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Governo Bolsonaro: Como a 'ala PFL' do DEM ajuda a explicar poder da sigla no futuro governo

REUTERS/Adriano Machado
20.nov.2018 - Futuro ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni (DEM), e o presidente eleito, Jair Bolsonaro, durante entrevista em Brasília Imagem: REUTERS/Adriano Machado

André Shalders - @andreshalders - Da BBC Brasil em São Paulo

05/12/2018 14h06

Grupo informal de Onyx Lorenzoni, mais à direita, é o que tem acesso ao presidente eleito. Nas discussões internas do partido, grupo é chamado de 'pe-fe-lê' ou 'ala Naumann'.

Há alguns dias, dois representantes de alto escalão do partido Democratas (DEM) divergiram publicamente sobre o papel do partido na futura Presidência de Jair Bolsonaro (PSL).

O atual presidente nacional do DEM e prefeito de Salvador, ACM Neto, disse a jornalistas que o partido ainda vai decidir se apoiará ou não o novo governo. "Integrar ou não a base (de apoio ao governo) não tem nenhuma vinculação com qualquer cargo (...). A ida de quadros (do DEM para o gabinete de Bolsonaro) não significa dizer que o partido já está na base".

Mais tarde no mesmo dia, o governador eleito de Goiás, Ronaldo Caiado, disse em entrevista à Folha de S.Paulo que a tendência é o DEM "assumir 100% a base de apoio do presidente eleito".

A divergência pontual entre Caiado e ACM Neto é só mais um capítulo das discordâncias entre duas "alas informais" do DEM, que existem desde muito antes da eleição de 2018.

Com a chegada do capitão reformado do Exército ao poder, a ala mais à direita da sigla - da qual Caiado é um dos principais nomes - passou a ter acesso direto ao futuro governo e a emplacar ministros.

Faz parte deste grupo o futuro ministro da Casa Civil, o deputado federal reeleito Onyx Lorenzoni (DEM-RS). Ele é hoje um dos políticos mais próximos de Bolsonaro, e ocupará um posto-chave no próximo governo.

Enquanto isso, o grupo moderado do partido, do qual ACM Neto faz parte, ficou sabendo que teria colegas de sigla na Esplanada pela mídia. Para esta ala demista, a prioridade agora é reeleger Rodrigo Maia (DEM-RJ) como presidente da Câmara dos Deputados - podendo contar, inclusive, com o apoio pontual de deputados que serão da oposição ao novo governo.

Até agora, o DEM é um dos partidos com mais nomes indicados para a futura composição da Esplanada. Dos 20 ministros já anunciados para o futuro governo, o DEM tem três - para efeito de comparação, o próprio PSL de Bolsonaro também tem três nomes até agora.

No caso do PSL, são o astronauta Marcos Pontes na pasta de Ciência e Tecnologia; o advogado Gustavo Bebianno na Secretaria-Geral da Presidência e o deputado federal eleito Marcelo Álvaro, de Minas Gerais, no Turismo. Integram o DEM os futuros ministros da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e da Agricultura, Tereza Cristina, além de Lorenzoni.

Apesar de o partido povoar a Esplanada de Bolsonaro, o discurso de ACM Neto e da direção do partido é de que os ministros são escolhas pessoais do presidente eleito, não indicações partidárias.

'Pe-fe-lê'

"Quando tem alguma discussão, a gente é a ala 'pe-fe-lê', e eles são o DEM", diz o deputado federal reeleito Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ). A referência é ao antigo nome da sigla, Partido da Frente Liberal (PFL), que esteve em uso de 1985 até 2007.

Além de si próprio, Sóstenes coloca na ala "pe-fe-lê" os futuros ministros Lorenzoni e Mandetta, entre outros.

"A nossa liderança sem dúvida é o Ronaldo Caiado. Quando queremos pedir orientação, discutir alguma votação, consultamos ele", disse Cavalcante à BBC News Brasil numa conversa durante o 4º Congresso do Movimento Brasil Livre (MBL), ocorrido em São Paulo no dia 24 de novembro- Sóstenes é bastante próximo do movimento e falou durante um dos painéis do encontro.

Além de ACM Neto, Sóstenes inclui na ala moderada Rodrigo Maia, o ex-ministro da Educação de Michel Temer, Mendonça Filho (PE); o deputado federal reeleito Efraim Filho (PB), ex-líder do partido na Câmara; e o senador e ex-presidente do partido Agripino Maia (RN), entre outros. De fato, é esta a ala que tem comandado a direção do partido nos últimos anos.

Durante a conversa com a reportagem, Sóstenes estava na companhia de Kim Kataguiri, um dos principais líderes do MBL. Em outubro, o jovem de apenas 22 anos foi eleito deputado federal pelo DEM em São Paulo, com 465 mil votos.

Sobre em qual ala do partido ele se encaixaria, respondeu em tom de brincadeira: "Vou fundar a minha própria, o 'kataguirismo'". Na verdade, o estudante de Direito tem afinidade com a ala "pe-fe-lê". Kim e o restante da cúpula do MBL são também muito próximos de Ronaldo Caiado.

Agripino admite que existem diferenças entre os correligionários. "Todo partido político tem segmentos, com divergências de ideologia. Tem divergências dentro do MDB, do PT, do DEM", disse à BBC News Brasil, por telefone.

Ao contrário do que acontece no PT e em outros partidos, porém, o estatuto atual do DEM não menciona a possibilidade dos filiados criarem correntes internas, com existência formal, para disputar o comando da sigla. "(O Estatuto) não prevê nem desprevê. Não considera este assunto. Não há porque ter fração (formal) A ou B dentro do partido", diz Agripino.

Momentos de tensão

O choque mais recente entre os dois grupos, diz Sóstenes, ocorreu entre o fim de 2017 e o começo deste ano, quando a direção do partido estudava uma nova mudança de nome. A partir de pesquisas de opinião, surgiram alternativas como Mude e Centro. Muita gente foi contra.

"Foi consultada a bancada (no Congresso), quando do lançamento da candidatura de Rodrigo Maia (à Presidência da República; ele acabou desistindo depois), queriam trazer o partido para o centro. Sempre fomos considerados um partido de direita, como é que agora vão trazer para o centro? São alguns dos questionamentos que surgiram", disse Sóstenes.

Em outubro de 2017, o partido recebeu vários deputados vindos do Partido Socialista Brasileiro (PSB), entre eles, a futura ministra do Meio Ambiente, Tereza Cristina (MS). Segundo Agripino, ex-presidente da sigla, foi a vinda destes deputados que provocou, no começo de 2018, mudanças no Estatuto do partido e também na logomarca - enquanto a mudança de nome foi deixada de lado, pelo menos por enquanto.

"Não teve isso (tensão). Foi democraticamente discutido e ficou decidido, pela Executiva Nacional do partido, a manutenção do nome e a mudança da logo e do Estatuto. Foi tudo decidido democraticamente, sem trauma, no ano passado", diz Agripino.

Como o DEM emplacou com tantos ministros?

Depois de anunciar as escolhas de Tereza Cristina e de Mandetta, Bolsonaro disse que os nomes tinham sido apoiados por bancadas temáticas - do agronegócio, no primeiro caso, e da saúde, no segundo.

"Alguns ministros, as pessoas têm reclamado, são do DEM. Não são do DEM. Quem indicou a Tereza Cristina foi a bancada agropecuária, e ela é do DEM. Assim como grande parte dos gestores de hospitais filantrópicos, de Santas Casas, o presidente do Conselho Federal de Medicina e da bancada da saúde indicaram o Mandetta e por coincidência ele é do DEM", disse Bolsonaro.

No entanto, segundo políticos próximos ao futuro governo ouvidos pela reportagem, a afirmação é mais verdadeira no caso de Tereza Cristina do que de Mandetta. Embora ambos tenham boa relação com Onyx Lorenzoni, Cristina acabou sendo escolhida depois de uma queda-de-braço interna com o presidente da União Democrática Ruralista, Nabhan Garcia, enquanto Bolsonaro e Mandetta têm uma relação antiga.

Bolsonaro e Mandetta são, por exemplo, quase vizinhos de gabinete na Câmara dos Deputados. Mandetta ocupa o nº 577 da Ala B do Anexo III da Casa, e Bolsonaro tem sua sala de trabalho no nº 482 da mesma ala, a cerca de 20 metros de distância (a maioria dos deputados mantém seus escritórios no Anexo IV, em outro prédio).

Bolsonaro passou a se consultar com Mandetta em temas da área de saúde antes mesmo do começo da campanha oficial. Em julho, Bolsonaro mencionou o colega sul-matogrossense durante sua entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura.

"Muita gestante não dá bola para sua saúde bucal ou não faz os exames do seu sistema urinário com frequência. Então, certos problemas advêm disso e a possibilidade de [partos] prematuros aumenta assustadoramente", disse o então candidato.

"Eu estive com um parlamentar que é da área de saúde, o Mandetta, que falou que aplicou lá em Mato Grosso do Sul e deu certo na questão dos prematuros", disse, referindo-se a uma iniciativa de acompanhamento pré-natal desenvolvida por Mandetta quando este foi secretário municipal de Saúde de Campo Grande (2005-2010).

Ao contrário de Mandetta, Tereza Cristina não é considerada uma "pe-fe-lê" de raiz - ela chegou ao partido somente no fim de 2017, vinda do PSB. Mesmo assim, Onyx Lorenzoni intercedeu em favor dela na disputa com Nabhan Garcia e com o deputado reeleito Jerônimo Goergen (PP-RS), que também foi cogitado para o cargo. Nabhan é desafeto de Onyx, segundo políticos ruralistas consultados pela BBC News Brasil, sob condição de anonimato.

A disputa entre os dois - Nabhan e Cristina - passa por uma divergência sobre o Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural (Funrural). Enquanto a União Democrática Ruralista (UDR) de Nabhan defendeu o não pagamento das dívidas previdenciárias dos empresários do setor, a Confederação Nacional da Agricultura (CNA) e a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) - que apoiaram Cristina - defendiam o pagamento parcelado das dívidas.

"CNA e FPA não gostavam do Nabhan, e começaram a bombardear o nome dele (quando o futuro ministro foi discutido). No fim das contas, até mesmo a questão de não ter nenhuma mulher ainda no ministério pesou como critério de desempate", diz um congressista, sob condição de anonimato.

Onyx Lorenzoni e a Fundação Friedrich Naumann

Entre os dirigentes do MBL, a ala "pe-fe-lê" do DEM é às vezes chamada de "ala Naumann". O nome veio da Fundação Friedrich Naumann (FNST, na sigla original em alemão). Trata-se do órgão de formação política do Partido Democrático Liberal da Alemanha (FDP, na sigla original).

O nome surgiu por causa da ligação de alguns nomes do DEM - principalmente Lorenzoni e o ex-deputado federal Abelardo Lupion (DEM-PR) - com os liberais alemães. Onyx e o deputado federal eleito Bruno Lupion, filho de Abelardo, promoveram atividades de formação política em parceria com a Fundação Naumann.

Desde 2005, Onyx é o representante no Brasil da Internacional Liberal - uma associação supranacional de partidos liberais, da qual o FDP é o representante na Alemanha.

Formalmente, porém, o DEM nunca teve qualquer relação com a Fundação Naumann. No plano internacional, o partido integra a Internacional Democrata de Centro (IDC), da qual também faz parte União Democracia Cristã, partido da atual chanceler alemã, Angela Merkel.

No Brasil, fazem parte da Internacional Democrata de Centro o DEM e também o PSDB. Da mesma forma, o PDT participa da Internacional Socialista; e PT e PSB participam de um grupo internacional de partidos chamado Aliança Progressista.

"A Naumann é de extrema-direita. Eu (enquanto presidia o DEM) praticamente cancelei qualquer relação com a Naumann. Nunca houve relação formal do DEM com eles", diz Agripino. Segundo ele, esse afastamento dos liberais alemães ocorreu "de uns cinco anos para cá". Na época, a interrupção foi outra causa de descontentamento entre os liberais do DEM.

"O partido (DEM) sempre esteve filiado à IDC - hoje Internacional Democrata de Centro, antes Democrata-Cristã. O Naumann fazia contatos e programação com parlamentares isoladamente, nunca com o partido", disse o ex-prefeito do Rio Cesar Maia (DEM-RJ) à BBC News Brasil.

Em meados deste ano, a Fundação Naumann fechou seu escritório no Brasil. E, no dia 10 de outubro, o site da fundação publicou uma nota, em alemão, dizendo que Bolsonaro representava "um perigo para a democracia".

"Não houve cooperação com o populista de direita Bolsonaro. Nós deliberadamente paramos de trabalhar com um grupo liberal (o Livres) do PSL, depois que Bolsonaro tomou conta do partido. Sua defesa da antiga ditadura militar, seus traços racistas e sexistas já nos preocupavam muito antes da eleição", diz a nota.

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