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Quer aprender a prever o futuro? Especialistas ensinam como

David Robson - BBC Future

15/06/2019 19h15

Prever o futuro não é nada fácil, mas existe uma maneira de aprimorar suas habilidades de visionário, não importa quem você seja

O Reino Unido vai sair da União Europeia em 2019? A Câmara dos Representantes dos Estados Unidos vai votar e aprovar o impeachment do presidente Donald Trump? O escolhido para disputar a Presidência americana pelo Partido Democrata será um homem ou uma mulher?

A forma como você responde a essas perguntas não é uma simples questão de inteligência ou educação. Uma competição de previsões para os próximos quatro anos, o Projeto do Bom Julgamento, testou as habilidades de milhares de pessoas na previsão de acontecimentos mundiais. Os que se desempenharam melhor eram bem formados, sem dúvida, mas seu desempenho também dependeu de muitos estilos de pensamento que não são medidos em exames acadêmicos tradicionais. Eles também representam uma mistura de gêneros, idades e origens.

Pegue o exemplo de Elaine Rich, uma farmacêutica de um subúrbio de Maryland, nos EUA, que se registrou no projeto quando tinha em torno de 60 anos e rapidamente se destacou em fazer as previsões da competição, baseadas em probabilidade. Como ela disse à rádio pública americana NPR, temas internacionais nunca foram seu forte, e ela não havia estudado matemática na faculdade. Mas, depois de um pouco de treino, ela ficou entre o 1% de participantes com melhores resultados.

O líder do projeto, Philip Tetlock, escreveu em seu livro Super-forecasting (Superprevisões, em tradução livre): "Alguém brilhante na solução de enigmas pode ter o material bruto para fazer previsões, mas, se a pessoa não tem também um apetite para questionar crenças básicas e emocionais, ela sempre estará em desvantagem em relação a uma pessoa menos inteligente, mas que tenha uma capacidade maior para a autocrítica".

Desafio da BBC

Se você quiser testar suas habilidades para fazer previsões, a BBC Future juntou-se ao Bom Julgamento e à fundação britânica para inovações Nesta para lançar um desafio próprio de previsões, que está aberto à participação de qualquer um (link abaixo).

  • Clique aqui para participar do desafio You Predict The Future

Você pode achar que já tenha um talento incrível para prever o futuro - mas não se preocupe se, inicialmente, tiver um desempenho abaixo do esperado. Com um pouco de prática, qualquer um pode melhorar suas habilidades de fazer previsões em todo o tipo de assunto - e, com o tempo, você pode ver outros benefícios também, como um aumento em sua disposição de ter a mente mais aberta. Se você quiser aprender mais sobre a ciência de fazer julgamentos mais sábios antes de participar do desafio, continue lendo este texto.

A questão sobre o que constitui um bom julgamento tem desafiado filósofos por milhares de anos, acompanhada da suspeita de que o simples poder do raciocínio, sozinho, não é suficiente para alguém ter discernimentos realmente sensatos.

Realmente, segundo o filósofo francês René Descartes (1596-1650), o raciocínio pode até mesmo nos levar a cometer um grande erro. "As grandes mentes são capazes tanto de grandes vícios como de grandes virtudes", escreveu no século 17. "Aqueles que avançam, mas num ritmo bastante lento, caso sempre sigam a estrada correta podem ir além daqueles que estejam com muita pressa e acabem saindo dela."

Como eu mesmo escrevi, no meu livro The Intelligence Trap (A Armadilha da Inteligência, em tradução livre), pesquisas de ponta em psicologia agora indicam algumas maneiras bastante específicas de como o poder do raciocínio nos leva para o rumo errado.

Considere o fenômeno do "raciocínio motivado". Quando eu penso em questões repletas de carga emocional - particularmente aquelas associadas a nossas identidades -, nós não aplicamos nosso raciocínio de maneira equilibrada para avaliar as evidências que estão à nossa disposição.

Em vez disso, nós podemos simplesmente utilizá-las para racionalizar o ponto de vista que já temos e destruir qualquer outro argumento que contradiga nossas visões. E, quanto mais inteligente ou conhecedor você for, mais fácil poderá ser para você construir argumentos elaborados que deem suporte a seu ponto de vista. Sua mente brilhante torna-se uma ferramenta de propaganda em vez de uma ferramenta para a busca da verdade.

Nós podemos ver isso claramente com pontos de vista em relação ao aquecimento global. Nos Estados Unidos, entre os democratas as pessoas com mais conhecimento científico e numérico são mais inclinadas a endossar a visão de que emissões provocadas pelos seres humanos estão causando as mudanças climáticas; mas entre republicanos ocorre exatamente o oposto. Os republicanos com mais conhecimento científico são mais propensos a negar os efeitos das emissões causadas por humanos no meio ambiente.

Pesquisadores agora observaram padrões semelhantes em muitas outras questões - de controle de armas de fogo à exploração do solo com fraturamento hidráulico (fracking) e pesquisas com células-tronco -, em que mais conhecimento parece elevar a polarização política. Se você está tentando prever o resultado final de algo carregado de emoção, como o Brexit (a saída do Reino Unido da União Europeia), é quase certo que o raciocínio motivado esteja influenciando seu pensamento.

Além disso, pessoas inteligentes podem sofrer também de "dogmatismo conquistado" - em que suas percepções de sua própria especialidade fazem com que você tenha uma mente mais fechada a ideias diferentes. Se você tiver um diploma em Ciência Política, por exemplo, você pode ter a tendência de ignorar novas evidências que contradigam suas percepções - porque você acha que já sabe tudo que existe para se saber.

O peso da curiosidade

Nem toda pessoa inteligente cai nessas armadilhas, claro. Isso depende se sua inteligência é complementada por outras qualidades que garantem que você a utilize de maneira sábia.

Veja, por exemplo, a curiosidade. Tanto questionários quanto medidas de comportamento confirmam que algumas pessoas são naturalmente mais curiosas que outras - para elas, aprender coisas novas é uma recompensa em si mesma (e isso até provoca no cérebro uma injeção de dopamina, substância neurotransmissora ligada a recompensas).

Será que você realmente busca conhecimentos novos? Você teria vontade de ler um artigo de jornal sobre um assunto predileto, mesmo se ele ameaçar questionar seus pontos de vista? Pessoas assim parecem ser menos propensas a deixar que suas avaliações sejam direcionadas por suas posições políticas, já que sua fome por conhecimento novo supera suas tendências dogmáticas. Mas há muitas pessoas inteligentes que não têm essa fome de conhecimento em si mesmos.

Psicólogos também têm pesquisado o potencial protetor da "humildade intelectual" - em essência, o quanto custa para você admitir que está errado. Mais uma vez, isso pode ser medido por meio de questionários. As pessoas com maior humildade intelectual são menos propensas a ter pontos de vista polarizados e dogmáticos. Em vez disso, elas avaliam as evidências à sua disposição e escutam pontos de vista alternativos.

Humildade intelectual

No início do Projeto de Bom Julgamento, aqueles que faziam as melhores previsões mostravam exatamente esse tipo de pensamento - elas enfrentavam sua confiança e eram rápidas em admitir seus erros e atualizar suas opiniões quando novas evidências apareciam. Pessoas que eram mais propensas a um pensamento fechado e rígido, ao dogmatismo e à arrogância, entretanto, tinham um desempenho bem pior - independentemente de seu QI ou de suas credenciais acadêmicas.

Felizmente, nossas mentes são maleáveis: qualquer um pode aprender a evitar um raciocínio fechado a visões diferentes. Uma técnica é a estratégia de "considerar o oposto", em que você deliberadamente ocupa uma posição alternativa e argumenta contra suas intuições iniciais, uma prática que tem se provado capaz de reduzir a ocorrência de uma série de posições tendenciosas.

Também existem evidências de que aprender sobre falácias lógicas e erros comuns de pensamento pode ajudar qualquer pessoa a pensar mais racionalmente sobre o noticiário que você consome, para que você possa avaliar a informação com base na qualidade dos argumentos - em vez de apenas avaliar se ela se alinha com suas crenças já existentes. E uma renovação básica das maneiras de calcular risco e incerteza pode ajudar a melhorar seu processo de tomada de decisão numa série de áreas - como saúde, finanças e política.

Qualquer pessoa pode aprender a pensar de forma melhor - e a nossa nova competição de previsões pode ser uma oportunidade perfeita para uma pessoa refinar seus julgamentos. A prática de fazer previsões nos força a transformar nossas intuições e crenças em hipóteses que possam ser testadas e então comprovadas ou não. Como consequência, a pessoa aprenderá a superar o raciocínio motivado e o dogmatismo conquistado - caso ela sofra dessas características - e desenvolverá uma melhor compreensão de risco e incerteza.

Há evidências que sugerem que participantes de competições de previsões melhoram a precisão de seus palpites por meio de treinamento. Além disso, em comparação com um grupo de controle, os participantes de uma competição de previsões acabaram mostrando maior humildade intelectual e uma menor polarização em vários temas - incluindo assuntos que não haviam sido discutidos na competição em si. Eles aprenderam a questionar suas posições e olhar além das restrições impostas por suas ideologias.

Então por que não se inscrever em nosso projeto e ver como você se sai? Seja para se tornar especialista em previsões ou simplesmente para desenvolver um entendimento mais racional do mundo à sua volta, você poderá se surpreender com o que vai descobrir.

Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Future.


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