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'Tenho apenas 27 anos e meus ossos estão se desintegrando'

12/10/2018 12h26

A jornalista Lizzie Porter teve anorexia na adolescência. Hoje, aos quase 30 anos, descobriu que os anos de inanição deixaram uma marca em seu corpo.

"Você tem osteoporose na coluna e osteopenia no quadril. Vou te receitar cálcio e vitamina D e acho que você vai ter de tomar pelo resto da vida. Precisamos evitar fraturas."

É maio de 2018, e as palavras do meu médico me despertam de um longo estado de negação.

Por anos, eu me enganei, fingia para mim mesma que estava completamente recuperada da anorexia.

Recebi o diagnóstico de osteoporose em 2010. Mas, nos oito anos seguintes, me convenci de que a situação tinha melhorado, que os buracos na minha coluna tinham cicatrizado.

Infelizmente, não.


Osteoporose e osteopenia

  • A osteoporose é uma condição na qual os ossos enfraquecem e ficam mais propensos a quebrar
  • Se a sua densidade óssea estiver entre o nível mais baixo considerado normal e o da osteoporose, você tem osteopenia

Fonte: Sociedade Nacional de Osteoporose


Fui diagnosticada com anorexia pela primeira vez aos 12 anos, e logo me deparei com suas consequências.

À medida que as temperaturas subiam no verão, eu tremia: era como um réptil, incapaz de regular minha própria temperatura corporal. No inverno, minha pele rachava e sangrava, mas não cicatrizava, devido à falta de nutrientes. Tive prisão de ventre, inchaço e queda de cabelo. Minha vida girava em torno de evitar comida.

Luta contra a doença

Nos últimos 15 anos, fui internada duas vezes e tomei milhares de antidepressivos - a anorexia é frequentemente acompanhada por mau humor, às vezes até por um comportamento suicida, razão pela qual apresenta a maior taxa de mortalidade entre todos os distúrbios psiquiátricos.

Já consultei tantos médicos que nem me lembro mais. Fiz o meu melhor para manter o que minha mãe chama de "sirigaita anoréxica" sob controle dentro de mim.

O desejo de seguir em frente me levou a desistir de muitos padrões de comportamento anoréxicos. Antes, eu passava horas avaliando os ingredientes da salada na cozinha, usando uma faca diferente para cortar cada tomate, pepino e folha de alface. Eu não quero mais perder tempo com meus velhos hábitos. E, na maioria das vezes, não perco.

Mas a anorexia fez com que meu corpo envelhecesse rapidamente, e agora estou lutando com as consequências de longo prazo do distúrbio.

A osteoporose prevê a perda da densidade óssea e, num estágio avançado da vida, pode ocasionar fraturas, curvatura da coluna vertebral e perda de altura.

Embora tenha muitas causas e frequentemente afete mulheres após a menopausa, quem tem anorexia também corre risco de ter osteoporose, especialmente jovens que desenvolvem a doença na adolescência, quando o corpo está tentando construir um esqueleto forte.

Saindo da negação

Por um dia ou mais, os exames de densiometria óssea me tiram o sono. Eu ando pela capital libanesa Beirute, onde moro, me sentindo mal. O que diabos estou fazendo comigo mesma? Esse pensamento ecoa na minha cabeça.

Me lembro de uma idosa da minha cidade natal, em Hertfordshire, que costumava caminhar curvada. A osteoporose é um problema de mulheres mais velhas, penso com raiva. Tenho apenas 27 anos.

No entanto, logo volto ao meu estado sereno de indiferença. Finjo que meus ossos não são muito finos e fracos. Sou forte e perfeitamente saudável, digo a mim mesma. Apesar de precisar tomar suplementos de cálcio e vitamina D por toda a vida, fico tonta quando me levanto. E os exames de sangue mostram que sofro muito de anemia - falta de glóbulos vermelhos ou de hemoglobina no sangue.

Para melhorar minha densidade óssea, eu deveria comer mais e ganhar um pouco de peso. Mas minha vida é "muito agitada" para gerenciar o estresse de superar os últimos resquícios do meu comportamento anoréxico.

Ainda uso uma calculadora para contar a quantidade de calorias que consumo por dia, e tendo a atacar qualquer um que me force a comer coisas que me assustam, como bolos, tortas e cremes.

Neste ano, pelo menos, deixei um amigo me convencer a pedir salada com azeite - isso me enche de orgulho, embora ao mesmo tempo me envergonhe dos anos que passei me preocupando com o molho para salada. Mas preciso ir além.

A osteoporose não é o único efeito no longo prazo da anorexia. A perda de densidade óssea também afetou meus dentes, que doem e podem apodrecer facilmente. Desde o início do ano, gastei £ 4,2 mil em tratamentos odontológicos, incluindo oito obturações, tratamento de canal, duas coroas e um implante.

"A falta de cálcio e vitamina D está definitivamente contribuindo para isso", diz meu médico, que é especialista em transtornos alimentares.

Uma consequência dos meus dentes e gengivas fracos é que depois de anos convivendo com barreiras psicológicas que restringiam minha dieta, agora preciso lidar com limitações físicas. Qualquer coisa borrachuda, crocante ou gelada é quase impossível de comer.


É possível reverter a anorexia?

  • Um estudo de 2002 mostrou que 46% dos pacientes se recuperaram completamente, um terço melhorou (mas manteve alguns sintomas do transtorno alimentar) e 20% permaneceram cronicamente doentes no longo prazo
  • A ONG britânica Beat, especializada em distúrbio alimentar, diz que a recuperação é sempre possível com a ajuda e o apoio certos - mas varia de pessoa para pessoa
  • A organização acrescenta que a maioria das complicações médicas decorrentes da anorexia são reversíveis, mas não todas - a osteoporose, por exemplo

É difícil prever o quanto a anorexia pode afetar a saúde de cada paciente no longo prazo: os corpos reagem de maneiras diferentes. Outros possíveis efeitos podem incluir infertilidade e dificuldade para engravidar, problemas cardíacos e complicações nos rins e no fígado, de acordo com a ONG Beat.

"Acho que as pessoas não percebem as ameaças da doença e suas consequências físicas e mentais, incluindo o risco de suicídio. Sei que isso assusta, mas precisamos encarar os fatos", diz Jane Smith, diretora-executiva da ONG britânica Anorexia and Bulimia Care.

As diretrizes do Instituto Nacional de Saúde e Cuidados de Excelência (NICE, na sigla em inglês) para o tratamento da anorexia orientam os médicos a explicar aos pacientes que a principal forma de prevenir e tratar a baixa densidade óssea é "alcançar e manter um peso corporal saudável ou índice de massa corporal (IMC) adequado para a idade".

Se eu for totalmente honesta comigo mesma, sei que tenho de me esforçar mais para minimizar as consequências da anorexia no longo prazo. Certamente não posso andar para trás. Tenho propósitos suficientes na minha vida para querer vivê-los. Tenho um emprego como jornalista que amo, amigos em quem confio e pais que apoiam cada iniciativa minha.

Em uma manhã daquele mês de maio, uma das minhas amigas mais próximas, Leila, me mandou uma mensagem no WhatsApp em resposta a um de meus muitos desabafos. Eu estava cansada.

"Não vou te dizer que alguns quilos a mais não vão te engordar, porque é isso que está na sua cabeça", ela escreveu. "Vou dizer que você pode escolher entre ser 'gorda' e ativa, ou magra e ficar de cama. Você pode ser magra, mas sua vida vai acabar. É isso."

E o que eu posso dizer? A maior parte de mim sabe que ela está certa.

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