irmã, começasse a suspeitar da mulher do irmão - e conseguisse apresentar provas à polícia que não podiam ser ignoradas.

"O maior defeito dele era confiar demais nas pessoas", diz ela.

"Ele não percebia que havia gente ruim, capaz de fazer coisas ruins."

Phil era o mais velho de quatro irmãos, enquanto Lee-Anne é a mais nova - Andrew e Roger são os irmãos do meio.

Ela se lembra de andar na garupa da moto de Phil, quando ele a levou para a Girl's Brigade, quando tinha apenas oito anos.

E conta que ele era o "bonzinho" da família. "Não tinha pisado em um pub até os 21 anos."

Isso foi há cerca de 40 anos, na Nova Zelândia. Mais tarde, a maior parte da família foi morar na Austrália. Mas Phil ficou.

Ele tinha 47 anos e trabalhava como motorista de caminhão quando Lee-Anne recebeu o telefonema devastador do pai. Era para avisar que Phil estava morto. Ele havia sido encontrado dentro do caminhão, e a polícia acreditava que ele havia se matado.

Ela não conseguia entender o que teria levado o irmão a cometer suicídio.

"Era tão estranho. Eu estava afastada de Phil há alguns anos, então não sabia o que estava acontecendo na vida dele. Ficava apenas pensando: 'O que diabos aconteceu?'"

A autópsia revelou que havia níveis elevados de um anti-histamínico, a que Phil era alérgico, no corpo dele. Neste momento, Lee-Anne sentiu apenas que precisava aceitar a hipótese de suicídio.

"Não tínhamos mais nada a fazer", diz ela.

"Você fica em choque, só absorvendo o que todo mundo está dizendo."

Lee-Anne ajudou a organizar o velório e viajou para a Nova Zelândia para se despedir do irmão, antes da cerimônia de cremação. Mas Helen Milner, esposa de Phil, se recusou a deixá-la sozinha com ele.

As duas cortaram relações três anos antes, em 2006, quando Lance, filho de Lee-Anne, ficou hospedado na casa do tio na Nova Zelândia - o adolescente irritou Helen, que ligou para a cunhada para reclamar, provocando a briga.

"É muito difícil dizer adeus quando você tem coisas a serem ditas, porque nós nos afastamos nesses anos, e quando a mulher que causou esse afastamento está lá", diz Lee-Anne.

Desde a discussão, ela só tinha visto o irmão uma vez, quando ele e a mulher visitaram seus pais na Austrália, alguns meses antes de ele morrer.

Lee-Anne nunca foi fã da cunhada.

Leia também

"Quando a conheci, em 2004, ela parecia ser a típica dona de casa", conta. "Mas, quando nos encontramos novamente, percebi que ela não era totalmente estável."

Em uma viagem à Nova Zelândia, Lee-Anne foi até a casa do irmão e encontrou Phil "em pânico".

"Helen tinha tentado tomar uma overdose de insulina, para se matar, ou pelo menos foi o que ela disse a Phil", recorda-se. "Eu entrei para falar com ela, que dizia: 'Eu poderia muito bem morrer', e não foi a primeira vez que ela falou isso."

Então, quando Lance estava hospedado na casa do tio em 2006, Lee-Anne percebeu que Helen estava por trás de uma conversa estranha que Phil teve com o sobrinho em um pub.

A conversa foi sobre Karen, a primeira mulher dele, mãe de seu filho mais novo, Ben.

"Phil perguntou a Lance se ele poderia encontrar alguém para acabar com Karen, para fazer algo como colocar fogo na casa para parecer um acidente", conta.

"Lance correu para casa e me ligou desesperado. Eu disse para ele ignorar: 'Não converse mais com eles sobre isso'."

Lee-Anne acredita que Helen ainda via Karen como uma possível rival e queria que ela saísse do seu caminho. Mas, na época, tudo parecia tão absurdo que ela não avisou a polícia.

Após a morte do irmão, ela começou a ter mais contato com Helen, e ficou surpresa quando a cunhada disse que Phil havia morrido na cama do casal - e não dentro do caminhão, como haviam dito a ela inicialmente.

Depois do funeral, quando Lee-Anne já estava de volta à Austrália, Helen ligou para avisar que havia encontrado uma carta de suicídio.

"A carta que ela leu dizia que ele descobriu que Ben não era seu filho, e não poderia encará-lo novamente."

Helen também contou que o diretor da funerária havia coletado uma amostra de DNA do corpo de Phil, e que uma análise do material mostrou que praticamente não havia chance de ele ser pai de Ben.

Se isso fosse verdade, Ben não teria direito à apólice de seguro de vida de Phil, ressalta Lee-Anne.

Logo após o telefonema, Lee-Anne voou à Nova Zelândia para participar da festa de aniversário de 21 anos do filho. Ela ficou hospedada na casa de Helen, que, na primeira noite, mostrou a ela a suposta carta de suicídio.

Helen Milner, a 'viúva negra', no banco dos réus - GETTY IMAGES - GETTY IMAGES
Helen Milner, a 'viúva negra' acusada de matar o marido, no banco dos réus
Imagem: GETTY IMAGES
Abri a carta e vi que tinha sido digitada", revela.

"Meu próximo choque foi olhar para o pé da carta, onde estava a assinatura, e ver que não era a letra do Phil. Então eu comecei a dizer para mim mesma: 'Meu Deus, ela matou ele'. Foi neste momento que todas as peças do quebra-cabeça se encaixaram."

Na mesma hora, Lee-Anne também percebeu que poderia estar em perigo.

"Eu estava gritando por dentro e, ao mesmo tempo, meio paralisada, pensando: 'Não posso deixar ela notar que eu sei.' Eu estava lá sentada, remoendo: 'O que eu faço, o que eu faço?'"

Ela foi até o quarto e colocou sua mala contra a porta. A casa ficava fora da cidade. Levaria pelo menos uma hora para caminhar até algum lugar seguro. E ela sabia que, se saísse naquele momento, Helen perceberia que ela tinha descoberto a verdade.

Ela tentou enviar uma mensagem de texto para o namorado na Austrália, mas descobriu que não tinha crédito suficiente no telefone.

Estava presa e sozinha.

"Eu tinha certeza que ela não faria nada comigo porque seria muito suspeito aparecerem duas pessoas mortas na casa dela", diz. "Meus filhos sabiam onde eu estava, isso era um bônus, mas foi bem assustador."

No dia seguinte, era a festa de aniversário de Lance, e Lee-Anne teve que tomar uma decisão difícil.

"Me senti traindo meu filho ao levá-la comigo", conta. "Ele sempre foi tão próximo ao Phil, e eu levei a assassina do tio para o aniversário de 21 anos dele - mas eu não tinha alternativa."

"Decidi que ia entrar no jogo dela e ver que evidências conseguia coletar para levar à polícia naquela semana."

Lee-Anne falou com o policial responsável pelo caso sobre a suposta carta de suicídio. E compartilhou suas suspeitas. As pessoas não digitam cartas de suicídio, ele disse a ela, e passou a informação para outros oficiais.

Ela voltou então para a Austrália e contou ao resto da família o que tinha descoberto.

Seu próximo passo foi conversar com o diretor da funerária, que teria coletado a amostra de DNA. Ele negou veementemente a história.

Ela requisitou então um teste de DNA para comparar amostras de seus pais e de Ben, provando que ele era de fato neto deles.

E resolveu falar com os colegas de trabalho de Helen, e o que eles contaram foi assustador:

"Eles a chamavam de 'viúva negra' pelas costas."

"Ela tinha perguntado a eles sobre veneno de rato. E disse para alguém que faria um trabalho na casa deles: 'Não se preocupe com Phil, ele não estará por perto por muito tempo'".

Enquanto conduzia as investigações, Lee-Anne tentou evitar que Helen suspeitasse que ela sabia a verdade. Para isso, precisava continuar amigável, perguntando sobre sua saúde e respondendo às suas mensagens. Mas um dia não aguentou mais.

"As histórias foram ganhando tamanha proporção que eu perdi a cabeça. Disse a ela que sabia que tinha matado Phil e não precisava mais obter informações dela."

Lee-Anne entregou todas as evidências que coletou para a polícia. Mas, para sua surpresa, eles não fizeram nada e Helen permaneceu livre.

No ano seguinte à morte de Phil, no entanto, ela descobriu que poderia solicitar a abertura de um inquérito no escritório do legista.

"Tivemos uma reunião prévia com a legista e eu levei as provas para mostrar que não era a assinatura de Phil na carta de suicídio", conta Lee-Anne. "E quando ela pegou a papelada para me mostrar a carta, estava digitada, mas não havia nenhuma assinatura manuscrita - e eu desmoronei. Então, no inquérito real, eu questionei Helen sobre esse e outros assuntos".

Isso foi em novembro de 2010. Seis meses depois, o parecer da legista foi divulgado:

"Considero que, com base nos fatos estabelecidos pelas evidências à minha frente, não consigo atingir o limiar necessário para atestar que foi suicídio", ela escreveu.

Neste momento, a polícia reabriu o caso, e Lee-Anne apresentou mais uma vez as provas que havia coletado.

"Minha única preocupação era se seria tarde demais para encontrar evidências capazes de serem levadas aos tribunais e comprovadas", diz.

Mas Helen foi presa e acusada não apenas de assassinato, mas também de duas outras tentativas anteriores de homicídio contra o marido.

Lee-Anne Cartier lê seu depoimento durante o julgamento - GETTY IMAGES - GETTY IMAGES
Lee-Anne Cartier lê seu depoimento durante o julgamento
Imagem: GETTY IMAGES
O julgamento aconteceu em dezembro de 2013, com Helen sentada no banco dos réus e Lee-Anne prestando depoimento como testemunha.

"Me disseram que, ao ser testemunha, a defesa usaria o argumento de que eu queria me vingar dela, e que eu praticamente havia armado tudo."

E foi exatamente isso que aconteceu. Ela foi submetida a um interrogatório rigoroso - sob os holofotes da imprensa.

No último dia, quando o júri estava deliberando sobre a decisão, Lee-Anne e a família foram até o tribunal, levando as cinzas de Phil em uma urna, para ouvir a sentença:

Pela acusação da primeira tentativa de homicídio - inocente.

Pela acusação da segunda tentativa de homicídio - culpada.

Pela acusação de assassinato - culpada.

"Chorei, porque foi um alívio tão grande que, depois de uma luta tão longa, conseguimos o que queríamos: a verdade", conta Lee-Anne.

Para marcar o momento, Lance botou para tocar no telefone uma das músicas favoritas do tio - Two out of Three Ain't Bad, do cantor Meatloaf.

Helen foi condenada à prisão perpétua, mas pode requerer liberdade condicional após 17 anos.

A polícia parabenizou Lee-Anne pelo trabalho de detetive e pediu desculpas pelo fracasso da primeira investigação.

Ela está estudando criminologia, na esperança de ajudar outras pessoas a resolverem problemas com o sistema judiciário no futuro.

E ainda sente muita falta de Phil.

"Sempre que tinha um aniversário na família ou outro evento, Phil levava pavlova (uma sobremesa)", recorda-se. "Então, sempre que faço pavlova, lembro do Phil e penso: 'Ele que deveria estar fazendo isso. Ele deveria estar aqui, trazendo a pavlova'".

E por que Helen Milner matou o marido? Lee-Anne acredita que ela foi motivada pela ambição financeira - e, em particular, pela perspectiva de receber US$ 250 mil do seguro de vida dele.

"Como minha filha disse um dia: 'Por que ela não fez a coisa certa e se divorciou dele?'", argumenta Lee-Anne.

"Mas nunca se tratou disso. Toda sua vida girava em torno de dinheiro."

Após a saga, Lee-Anne escreveu um livro sobre sua experiência chamado The Black Widow (A viúva negra, em tradução livre).