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A cidade mais antiga da Armênia se prepara para a modernização

A transição pacífica do poder seguida pela Revolução Velvet já começou a transformar Yerevan, a capital da Armênia - BBC
A transição pacífica do poder seguida pela Revolução Velvet já começou a transformar Yerevan, a capital da Armênia Imagem: BBC

Lindsey Galloway - BBC Travel

19/11/2018 18h43

Embora seja um país relativamente pequeno com apenas três milhões de habitantes, a Armênia provocou ondas globais em maio deste ano com a sua Revolução de Veludo - um movimento de protestos pacíficos que durou um mês e resultou na renúncia do primeiro-ministro Serzh Sargsyan, no poder desde 2007.

Em seguida, a nação elegeu Nikol Pashinyan, um ex-jornalista que liderou os protestos com discursos inflamados e uma campanha de desobediência civil. A transição pacífica do poder já começou a transformar a capital, Yerevan, que começa a ver novos negócios, o retorno de antigos moradores e o aumento da visitação turística.

"Esse processo trouxe um otimismo para Yerevan como nunca antes", afirmou Aram Vardanyan, morador da cidade que está abrindo a empresa de turismo Absolute Armenia. "A Armênia é geralmente ignorada, mas acho que agora é a hora de o país brilhar. Outros empreendedores estão começando a ver esse momento de otimismo e mudança como a hora perfeita para inovar. A energia em Yerevan é muito palpável."

Os moradores da cidade que chega aos seus 2.800 anos - mais antiga até que Roma - querem agora se refletir nas mudanças e nas promessas de futuro promissor.

Quais os atrativos da cidade?

Moradores de Yerevan tendem a ser extremamente sociáveis, tanto com os antigos quanto com os novos rostos. "Os armênios adoram tomar café e conversar. Você verá rostos amigáveis todos os dias, você vai cumprimentar e parar para jogar conversa fora no caminho do trabalho", afirmou Ani Andree, que se mudou de Berlim há um ano e está começando um negócio em turismo rural. "As pessoas tiram tempo para conversar, seja o motorista de táxi, o vizinho ou o colega de trabalho."

A população também se preocupa em cuidar dos outros e a promover uma sensação de segurança até entre os expatriados. "Tenho certeza de que as pessoas logo notariam se eu não aparecesse como de costume. Elas perguntariam, ligariam ou mandariam mensagem", disse Andree. "Os relacionamentos são duradouros. As pessoas param para conversar e se sentem verdadeiramente animadas de vê-la mesmo que há meses você não cruzasse o caminho delas."

Muitos enxergam a cultura como inclusiva - quando uma nova pessoa se integra a um grupo ou comunidade, isso é visto como positivo. E a facilidade da população para se adaptar a novos idiomas amplifica o sentimento de pertencimento entre os recém-chegados. "Somos bons em aprender línguas, e muitos turistas se surpreendem quando conseguimos nos comunicar com facilidade com as pessoas nas ruas de Yerevan", afirmou Vardanyan.

As línguas típicas faladas incluem inglês, russo, francês, espanhol e até persa, explicou Sirarpi Sahakyan, armênio que vive em Yerevan e trabalha na empresa de marketing digital Incredo.

A rica cultura da cidade é valorizada e bem preservada, especialmente se comparada a outras ex-repúblicas soviéticas. Isto se deve em grande parte a ter tido influências de vários impérios, incluindo Assíria, Macedônia, Pérsia e a era Otomana da Turquia.

"As tradições e os rituais ainda são parte da cultura e criam uma atmosfera agradável", disse Andree. "Por exemplo, as pessoas gostam de dar flores em qualquer ocasião."

Os feriados da Armênia também ostentam suas tradições antigas. Celebrado 98 dias após a Páscoa, o Vadavar é um dos feriados favoritos por conta do costume festivo de jogar água nas pessoas. Trata-se de uma celebração da transfiguração de Jesus Cristo, mas também uma tradição que vem desde os tempos pré-cristãos.

No Trndez, celebrado 40 dias após o Natal, fogueiras são acesas na cidade. É um feriado especialmente importante para os recém-casados, que costumam pular juntos as fogueiras como um símbolo de fertilidade e purificação.

A Armênia vivenciou muita dor e privação no período de assassinatos em massa de armênios pelos turcos otomanos durante a Primeira Guerra Mundial. Dezenas de Estados americanos e mais de 20 países reconheceram este ato como genocida pelo Império Otomano. Já o Estado turco nega essa definição.

Entretanto, mesmo com séculos de uma história difícil e respeito às tradições, muitos moradores de Yerevan permanecem abertos a novas ideias e maneiras de pensar. "Uma das melhores coisas sobre os armênios é sua vontade de aprender e a compreensão de que conhecimento é poder", comentou Vardanyan.

Como é viver aqui?

Yerevan é um capital pequena se comparada a muitas cidades europeias, o que significa que as pessoas de todas as esferas da vida convivem num espaço reduzido. "Em 20 minutos, você pode andar de uma ponta a outra da cidade", disse Andree. Quase toda a atividade acontece no distrito de Kentron (literalmente, "o centro"), onde as pessoas socializam nos muitos cafés com mesas na calçada.

Yerevan também é conhecida como A Cidade Rosa. "A maioria de seus prédios foi projetada com tuff - uma pedra vulcânica rosa que se tornou simbólica em Yeravan", afirmou Sahakyan. "No amanhecer e entardecer, ela dá à cidade inteira um brilho rosa."

A revolução tem mudado drasticamente a vida da cidade, já que os armênios que migraram há gerações estão voltando a chamar Yeravan de lar. Além disso, "as influências ocidentais e orientais estão começando a se mesclar e a criar uma experiência muito internacional e única", afirmou Vardanyan.

Sahakyan diz que a volta dos cidadãos está transformando a cidade para melhor. "Depois que os sírios-armênios voltaram após a guerra, Yeravan ganhou uma nova mentalidade e uma nova gastronomia, que adoramos. Agora, especialmente depois da revolução, todo mundo pode abrir um negócio se quiser", ela disse.

A adoção do espírito empreendedor tem sido mais uma mudança de mentalidade do que de política, com muitos moradores enxergando a revolução como o destravamento de um futuro econômico favorável e promissor.

Yerevan também adotou recentemente o conceito de smart city (cidade inteligente), que investe em infraestrutura tecnológica para melhorar a conexão da cidade e torná-la mais eficiente e feliz.

Essas melhorias incluem construir uma comunidade de sistemas de comunicação para tudo, desde anúncios de votação à criação de espaços colaborativos onde novas ideias possam ser trocadas.

O que mais você precisa saber?

Como qualquer cidade crescente, manter a mente aberta torna a vida mais tranquila. O trânsito intenso e o transporte público limitado tornam o deslocamento na cidade um desafio, mesmo que ela seja pequena.

A falta de regulação sobre a poluição do ar e o barulho das ruas também frustram residentes como Andree. Ela também gostaria que houvesse mais espaços verdes. "Os parques em Yeravan são pequenos", comentou. "Você não sabe aonde levar seu cachorro para passear."

Mas como tudo aqui, as mudanças estão ocorrendo rapidamente. "Desde a revolução, as pessoas estão começando a ter mais voz", afirmou Vardanyan. "Acho que isso vai ajudar a resolver problemas da cidade com mais eficácia do que antes."

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