Topo

A história dos dois quadros pintados por Botero sobre a morte de Pablo Escobar

Boris Miranda (@ivanbor) - Da BBC News Mundo na Colômbia

01/12/2018 18h16

Dois dos quadros mais conhecidos e comentados do pintor colombiano recriam os momentos finais do narcotraficante morto há 25 anos. Conheça os detalhes.

Os dois quadros mostram um Pablo Escobar enorme sobre telhados de casas.

Em um deles, o barão do tráfico está de pé, atingido por várias balas. No segundo, aparece derrubado em cima do teto de uma casa, que foi o local de seu falecimento, há 25 anos.

As duas telas foram pintadas pelo famoso artista colombiano Fernando Botero (hoje com 86 anos), retratando o momento da morte de Escobar. O traficante pereceu na cidade de colombiana de Medellín, no dia 2 de dezembro de 1993.

Mesmo sem ser consideradas obras-primas de Botero, os quadros "La muerte de Pablo Escobar", de 1999 e "Pablo Escobar muerto", de 2006, deram o que falar desde o momento em que vieram a público. Produziram muitos questionamentos sobre o porquê de Botero ter decidido retratar, à sua maneira, os momentos finais do chefão do tráfico.

Para saber um pouco sobre a história destas pinturas, que se encontram hoje no Museu de Antioquia em Medellín, a BBC conversou com Juan Carlos Botero, filho de Fernando Botero e estudioso da obra do pai.

Duas séries

O filho do pintor explica que os dois quadros de seu pai sobre Escobar são parte de duas séries distintas de pinturas, produzidas em momentos diferentes.

A primeira pintura ("La muerte de Pablo Escobar", com o traficante de pé) é parte de uma série sobre a violência na Colômbia, da qual também fazem parte recriações de conflitos armados e episódios ocorridos no país dos anos 1950 para cá, como massacres e atentados.

O segundo quadro, no qual Escobar aparece já morto, é parte da outra série na qual são retratados momentos violentos da Colômbia e do resto do mundo.

"As duas coleções têm uma grande carga de denúncia, e são nelas que aparecem as imagens de Escobar", diz Botero.

O especialista diz que seu pai achava "impossível virar as costas às atrocidades que ocorriam na Colômbia", como sequestros, massacres, torturas e a violência do narcotráfico.

"Meu pai não fez estes quadros para mudar a realidade, mas para manter a memória destes episódios e para que não sejam esquecidos. A intenção era relatar a brutal realidade colombiana", acrescenta.

Pablo gigante

Para além do estilo particular de Botero, há alguma razão para Escobar ter sido retratado como um gigante nas pinturas?

De acordo com filho do pintor, que é autor do livro "A arte de Fernando Botero", de 2011, o tamanho de Escobar nas pinturas reflete o tamanho da tragédia que se abateu sobre a Colômbia.

"A figura (de Escobar) é monumental, comparada ao resto do ambiente, para mostrar a dimensão que (o narcotráfico) adquiriu na Colômbia", diz ele.

Juan Carlos Botero acrescenta que tamanhos e formas são parte importante da obra de seu pai.

"O tamanho das figuras nestes quadros de Escobar mostram a dimensão quase mítica que ele chegou a ter", diz ele.

O repúdio de Botero a Escobar

Em livros e entrevistas, diz-se que Pablo Escobar fez duas previsões a seus comparsas mais próximos: de que Botero o pintaria, e de que Álvaro Uribe seria presidente da Colômbia. As previsões são uma espécie de lenda, e não há comprovação de que Escobar realmente tenha dito isso.

Finalmente, as duas se tornaram verdade.

De qualquer forma, o filho do pintor esclarece que o mestre colombiano repudia o narcotraficante, e jamais recebeu uma encomenda de Escobar para pintá-lo.

"Sendo Escobar tão grandiloquente quanto era, não tenho dúvidas de que possa ter desejado que meu pai fizesse uma pintura sua. Mas a realidade é que nunca chegou a pedir", disse Juan Carlos Botero.

O especialista, que é também escritor de ficção, acrescenta que seu pai repudiou o fato de Escobar ter pinturas suas em sua coleção de arte.

Sabe-se que o narcotraficante tinha milhões de dólares em pinturas. Entre elas, havia ao menos um trabalho original de Fernando Botero e algumas réplicas.

Botero, em meados dos anos 1980, deixou público seu repúdio a isto em entrevistas à imprensa.

Outro aspecto destacado pelo filho do pintor é o de que seu pai, nascido em Medellín, desejava que sua cidade fosse conhecida como capital artística da Colômbia. E não como capital mundial de homicídios, como Escobar a tornou conhecida há trinta anos.

Já assistiu aos nossos novos vídeos no YouTube? Inscreva-se no nosso canal!

https://www.youtube.com/watch?v=m6yRLSqabpI

https://www.youtube.com/watch?v=Qu4t6CnDnCs&t=165s

https://www.youtube.com/watch?v=T_yTm_M_qPs